sábado, 7 de maio de 2016

DOMINIQUE LAPIERRE – Escritor e filantropo





Dominique Lapierre (Châtelaillon-Plage, França, 1931).

Aos 17 anos iniciou, a partir de Paris, uma viagem de 30.000 milhas percorrendo a América do Norte. Desta viagem resultou a ideia de publicar o livro Un dollar les mille kilomètresque foi um best-seller.

Trabalhou na “Paris Match” no início dos anos 60.

Recebendo a informação sobre o desvio um navio de cruzeiros, “Santa Maria”, que tinha sido desviado por um português chamado Henrique Galvão, com o objectivo de chamar a atenção mundial para a ditadura de Salazar, conseguiu obter uma entrevista exclusiva com Galvão.

Em 1981, fundou uma Associação Humanitária chamada “A Cidade da Alegria”, que recupera crianças que sofrem de lepra e tuberculose que vivem nos bairros de lata de Calcutá, Índia.
Esta Associação é apoiada pelos royalties dos seus sucessos literários.

Escreveu um livro sobre a independência da Índia, Esta Noite a Liberdade.
Outro livro que obteve grande sucesso foi A Cidade da Alegria, que narrava a história dos pobres de um bairro de lata de Calcutá. Vendeu mais de 9 milhões de exemplares e foi traduzido em várias línguas.

Dois dos livros de Dominique Lapierre, Paris já Está a Arder?, escrito com a participação de Larry Collins, e A Cidade da Alegria, foram adaptados para cinema. 


Palavras de Dominique Lapierre: 
"Com a venda de um único exemplar desta obra, (A Cidade da Alegria) eu alimento dez crianças leprosas durante uma semana."







sexta-feira, 6 de maio de 2016

MARGARIDA DE ABREU- Pioneira da Dança em Portugal






Margarida de Abreu (Lisboa, Portugal, 1915 – 2006).

É unanimemente reconhecida como uma das personalidades mais marcantes das artes do século XX português.

Todos os seus discípulos – entre os quais se contam várias gerações de bailarinos e actores de nomeada, a consideravam uma personalidade brilhante e de uma lucidez, sensibilidade, inteligência e argúcia ímpares.
Muitos deles referem, frequentemente, a “musicalidade” que imprimia nas suas aulas e coreografias e a habilidade de colocar em cena, harmoniosamente, corpos e personalidades muito distintas. 

Vários também destacam o seu valioso papel “mecenático” tendo aberto, gratuitamente, o seu estúdio aos que não tinham posses ou, mesmo, pagando viagens e estudos no estrangeiro a outros.

O seu papel pioneiro deixa o seu nome ligado aos primeiros agrupamentos de dança do país e a artistas que estão na base de quase todos os que hoje existem.

Era mãe da bailarina Maria João Salomão e tia da bailarina Maria de Freitas Branco, irmã da pianista Helena de Freitas Branco e cunhada do musicólogo João de Freitas Branco.

Estudou dança rítmica em Portugal (com Cecil Kitkat e Sosso Dukas-Schau) e na Suíça, no Institut Jacques Dalcroze, onde se graduou em 1937.

Prosseguiu os seus estudos na Alemanha, na Deutsche Tanz Schule (Berlim) e na Austria, na Hellerau Laxemburg Schule (Viena). Foi professora do Curso de Bailarinas e do Curso de Teatro do Conservatório Nacional (1939-1986) e do Centro de Estudos de Bailado do Instituto de Alta Cultura, vulgo Escola do Teatro de S. Carlos, (1964-1972) e directora artística do Circulo de Iniciação Coreográfica entre 1944 e 1960 do qual saíram os Bailados Margarida de Abreu, o Bailado em Acção e, mais recentemente, o Grupo Studium.

Entre 1960 e 1975, de parceria com o seu discípulo Fernando Lima, exerceu as funções de directora artística do Grupo de Bailados Portugueses Verde Gaio. 

