sábado, 7 de abril de 2018

UMA ALEGRIA PLENAMENTE JUSTIFICADA



Uma alegria plenamente justificada

A 30 de Dezembro de 1905 sobe à cena do vienense "Theater na der Wien" a opereta A viúva alegre, de Franz Lehár. Trata-se, sem dúvida, da pior data do ano para uma estreia, mas é tal a desconfiança dos empresários do teatro («esta obra é, na verdade, demasiado inovadora e demasiado original no seu género», sustentava a direcção), que, convencidos do desaire, decidem recorrer a todos os meios ao seu alcance para que este se produza.

No entanto, e para surpresa de todos, excepto do compositor e dos intérpretes, a opereta obtêm um êxito clamoroso.

O final do 1.º acto, por exemplo, teve de repetir-se três vezes. A obra mantém-se em cartaz durante todo um mês com o rótulo de «esgotado». A partir desse momento, o seu autor, Lehár, será considerado o autêntico sucessor de Johann Strauss II.                                      


in “Crónica da Música”

sexta-feira, 6 de abril de 2018

JACQUES PRÉVERT - Familiar



JACQUES PRÉVERT
(França, 1900 - 1977)
Poeta

***
Familiar

A mãe faz tricô
O filho vai à guerra
Tudo muito natural acha a mãe
E o pai que faz o pai?
Negocia
A mulher faz tricô
O filho luta na guerra
Ele negocia
Tudo muito natural acha o pai
E o filho e o filho
o quê que o filho acha?
Nada absolutamente nada acha o filho
O filho sua mãe faz tricô seu pai negocia ele luta na guerra
Quando tiver terminado a guerra
Negociará com o pai
A guerra continua a mãe continua ela tricota
O pai continua ele negocia
O filho foi morto ele não continua mais
O pai e a mãe vão ao cemitério
Tudo muito natural acham o pai e a mãe
A vida continua a vida com o tricô a guerra os negócios
Os negócios a guerra o tricô a guerra
Os negócios os negócios e os negócios
A vida com o cemitério.


Tradução: Silviano Santiago



quinta-feira, 5 de abril de 2018

PEDRO TAMEN - Amar-te é Vir de Longe



PEDRO TAMEN
(Lisboa, Portugal, 1934)
Poeta, tradutor

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A sua poesia, reunida em Tábua das Matérias (1956-1991), foi galardoada com o prémio da Crítica e com o Grande Prémio Inapa de Poesia.
Está representado nas antologias de poesia portuguesa contemporânea. A sua obra está traduzida e publicada em várias línguas.
Obteve o Grande Prémio de Tradução em 1990.


in “Instituto Camões”

***

Amar-te é Vir de Longe

Amar-te é vir de longe,
descer o rio verde atrás de ti,
abrir os braços longos desde os sete
anos sob a latada ao pé do largo,
guardar o cheiro a figos vistos lá,
a olho nu, ao pé, ao pé de ti,
parar a beber água numa fonte,
um acaso perdido no caminho
onde os vimes me roçam a memória
e te anunciam mãos e te perfazem;
como se o sino à hora de tocar
já fosse o tempo todo badalado,
e a tua boca se abrisse atrás do tojo,
e abaixo dos calções as pernas nuas
se rasgassem só para o pequeno sangue,
tal o pequeno preço que me pedes.
Atrás da curva estavas, és, serias,
nos muros de granito, nas amoras.
Amar-te era lembrança e profecias,
uma porta já feita para abrir,
e encontrar o lar ou música lavada
onde, se nasces, vives, duras, moras
— meu nome exacto e pão
 no chão das alegrias.

quarta-feira, 4 de abril de 2018

STENDHAL - Escritor



STENDHAL
(França, 1783 - 1842)
Escritor

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Henry Beyle, que alcançou a imortalidade na literatura sob o pseudónimo de Stendhal, foi acima de tudo um espectador apaixonado, caloroso sob uma timidez inata, lúcido e quase cínico, do seu próprio tempo. As circunstâncias proporcionaram ao seu talento irrequieto e estranho um dos mais ricos panoramas vivos da história.

Protegido por Daru, grande admirador das campanhas napoleónicas, foi pela primeira vez à Itália que nunca mais deixou de ser a pátria decorativa e ardente da sua fantasia.

Assistiu ao incêndio de Moscovo e à derrocada de Napoleão, observou com realismo intelectual as tragédias da guerra, correu aventuras e amores em muitos destinos. De tudo lhe ficou uma cruel frieza para conhecer até ao fundo as misérias e grandezas do ser humano, um amoralismo que só no movimento desencadeado da acção e das paixões se compraz – e um aborrecimento doentio para a vida calma a que teve de sujeitar-se daí em diante.

Além dos romances Le Rouge et le Noir e La Chartreuse de Parme, em que as suas espantosas qualidades de vivificador, de personagens em movimento e em paixão se aliam a alguns defeitos igualmente fortes, Stendhal publicou ainda os romances Armance, Vanina Vanini, Les Cenci, L´Abesse de Castro – obras de movimento desencadeado e fremente, saturados de acção, de paixões arrebatadas, de ódios inexpiáveis, de energia por vezes brutal e quase sempre cega nas vidas que representa: e livros de viagens como Mémoires d´un turiste ou de história literária, como Racine et Shakespeare.

