sexta-feira, 7 de agosto de 2015

ANTÓNIO MANUEL COUTO VIANA - Madrigal

 
 
 
 

António Manuel Couto Viana (Viana do Castelo, Portugal, 1923 – Lisboa, Portugal, 2010).

Foi poeta, dramaturgo, ensaísta, empresário teatral, director artístico, actor, encenador e tradutor.   

Esteve ligado a diversas publicações de literatura e cultura surgidas nos anos 50.

 
Palavras de António Manuel Couto Viana:
“A homenagem a um poeta que morreu é decorar-lhe os versos!”

 
 
        Madrigal

 
Ainda é possível este amor
Como um regresso ao paraíso?
Aroma apenas de uma flor?
O beijo apenas de um sorriso?
Ainda é possível este amor?
Qual a resposta que preciso?
E nada digo! E nada dizes!
Tudo nos basta num olhar
E que tu, mão, lisa, deslizes
Por sobre a minha, devagar...
Com pouco somos tão felizes
Que é já demais pedir luar!
E é já demais esta poesia
Se há cada vez menos valor
Nas tais palavras que diria
Para dizer-te o som e a cor
De um coração em harmonia
Que só se diz, dizendo: Amor!

 
António Manuel Couto Viana
Imagem: ilustração de Afonso Cruz (Figueira da Foz, Portugal, 1971).

 

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

SOMERSET MAUGHAM - A História da Humanidade em três Palavras

 
 
 
 
 
Somerset Maugham (Paris, França, 1874 – Nice, França, 1965).

Romancista, contista e dramaturgo foi o escritor mais bem pago do mundo na década de 1930.

 
Palavras de Somerset Maugham:

“Apenas os medíocres estão sempre no seu máximo.”

 
             História da Humanidade em três Palavras

 
Felipe lembrou-se da história do Rei do Oriente que, desejando conhecer a história da humanidade, recebeu de um sábio quinhentos volumes; ocupado com negócios de Estado, pediu-lhe que a condensasse.
Ao cabo de vinte anos, o sábio voltou e a sua história ocupava agora apenas cinquenta volumes; mas o rei, já velho demais para ler tantos livros volumosos, pediu-lhe que a fosse abreviar mais uma vez.
Passaram-se de novo vinte anos, e o sábio, velho e encanecido, trouxe um único volume com os conhecimentos que o rei procurara; este, porém, estava deitado no seu leito de morte, nem tinha mais tempo de ler sequer aquilo.
Aí o sábio deu-lhe a história da humanidade numa única linha: "Nasceram, sofreram, morreram".

 

Somerset Maugham, in "A Servidão Humana"

Imagem: pintura de Marianne North (Reino Unido, 1830 – 1890).

 

 

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

DALTON TREVISAN - Prémio Camões - 2012

 
 
 
 
 

Dalton Trevisan (Curitiba, Paraná, Brasil, 1925)

Depois de ter sido jornalista e crítico de cinema dedicou-se exclusivamente ao conto, tornando-se o maior mestre brasileiro no género.

Instituído pelos governos português e brasileiro em 1988, o “Prémio Camões” distingue, anualmente, um autor que, pelo conjunto da sua obra, tenha contribuído para o enriquecimento do património literário e cultural da língua portuguesa.

Entre 1946 e 1948, editou a revista Joaquim, "uma homenagem a todos os Joaquins do Brasil". A publicação tornou-se porta-voz de uma geração de escritores, críticos e poetas nacionais.

 

Palavras de Dalton Trevisan:

“Nunca jamais pensei merecer tamanha distinção. A consciência das minhas limitações como escritor proibiu-me sonhos mais altos. E agora, sem aviso, o Prémio Camões.”

 

Minha Vida Meu Amor


Olha minha vida meu amor
Há muito não és mais meu
Toda a loucura que fiz
Foi por você
Que nunca me deu valor
Por isso perdeu tua mulher
E teus filhos
Não posso com esta cruz
Acho muito pesada João
Você vem me desgostando
A ponto de me por no hospício
Uma vez conseguiu
Mas duas não
Aqui ô babaca
De tuas negras
Que nem os filhos se interessou
De batizar na igreja
Você só vai no bar do Luís
Outro boteco não achou
Mais perto da tua família
Só me operei que você obrigou
Agora não presto
Já não sirvo na cama?
Quis fazer de mim
A última mulher da rua
Mas não deixei
Por tua causa amor
Eu morro pelada
Abraçada com os dois anjinhos
No fundo do poço
Amor desculpe algum erro
E a falta de vírgula
 


Dalton Trevisan

Poema publicado na “Folha de São Paulo”, 27-11-1983.