Para os seus grupos de dança, peças de teatro e óperas (no Teatro de S. Carlos) criou cerca de meia centena de coreografias

Sobre D. Margarida, Águeda Sena, uma das suas mais talentosas e conhecidas discípulas, afirmou "ser uma das melhores professoras que teve".
E acrescentou: ela sabia muitíssimo de música e esse conhecimento profundo veio da sua cultura e sensibilidade. Foi uma das alunas favoritas de Jacques Dalcroze. Pena foi que aqui esse tipo de dança, que se fazia em toda a Europa, não tivesse vingado em Portugal. Ela tinha um fascínio pela dança clássica mas, por razões físicas, não estava muito talhada para esse estilo. Diz-se que os dedos dos pés tinham uma proporção que não lhe permitia usar sapatilhas de pontas. Pena foi que acabasse por cair num pseudo ballet que a afastou da sua natural vocação de dança livre e, sempre, prenhe de musicalidade.
Era uma pessoa muito bem-educada e culta e que fazias todas as coisas com um misto de seriedade e bom gosto. Devemos-lhe imenso. Acima de tudo o gosto e o amor pela dança.



Fonte: Revista da Dança
Imagem: Retrato de Margarida de Abreu de autoria do pintor Eduardo Malta.


quinta-feira, 5 de maio de 2016

ALFREDO PIMENTA - Versos são notas musicais apenas





Alfredo Pimenta (Guimarães, Portugal, 1882 – Lisboa, Portugal, 1950).

Historiador, poeta e escritor.
Notabilizou-se na crítica e polémica.
Passando do anarquismo para o evolucionismo republicano, aderiu ao ideal monárquico.
Escreveu numerosos estudos de filosofia política, polémica, filosofia, história, crítica e arte.
Algumas das suas obras poéticas: Eu, Para a Minha Filha, Alma Ajoelhada, Coimbra: poema de saudade e desafronta, O Livro da Minha Saudade.


Versos são notas musicais apenas



Versos são notas musicais apenas
O ritmo é tudo e nada o ritmo iguala,
Quer cante a água em frescas cantilenas,
Ou o búzio cante em sua voz que fala…

A voz nos perde, de irreais sirenas,
Só pelo ritmo que tal voz exala…
Versos são notas musicais apenas,
O ritmo é tudo, e nada o ritmo iguala.

Que outros componham versos bem diversos
Dos que eu componho, e pelos quais cativo
Vivo, e entre belos sonhos imortais…
Mas que os meus versos, os inúteis versos
Que me revelam como sou e vivo,
Que esses sejam apenas musicais!


Alfredo Pimenta, in “Últimos Ecos de Um Violino Partido"



quarta-feira, 4 de maio de 2016

CONFERÊNCIAS CIENTÍFICAS - O alho







CONFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
(Para os alunos dos liceus)


O ALHO


O alho, vegetalmente falando, é um tempero. Todos os meninos e meninas que me escutam sabem que é ele, se não o condimento principal da açorda, aquele que lhe dá o gostinho especial tão do agrado dos nossos paladares.

Encontra-se o alho profusamente espalhado na natureza e em especial nos mercados, como o da Praça da Figueira e o do Aterro, não sendo também raro encontrar-se nos ceirões dos vendedores ambulantes e ainda aos ombros destes, dispostos em séries, que se denominam réstias.

Do alho só se aproveita, para uso doméstico, a cabeça; as outras partes do corpo desprezam-se.

De todos os temperos, é o alho o mais inteligente; diz-se “esperto como um alho” e não esperto como uma cebola, como a salsa, como a pimenta, etc.

“Sou um alho” significa que sou um barra, uma luminária ou outro objecto qualquer de reconhecido talento.

É certo que se diz dos parvos que são “cabeças de alho”, mas nesta expressão está subentendida a palavra “podre”, porque as cabeças de alhos podres é que já não servem para nada.

Possui o alho uma anomalia anatómica muito de notar e é que não tem crânio nem faces, mas dentes unicamente, apresentando ainda a particularidade de nunca os mudar, de ter uma única dentição; pelo que o alho não sofre nunca daquelas impertinentes rabugens infantis, que se atribuem aos primeiros dentes.

