sexta-feira, 22 de junho de 2018

LUIZA NETO JORGE - Acordar na Rua do Mundo


LUIZA NETO JORGE
(Lisboa, Portugal, 1939 - 1989)
Poetisa, tradutora

***
Ainda hoje é considerada a personalidade de maior destaque do grupo de poetas que se reuniu em torno de “Poesia 61”, no âmbito do qual publicou Quarta Dimensão.
Como tradutora deixou uma obra inigualável, nos domínios da poesia, da ficção e do teatro.


in “Dicionário de Autores Portugueses” (excerto)


***
Acordar na Rua do Mundo

madrugada, passos soltos de gente que saiu
com destino certo e sem destino aos tombos
no meu quarto cai o som depois
a luz. ninguém sabe o que vai
por esse mundo. que dia é hoje?
soa o sino sólido as horas. os pombos
alisam as penas, no meu quarto cai o pó.

um cano rebentou junto ao passeio.
um pombo morto foi na enxurrada
junto com as folhas dum jornal já lido.
impera o declive
um carro foi-se abaixo
portas duplas fecham
no ovo do sono a nossa gema.

sirenes e buzinas, ainda ninguém via satélite
sabe ao certo o que aconteceu, estragou-se o alarme
da joalharia, os lençóis na corda
abanam os prédios, pombos debicam

o azul dos azulejos, assoma à janela
quem acordou. o alarme não pára o sangue
desavém-se. não veio via satélite a querida imagem o vídeo
não gravou

e duma varanda um pingo cai
de um vaso salpicando o fato do bancário



quinta-feira, 21 de junho de 2018

MÁRIO BEIRÃO - Ausência



MÁRIO BEIRÃO
(Beja, Portugal, 1890 - Lisboa, 1965)
Poeta

***

Pertenceu ao grupo saudosista aglutinado à volta da revista A Águia, tendo-se estreado com o livro O Último Lusíada, 1913. Já então, a par das características saudosistas, manifesta um tom populista precursor quer do telurismo de Miguel Torga quer do regionalismo dos neo-realistas. 

A primeira fase da sua obra compõe-se dos poemas integrados no movimento Renascença Portuguesa. Na segunda fase canta sobretudo a paisagem alentejana e a «ausência». A parti de 1940 tende para a exaltação do nacionalismo monárquico.   


in “Portugal Século XX”

***

Ausência

Nas horas do poente,
Os bronzes sonolentos,
— Pastores das ascéticas planuras —
Lançam este pregão ao soluçar dos ventos,
À nuvem erradia,
Às penhas duras:
— Que é dele, o eterno Ausente,
Cantor da nossa vã melancolia?

Nas tardes duma luz de íntimo fogo,
Rescendentes de tudo o que passou,
Eu próprio me interrogo:
— Onde estou? Onde estou?
E procuro nas sombras enganosas
Os fumos do meu sonho derradeiro!

— Ventos, que novas me trazeis das rosas,
 Que acendiam clarões no meu jardim?
— Pastores, que é do vosso companheiro?
— Saudades minhas, que sabeis de mim?



quarta-feira, 20 de junho de 2018

STEPHEN SPENDER – Sobre a Arte e a Vida



STEPHEN SPENDER
(Reino Unido, 1909- 1995)
Poeta, romancista e ensaísta

***

Sobre a Arte e a Vida

O artista criador sabe muito bem que a arte não constitui a vida inteira, sem o que se bastaria a si próprio, se isolaria do mundo dos vulgares mortais, e veríamos os artistas, felizes e irreais, criar uma arte verdadeiramente pura.

Certas pessoas que não são artistas, ou que são maus artistas, pensam de facto que a arte é um mundo isolado do mundo, e no qual a experiência estética é tudo. Esses são os virtuosos da arte e da crítica, espíritos inteiramente revestidos de matéria estética, dispensados da necessidade de viver a sua vida. (...)

O triunfo da arte não consiste apenas em triunfar das dificuldades técnicas, mas em resolver os conflitos da vida para fazer deles uma forma mais duradoura da aceitação e da contemplação. Considerar as obras-primas da arte, esses grandes actos de aceitação, como se fossem actos de recusa e de evasão, é apenas uma forma de perder contacto, de deixar a máquina em movimento sem as rodas girarem. (...)

