segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

A POESIA E A PAZ – (IV)

 
 

 
Paz, Poetas e Pombas
 
 
A Paz viajou em busca da silêncio
Sitiou Berlim
Abdicou em Londres
A Paz saltou dos olhos do poeta
Atacada de psicose maníaco-depressiva
 
 
 
Foi nessa altura que as pombas
Solicitaram nas agências as tarifas
Mas nao viram mais o poeta
Que gozava na Suiça
Duma licença graciosa

 
 
A Paz saiu aos saltos para a rua
Comeu mostarda
Bebeu sangria
A Paz sentou-se em cima duma grua
Atacada de astenia

 
 
Foi nessa altura que as pombas
Solicitaram nas agências as tarifas
Mas nao viram mais o poeta
Que gozava na Suiça
Duma licença graciosa.

 
José Afonso
 

 

domingo, 15 de dezembro de 2013

MARIA AMÁLIA VAZ DE CARVALHO

 
 

        
         Maria Amália Vaz de Carvalho nasceu em Lisboa, no dia 2 de Fevereiro de 1847.Viveu até 24 de Março de 1921.

        Foi poetisa, cronista, tradutora, biógrafa, crítica literária.

        Em 1867 escreveu o seu primeiro livro de poemas, intitulado: “Uma Primavera de Mulher”.

        Desempenhou um trabalho importante sobre o papel da mulher na sociedade da época, assim como na sua educação.

        Foi a primeira mulher a ingressar na Academia de Ciências de Lisboa, em 1912, a par da escritora Carolina Michaëlis.

        Em 1993, a Câmara Municipal de Loures criou o “Prémio Maria Amália Vaz de Carvalho”, dedicado a jovens talentos de Poesia.

        Foi condecorada com o oficialato da Ordem de Sant´Iago.

        Em Lisboa, na Rua Rodrigo da Fonseca, existe um Liceu com o nome da poetisa.

       
        Este poema foi escrito por Maria Amália Vaz de Carvalho, dedicado a seu pai, José Vaz de Carvalho, “em tributo d´extremoso affecto e profunda gratidão”.


 
 
Ouve-me Pae, da minha lyra tímida
ouso as premicias a teus pés depôr,
e leia n´ellas o teu vasto espirito
humilde preito de infinito amor!
 
C´rôa singella de nevados lyrios,
por mim tecida com suave enleio!
vagas cadencias amorosas, languidas,
que a primavera me verteu no seio!...
 
Scentelhas soltas d´uma chamma etherea…
mysticos sonhos que eu soletro só…
que são?.. que valem, para o mundo frívolo
todo envolvido em seu doirado pó?
 
Só tu meu Pae acolherás sollicito
a minha incerta e juvenil canção!
tu, que de amores me doiraste a infância!..
me és premio à lira, e ao mal, se o fiz, perdão!
 
Oh! se n´um sonho fugitivo, rápido,
vira da gloria a divinal miragem…
se em magas horas de fugaz delírio
me endoidecera essa risonha imagem…
 
Se o echo ao longe dos aplausos fervidos
désse à minh´alma embriaguez febril,
e se os laureis d´entre inspirados extasis
me florejassem num perpetuo abril!
 
Sabes o premio que antevira, esplendido!
e a recompensa que eu sonhára então?
fôra em teus lábios um sorrir de jubilo
fôra uma bênção da tua nobre mão!


Maria Amália Vaz de Carvalho, in “Uma Primavera de Mulher”.

sábado, 14 de dezembro de 2013

LOUVOR DO LIXO

 
 

Louvor do lixo
 
É preciso desentropiar
a casa
todos os dias
para adiar o Kaos
a poetisa é a mulher-a-dias
arruma o poema
como arruma a casa
que o terramoto ameaça
a entropia de cada dia
nos dai hoje
o pó e o amor
como o poema
são feitos
no dia a dia
o pão come-se
ou deita-se fora
embrulhado
(uma pomba
pode visitar o lixo)
o poema desentropia
o pó deposita-se no poema
o poema cantava o amor
graças ao amor
e ao poema
o puzzle que eu era
resolveu-se
mas é preciso agradecer o pó
o pó que torna o livro
ilegível como o tigre
o amor não se gasta
os livros sim
a mesa cai
à passagem do cão
e o puzzle fica por fazer
no chão.