Como romancista, a obra de Stendhal situa-se numa surpreendente diversidade de sentidos, entre a literatura do século XVIII, em que colheu muito da sua ideologia estética e moral sobre a natureza humana, o romantismo que lhe comunicou a exuberância e o fogo, e um naturalismo antecipado pelo vigor com que rebusca as fatalidades temperamentais, a fisiologia dos sentimentos e a verdade dos costumes. O romance, como ele mesmo disse, «c´est un miroir que l´on promène le long d´un chemin».



Álvaro Salema, in “Mundo Literário” - 1946 (excertos)







terça-feira, 3 de abril de 2018

T.S. ELIOT - O Nome dos Gatos



T.S. ELIOT
(EUA, 1888 - Inglaterra, 1965)
Poeta, dramaturgo

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O Nome dos Gatos

Dar nome aos gatos é assunto complicado,   
Não é apenas um jogo que divirta adolescentes;
Podem pensar, à primeira vista, que sou doido desvairado Quando eu digo, um gato deve ter TRÊS NOMES DIFERENTES.

Primeiro, temos o nome que a família usa diariamente,    Como Pedro, Augusto, Alonso ou Zé Maria,
Como Vitor ou Jonas, Jorge ou Gui Clemente –    
Todos nomes sensíveis para o dia-a-dia.

Há nomes mais requintados se pensam que podem soar melhor,   
Alguns para os cavalheiros, outros para titia:
Como Platão, Demetrius, Electra ou Eleonor –   
Mas todos eles são sensíveis nomes de todo dia.

Mas eu digo, um gato precisa ter um nome que é particular,    
Um nome que lhe é peculiar, e que muito o dignifica,

De outro modo, como poderia manter sua cauda perpendicular,   
Ou espreguiçar os bigodes, orgulhar-se de sua estica?
Dos nomes deste tipo, posso oferecer um quórum,   
Como Munkustrap, Quaxo, ou Coricopato,
Como Bombalurina, ou mesmo Jellylorum –   
Nomes que nunca pertencem a mais de um gato.

Mas, acima e para além, ainda existe um nome a suprir,    
E este é o nome que você jamais cogitaria;
O nome que nenhuma investigação humana pode descobrir    
Mas O GATO E SOMENTE ELE SABE, e nunca o confessaria.

Se um gato for surpreendido com um olhar de meditação,    
A razão, eu lhe digo, é sempre a mesma que o consome: 
Sua mente está engajada em uma rápida contemplação    
De lembrar, de lembrar, de lembrar qual é o seu nome:        
Seu inefável afável       
Inefavefável
Oculto, inescrutável e singular Nome.



Tradução: Rodrigo Suzuki Cintra 





segunda-feira, 2 de abril de 2018

SYLVIA PLATH - Ariel



SYLVIA PLATH
(Boston, EUA, 1932 — Londres, Reino Unido, 1963)
Poetisa, dramaturga

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A sua obra descreve a violência e as inquietações da mente humana.
Em 1963, publicou um romance semi-autobiográfico, A Redoma de Vidro, sob o pseudónimo Victoria Lucas.

                                                   ***
Ariel

Estancamento no escuro
E então o fluir azul e insubstancial
De montanha e distância.

Leoa do Senhor como nos unimos
Eixo de calcanhares e joelhos!… O sulco

Afunda e passa, irmão
Do arco tenso
Do pescoço que não consigo dobrar.

Sementes
De olhos negros lançam escuros
Anzóis…

Negro, doce sangue na boca,
Sombra,
Um outro vôo

Me arrasta pelo ar…
Coxas, pêlos;
Escamas e calcanhares.
Branca
Godiva, descasco
Mãos mortas, asperezas mortas.

E então
Ondulo como trigo, um brilho de mares.
O grito da criança

Escorre pela parede.
E eu
Sou a flexa,

O orvalho que voa,
Suicida, unido com o impulso
Dentro do olho

Vermelho, caldeirão da manhã.

domingo, 1 de abril de 2018

GEORGES MINOIS – O inextinguível riso dos deuses


GEORGES MINOIS
(França, 1946)
Escritor, professor de História

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O inextinguível riso dos deuses

«Depois de o deus rir, nasceram os sete deuses que governam o mundo… Quando ele rompeu às gargalhadas, surgiu a luz (…) Gargalhou segunda vez, e tudo foram águas. À terceira gargalhada, apareceu Hermes; à quarta, a geração; à quinta, o destino; à sexta, o tempo». Depois, antes do sétimo riso, o deus inspirou fortemente, mas tanto riu que até chorou, e das suas lágrimas nasceu a alma.

Assim nos fala o autor anónimo de um papiro alquímico do século III da nossa era: o papiro de Leiden. 

O universo surgiu de um enorme acesso de riso. O deus, o Único, seja ele qual for o seu nome, foi presa – não sabemos por quê – de uma crise de riso louco, como se subitamente tivesse tomado consciência do absurdo da sua existência. Nesta versão da criação, o deus não cria pela palavra, que já é civilização, mas por essa explosão de vida selvagem, e cada uma dessas sete gargalhadas faz surgir do nada um novo absurdo tão absurdo como o próprio deus: luz, água, matéria e espírito. 

E depois deste big bang cómico e cósmico, o deus e o universo – aquele que ri e a sua explosão de riso – ficam num eterno cara-a-cara, interrogando-se sobre que fazem aqui.



in”História do Riso e do Escárnio”

MALMEQUER

MALMEQUER Português, ó malmequer Em que terra foste semeado? Português, ó malmequer Cada vez andas mais desfolhado Ma...