 


terça-feira, 4 de agosto de 2015

GEORG LICHTENBERG - O Paradoxo do Tempo

 
 
 
 
 

Georg Lichtenberg (Alemanha, 1742 – 1799).

Filósofo, matemático e escritor foi o primeiro  professor de física experimental na Alemanha.

 

Palavras de Georg Lichtenberg:

Muitas vezes tenho uma opinião quando estou deitado e outra quando estou de pé.”

 

O Paradoxo do Tempo

 
Frequentemente observei o seguinte: quanto mais variados os acontecimentos que se sucedem, tanto mais rapidamente passam os nossos dias, mais longo, ao contrário nos parece o tempo passado, a soma desses dias.

Por outro lado, quanto mais monótonas as nossas ocupações, tanto mais longos se tornam os nossos dias, tanto mais curto o tempo passado ou a soma deles. A explicação não é difícil.

 

Georg Lichtenberg, in “Aforismos”

Imagem: pintura de Paul Gauguin (Paris, França, 1848 – Atuona, Polinésia Francesa, 1903).

 

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

LUPICÍNIO RODRIGUES e ALCIDES GONÇALVES - Cadeira Vazia

 
 




Cadeira Vazia

Entra, meu amor, fica à vontade
E diz com sinceridade o que desejas de mim
Entra, podes entrar, a casa é tua
Já te cansastes de viver na rua
E os teus sonhos chegaram ao fim
Eu sofri demais quando partiste
Passei tantas horas triste
Que nem quero lembrar esse dia
Mas de uma coisa podes ter certeza
O teu lugar aqui na minha mesa
Tua cadeira ainda está vazia
Tu és a filha pródiga que volta
Procurando em minha porta
O que o mundo não te deu
E faz de conta que sou teu paizinho
Que há tanto tempo aqui ficou sozinho
A esperar por um carinho teu
Voltaste, estás bem, estou contente
Mas me encontraste muito diferente
Vou- te falar de todo coração
Eu não te darei carinho nem afeto
Mas, pra te abrigar, podes ocupar meu teto
Pra te alimentar, podes comer meu pão



 

Autores: Lupicínio Rodrigues e  Alcides Gonçalves  (Brasil)

Esta canção foi gravada por Nelson Gonçalves e Elis Regina, respectivamente, no final dos anos 50 e em 1973.

domingo, 2 de agosto de 2015

EDGAR MORIN - Quando é que uma pessoa se torna intelectual?

 
 
 
 
 

Edgar Morin (Paris, França, 1921).
É considerado um dos principais pensadores contemporâneos e o fundador da Ciência da Complexidade.
O Método, a sua obra principal, é composta por seis volumes. Foi escrita durante trinta anos.

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                             Palavras de Edgar Morin:
“O pensamento político está reduzido à economia, como se tudo pudesse ser calculado.”

 
Quando é que uma pessoa se torna intelectual?

 
Quando é que uma pessoa se torna intelectual? Quer seja escritor, universitário, cientista, artista ou advogado, só se passa a ser intelectual, no meu sentido, quando se trata, por meio de ensaio, de texto de revista, de artigo de jornal, de forma especializada e para além do campo profissional estrito, dos problemas humanos, morais, filosóficos e políticos. É então que o escritor, o filósofo, o cientista se autoinstituem intelectuais.
 
O termo intelectual tem um significado missionário, divulgador, eventualmente militante. Assim, a qualidade de intelectual não é determinada pela pertença profissional à intelligentsia, antes vem do uso ou da superação da profissão, nas e pelas ideias.
 
Assim Sartre é um intelectual quando escreve “L'Existencialisme est un Humanisme” e anima a revista “Les Temps Modernes”.
Camus é um intelectual quando escreve “L'Homme Revolté” e faz editoriais em “Combat”.
 
Na frente dos intelectuais há a raça bastarda dos escritores/escreventes (como mais ou menos dizia Barthes, o escritor escreve para a escrita, o escrevente escreve para as ideias).
E o seu meio de expressão mais adequado é o ensaio, género híbrido entre a filosofia, a literatura, o jornalismo e a sociologia.
 
 
Edgar Morin, in “Os meus Demónios”.
Imagem: pintura de Frederic Leighton (Reino Unido, 1830 – 1896).                                