Adília Lopes, in “A Mulher-a-Dias”

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

ILSE LOSA

 

Ilse Losa nasceu perto de Hanôver, Alemanha, no dia 20 de Março de 1913. Viveu até 6 de Janeiro de 2003.

De origem judaica, abandonou o seu país em 1930, devido às ameaças da Gestapo de a enviarem para um campo de concentração. Assistiu ao holocausto nazi.

Viajou até Inglaterra, onde contactou escolas infantis, e se interessou pelos problemas das crianças.

Quatro anos depois veio para Portugal e passou a residir na cidade do Porto, onde casou com o arquitecto Arménio Taveira Losa, tendo adquirido a nacionalidade portuguesa.

Em 1943, publicou o seu primeiro livro “O Mundo em que vivi”, onde relata as suas memórias das perseguições aos judeus.

Colaborou em diversos jornais e revistas alemães e portugueses. Trabalhou para a televisão, escrevendo séries infantis.

Está representada em várias antologias de autores portugueses, sendo algumas traduzidas para alemão e publicadas na Alemanha.

 
 
Um excerto do romance “O Mundo em que Vivi”:

 
“O primeiro dia da escola. A saca às costas, caminhei ao lado da minha mãe, cheia de curiosidade e de receios.
         O Sr. Brand, o professor, distribuía sorrisos animadores aos meninos, que o fitavam com desconfiança. A barba grisalha e o colarinho engomado davam lhe um ar de austeridade, mas os olhos alegres protestavam contra tal impressão.
        Começou por nos falar, e doseava serenidade com humor para afugentar os nossos medos.
         De todas as escolas por que passei, a de que verdadeiramente gostei foi a escola primária.
        Quando o Sr. Brand tomou nota do meu nome ninguém se virou para mim com sorrisinhos por soar a judaico, ninguém achou estranho eu responder “israelita” à pergunta do Sr. Brand à minha religião.
         Fora a mãe que me recomendara: “Quando o Sr. Brand te perguntar pela religião, diz-lhe que és israelita. Soa melhor do que judia”. Eu não concordava, porque achava “israelita” uma palavra estranha que não parecia pertencer à minha língua e, por isso, corei de embaraço ao pronunciá-la. 
        E quando o Sr. Brand quis saber a profissão do meu pai respondi “negociante de cavalos”. Coisa natural. Muitos alunos eram filhos de lavradores e conheciam o meu pai. 
         Não me sentia envergonhada daquilo que eu e o meu pai éramos, como aconteceria mais tarde, no liceu, quando a minha mãe me recomendou que às perguntas respondesse, além de “sou israelita”, que o meu pai era “comerciante”.

 
Ilse Losa, in “O Mundo em que Vivi”.


quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

PRÉMIO CAMÕES - 1994

 


         Jorge Amado (1912-2001) foi galardoado com o Prémio Camões, em 1994. Recebeu-o no Rio de Janeiro, em Março de 1995.

        A sua actividade literária desenvolveu-se em diversos géneros,  tais como: romance, novela, poesia, biografia, memórias, jornalismo.

        Em Abril de 1961, Jorge Amado foi eleito para a Academia Brasileira de Letras.

 

                  Tenda dos Milagres

Rosa sempre chega assim, inesperada, vem de súbito.
Da mesma forma inconsequente desaparece...
Fuxicos, arengas, xeretices, pois em verdade
Ninguém sabe nada de concreto sobre Rosa.
Rosa brincava com as algas, todos os ventos em seus cabelos.
Todos os ventos, do norte e sul, o vento terrível do noroeste.
Na canoa ancorada ela deitava, a cabeça de fora, o cabelo no mar.
Parecia cabeça sem corpo, saindo d´água, dava arrepio.
Rosa maluca, Rosa do cais, tantas vezes mentias!