A vida tal como a experimentamos na obra de arte, só é intensa e por vezes dolorosa, porque atinge, na realidade, a vida de uma profunda e terrível experiência. Sem essa experiência, a arte exprimiria apenas uma tendência para uma perfeição vazia. Mas a arte verdadeira assimila o verdadeiro conflito da vida; a matéria-prima de sentimentos e de sensações que parecem insusceptíveis de terem expressão, e na arte quebrada, fundida e transformada de tal forma que deixamos de a reconhecer. A obra de arte não diz: «Eu sou a vida. Ofereço-vos a possibilidade de vos transformardes em mim»; pelo contrário, o que ela nos diz é: «Eis a imagem da vida. A vida é ainda mais real, ainda mais inevitável do que podeis supor. Mas dou-vos um exemplo de aceitação e de compreensão. E agora, vivei».



in “Diário de Setembro”.
Imagem: autor da fotografia: Ulf Andersen



terça-feira, 19 de junho de 2018

ARMANDO DA SILVA CARVALHO - Varanda de Pilatos



ARMANDO DA SILVA CARVALHO
(Óbidos, Portugal, 1938 – Caldas da Rainha, 2017)
Poeta, escritor, tradutor

***

Varanda de Pilatos

Não há tempo. Há o espaço. O sol e as nossas voltas.
Os bocejos da lua, o clã dos astros.
Os buracos negros.
Ó mãe! Para onde foram os seres vivos de ainda
Há pouco em todo o seu esplendor?
Mortos como tu, a natureza recebe-os.
A Terra, essa criança atroz, destrói os seus brinquedos
Numa rotina mecânica.
Quantas noites me faltam? Quantos beijos no escuro?
Quanta luz me cabe ainda nas pupilas?
Os anos não me matam, não me ferem os meses,
As horas não me guilhotinam.
As células vão ardendo nos seus mapas
De nervos, o sangue demora sempre mais um pouco
A chegar ao seu destino orgânico.
Devagar, devagar, a cabeça amolece.
Devagar no colo do sono.
Ó mãe. Um ninho. Uma cama macia no teu ventre.
Uma exposição de sinais. Uma geometria
Que me liga ao saber acumulado. 




segunda-feira, 18 de junho de 2018

ARTHUR SCHOPENHAUER – A essência da música



ARTHUR SCHOPENHAUER
(Polónia, 1788 - Alemanha, 1860)
Filósofo

***
                        
A essência da música

Depois de meditar muito tempo sobre a essência da música, recomendo o prazer dessa arte como a mais requintada de todas.
Nenhuma outra age de modo mais directo, mais profundo, porque não há outra que revele de forma mais objectiva e profunda a verdadeira natureza do mundo.

Ouvir grandes e belas melodias é como um banho para o espírito: purifica-o, do que é mau e mesquinho; eleva o homem e coloca-o em sintonia com os mais nobres pensamentos de que é capaz, e só assim ele sente claramente tudo o que vale, ou melhor, tudo o que poderia valer.    



domingo, 17 de junho de 2018

MÁRIO VARGAS LLOSA - Palavras



MÁRIO VARGAS LLOSA
(Arequipa, Peru, 1936)
Escritor, professor universitário, político

***
É um dos mais importantes escritores da América Latina e do mundo. Foi agraciado com o Prémio Nobel de Literatura em 2010.

***

Palavras de Mário Vargas Llosa

“Sem ficções, seríamos menos conscientes da importância da liberdade para que a vida seja vivida e do inferno em que ela se transforma quando é pisada por um tirano, uma ideologia ou uma religião.”

*

"Nenhum escritor digno desse nome escreve romances só para fazer propaganda de suas convicções políticas. A literatura fica muito deformada se for julgada somente pela ideologia de seu autor.”

*
"Se tivesse que salvar do fogo apenas um de meus romances, salvaria Conversa no Catedral."

*
“O desaparecimento do intelectual significa também o desaparecimento das ideias e da razão como um factor central da vida social e política. Hoje em dia, as ideias foram trocadas pelas imagens, que são mais facilmente manipuláveis. Isso é uma grande ameaça para a democracia, pois uma sociedade com escassez de ideias tem suas instituições sob forte risco.”

*
“Algo anda mal na cultura de um país se os seus artistas, em lugar de se proporem mudar o mundo e revolucionar a vida, se empenham em alcançar protecção e subsídios do governo.”




sábado, 16 de junho de 2018

EUGÉNIO DE CASTRO - Em que emprego o meu tempo?


EUGÉNIO DE CASTRO
(Coimbra, Portugal, 1869 - 1944)
Poeta

 ***

Com a publicação de Oaristos, 1890, e Horas, 1891, introduziu o simbolismo em Portugal.
O seu temperamento sensorial levou-o depois a um neoclassicismo dotado e um excepcional sentido de beleza plástica.


in “Livro dos Portugueses” (excerto)

***
        
EM QUE EMPREGO O MEU TEMPO?


Em que emprego o meu tempo? Vou e venho,

Sem dar conta de mim nem dos pastores,  

Que deixam de cantar os seus amores,  

Quando passo e lhes mostro a dor que tenho.  



É de tristezas o torrão que amanho,  

Amasso o negro pão com dissabores,  

Em ribeiros de pranto pesco dores,  

E guardo de saudades um rebanho.  



Meu coração à doce paz resiste,  

E, embora fiqueis crendo que motejo,  

Alegre vivo por viver tão triste!  



Amor se mostra nesta dor que abrigo:  

Quero triste viver, pois vos não vejo,  

Nem sequer muito ao longe vos lobrigo.



MALMEQUER

MALMEQUER Português, ó malmequer Em que terra foste semeado? Português, ó malmequer Cada vez andas mais desfolhado Ma...