 

 

sábado, 1 de agosto de 2015

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE - A Máquina do Mundo

 
 




Carlos Drummond de Andrade (Itabira, Brasil, 1902 – Rio de Janeiro, Brasil, 1987).

Foi o primeiro grande poeta posterior aos movimentos que inauguraram o modernismo brasileiro.

 
Palavras de Carlos Drummond de Andrade:
Há duas épocas na vida, infância e velhice, em que a felicidade está numa caixa de bombons.”

 
       
        A Máquina do Mundo

 
 
E como eu palmilhasse vagamente
uma estrada de Minas, pedregosa,
e no fecho da tarde um sino rouco

se misturasse ao som de meus sapatos
que era pausado e seco; e aves pairassem
no céu de chumbo, e suas formas pretas

lentamente se fossem diluindo
na escuridão maior, vinda dos montes
e de meu próprio ser desenganado,

a máquina do mundo se entreabriu
para quem de a romper já se esquivava
e só de o ter pensado se carpia.

Abriu-se majestosa e circunspecta,
sem emitir um som que fosse impuro
nem um clarão maior que o tolerável

pelas pupilas gastas na inspeção
contínua e dolorosa do deserto,
e pela mente exausta de mentar

toda uma realidade que transcende
a própria imagem sua debuxada
no rosto do mistério, nos abismos.

Abriu-se em calma pura, e convidando
quantos sentidos e intuições restavam
a quem de os ter usado os já perdera

e nem desejaria recobrá-los,
se em vão e para sempre repetimos
os mesmos sem roteiro tristes périplos,

convidando-os a todos, em coorte,
a se aplicarem sobre o pasto inédito
da natureza mítica das coisas,

assim me disse, embora voz alguma
ou sopro ou eco ou simples percussão
atestasse que alguém, sobre a montanha,

a outro alguém, noturno e miserável,
em colóquio se estava dirigindo:
"O que procuraste em ti ou fora de

teu ser restrito e nunca se mostrou,
mesmo afetando dar-se ou se rendendo,
e a cada instante mais se retraindo,

olha, repara, ausculta: essa riqueza
sobrante a toda pérola, essa ciência
sublime e formidável, mas hermética,

essa total explicação da vida,
esse nexo primeiro e singular,
que nem concebes mais, pois tão esquivo

se revelou ante a pesquisa ardente
em que te consumiste... vê, contempla,
abre teu peito para agasalhá-lo.”

As mais soberbas pontes e edifícios,
o que nas oficinas se elabora,
o que pensado foi e logo atinge

distância superior ao pensamento,
os recursos da terra dominados,
e as paixões e os impulsos e os tormentos

e tudo que define o ser terrestre
ou se prolonga até nos animais
e chega às plantas para se embeber

no sono rancoroso dos minérios,
dá volta ao mundo e torna a se engolfar,
na estranha ordem geométrica de tudo,

e o absurdo original e seus enigmas,
suas verdades altas mais que todos
monumentos erguidos à verdade:

e a memória dos deuses, e o solene
sentimento de morte, que floresce
no caule da existência mais gloriosa,

tudo se apresentou nesse relance
e me chamou para seu reino augusto,
afinal submetido à vista humana.

Mas, como eu relutasse em responder
a tal apelo assim maravilhoso,
pois a fé se abrandara, e mesmo o anseio,

a esperança mais mínima — esse anelo
de ver desvanecida a treva espessa
que entre os raios do sol inda se filtra;

como defuntas crenças convocadas
presto e fremente não se produzissem
a de novo tingir a neutra face

que vou pelos caminhos demonstrando,
e como se outro ser, não mais aquele
habitante de mim há tantos anos,

passasse a comandar minha vontade
que, já de si volúvel, se cerrava
semelhante a essas flores reticentes

em si mesmas abertas e fechadas;
como se um dom tardio já não fora
apetecível, antes despiciendo,

baixei os olhos, incurioso, lasso,
desdenhando colher a coisa oferta
que se abria gratuita a meu engenho.

A treva mais estrita já pousara
sobre a estrada de Minas, pedregosa,
e a máquina do mundo, repelida,

se foi miudamente recompondo,
enquanto eu, avaliando o que perdera,
seguia vagaroso, de mãos pensas.

 

Carlos Drummond de Andrade, in “Claro Enigma”.

 

MALMEQUER

MALMEQUER Português, ó malmequer Em que terra foste semeado? Português, ó malmequer Cada vez andas mais desfolhado Ma...