Jorge Amado

 

“É personagem importante o mar baiano. Meus livros começam e acabam no mar. Ele funciona muito em meus livros. É natural. Nós estamos aqui numa península, rodeada de mar, este mar que é uma beleza extraordinária. É um privilégio que nós temos o de viver na Bahia, viver com este mar em torno de nós.”

A vida me deu mais do que pedi e mereci. Não me falta nada. Tenho Zélia e isso me basta.”

 Jorge amado

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

JULIO CORTÁZAR

 
 

            Julio Cortázar nasceu, ocasionalmente, em Bruxelas, Bélgica, no dia 26 de Agosto de 1914. Viveu até 12 de Fevereiro de 1984.

           
             Os pais de nacionalidade argentina regressaram a Buenos Aires, quatro anos depois. Licenciou-se em Direito e Línguas.
            
             Romancista, contista, poeta, tradutor e professor, Cortázar é um dos grandes nomes da literatura da América Latina, com destaque para o conto e a prosa poética.
             
              Em 1938, publicou o primeiro livro de poesia, intitulado: “Presencia”.
             
              Recebeu o “Prémio Médicis” pela obra “Libro de Manuel”.

     
          OS AMANTES
 
 
 Quem os vê andar pela cidade
 se todos estão cegos?
 Eles dão as mãos: algo fala
 entre seus dedos, línguas doces
 lambem a húmida palma, correm pelas falanges,
 e acima a noite está cheia de olhos.

 São os amantes, sua ilha flutua à deriva
 rumo a mortes na relva, rumo a portos
 que se abrem nos lençóis.
 Tudo se desordena por entre eles,
 tudo encontra seu signo escamoteado;
 porém, eles nem mesmo sabem
 que enquanto rodam em sua amarga arena
 há uma pausa na criação do nada
 o tigre é um jardim que brinca.

 Amanhece nos caminhões de lixo,
 começam a sair os cegos,
 o ministério abre suas portas.
 Os amantes cansados se fitam e se tocam
 uma vez mais antes de haurir o dia.

 Já estão vestidos, já se vão pela rua.
 E só então,
 quando estão mortos, quando estão vestidos,
 é que a cidade os recupera hipócrita
 e lhes impõe os seus deveres quotidianos.

 Julio Cortázar
Tradução de José Jeronymo Rivera

 

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

ELIZABETH BISHOP

 

         Elizabeth Bishop nasceu em Massachusetts, Estados Unidos, no dia 8 de Fevereiro de 1911. Viveu até 6 de Outubro de 1979.
         Formou-se na Faculdade de Arte de Nova York.
         Publicou o seu primeiro livro em 1946, intitulado “North and South”.
         Viveu durante vários anos em França e no Brasil.
         Foi consultora de Poesia na Biblioteca do Congresso Americano.
         É considerada uma das mais importantes poetisas do século XX a escrever em língua inglesa.

        Publicou 101 poemas.
        Ganhou inúmeros prémios, com destaque para o “Prémio Pulitzer”, em 1956; “Prémio Nacional de Poesia”, em 1970; “Prémio Neustadt de Literatura”, em 1976. Foi a primeira mulher a receber este prémio.

                                
                            Uma certa arte


“A arte de perder não é nenhum mistério;
Tantas coisas contêm em si o acidente
De perdê-las, que perder não é nada sério.

 
Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,
A chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Depois perca mais rápido, com mais critério:
Lugares, nomes, a escala subseqüente
Da viagem não feita. Nada disso é sério.

Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
Lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Perdi duas cidades lindas. E um império
Que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.

– Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo que eu amo) não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser mistério por muito que pareça (escreve!) muito sério. “

Elizabeth Bishop, in "Poesia Alheia"
Tradução de Paulo Henriques Britto.

MALMEQUER

MALMEQUER Português, ó malmequer Em que terra foste semeado? Português, ó malmequer Cada vez andas mais desfolhado Ma...