Referimo-nos nestas ligeiras considerações ao alho civilizado, ao que a cultura tornou propício à conveniência do homem; há, contudo, também o alho selvagem ou bravo, cujo nome popular é igual ao de certo general italiano, que se não pode dizer adiante de meninos nem, muito principalmente, de meninas. Sabê-lo-ão a seu tempo.

Sem mais por hoje
             
                                                                                Bonaparte
                                                                  (Aluno do Liceu Camões).




Fonte: HML – “Século Cómico” nº 975, de 10 de Julho de 1916, suplemento humorístico do jornal “O Século”.

terça-feira, 3 de maio de 2016

CHINUA ACHEBE - Borboleta






Chinua Achebe (Ogidi, Nigéria, 1930 – Boston, EUA, 2013).

Romancista, poeta e crítico literário é um dos autores africanos que mais se distinguiram no século XX.

Chamado de “pai da escrita Africana moderna”, foi um dos romancistas mais lidos, não só na Nigéria como em todo o mundo.
Escreveu sobre o colonialismo europeu como nunca antes alguém escrevera.
Recebeu mais de 30 graus honorários de universidades de vários países.

Alguns dos seus livros: Quando Tudo se Desmorona, A Flecha e Deus, Um Homem Popular.



Palavras de Chinua Achebe:
“Minha arma é a literatura.”



     Borboleta

Velocidade é violência
Poder é violência
Peso é violência

A borboleta procura segurança na leveza
Na imponderabilidade e ondulação do vôo

Mas numa encruzilhada onde a luz mosqueada
Cai das árvores numa nova estrada rude
Os nossos territórios convergentes encontram-se

Eu chego com poder suficiente para dois
E a gentil borboleta oferece-se
Num sacrifício amarelo e brilhante
Contra o meu duro escudo de silício.




segunda-feira, 2 de maio de 2016

LENDA – A moeda de prata







A moeda de prata


Era uma vez… estava-se a 14 de Outubro do ano da Graça de Nosso Senhor Jesus Cristo de 1605. Ali para os lados de São Silvestre, da freguesia de Colmeias, vivia um velhinho, chamado Henrique Dias, com sua filha, uma moça casadoira, que se sentia muito doente.

Volta e meia começava ela a rebolar-se no chão, com muitas dores.
Naquele dia, já o sol era nado, teve um ataque que a fez estrebuchar longamente, pois tinha, como dizia o povo, o diabo no corpo.

Alguns vizinhos, condoídos da triste sorte da rapariga, que viam tão dorida e lacrimosa, levaram-na à igreja para que Nossa Senhora da Pena lhe valesse.
Era a hora da Santa Missa e a igreja estava cheia de fiéis.

A moça foi levada até próximo do altar e, olhando para a imagem de Nossa Senhora, logo teve um afrontamento e quando estava quase a desmaiar teve um vómito mais violento e expeliu, pela boca, uma moeda de prata, de vintém.

A rapariga de pronto se endireitou e sentindo-se curada rezou a Nossa Senhora com tanta devoção como até então nunca fizera.



Fonte: Anais do Município de Leiria – João Cabral
Imagem: pintura de Edvard Munch (Noruega, 1863 -1944).





domingo, 1 de maio de 2016

O SILÊNCIO EXISTE?







     O SILÊNCIO EXISTE?


O silêncio não existe porque é o constante rumor de uma inexistência. O que se ouve, para além do movimento da cidade, é o monótono murmúrio do nada. Apenas sombra de nada, quem nele procura um apelo ou uma resposta não os encontra ou encontra um sinal negativo.
Nada diz esse murmúrio nulo, que é o eco inalterável do vazio do mundo, mas quem o ouve sente a radicalidade da sua negação como se a cada momento nos dissesse: Não há. 


António Ramos Rosa, in “Relâmpago de Nada” 
Imagem: pintura de Fabiano Millain (São Paulo, Brasil,1981)


MALMEQUER

MALMEQUER Português, ó malmequer Em que terra foste semeado? Português, ó malmequer Cada vez andas mais desfolhado Ma...