quarta-feira, 23 de abril de 2014

O Livro

 
 
 
 

                                              O Livro

 

Dos diversos instrumentos do homem, o mais assombroso é, indubitavelmente, o livro. Os outros são extensões do seu corpo. O microscópio e o telescópio são extensões da vista; o telefone é o prolongamento da voz; seguem-se o arado e a espada, extensões do seu braço. Mas o livro é outra coisa: o livro é uma extensão da memória e da imaginação.

Em «César e Cleópatra» de Shaw, quando se fala da biblioteca de Alexandria, diz-se que ela é a memória da humanidade. O livro é isso e também algo mais: a imaginação. Pois o que é o nosso passado senão uma série de sonhos? Que diferença pode haver entre recordar sonhos e recordar o passado? Tal é a função que o livro realiza.

(...) Se lemos um livro antigo, é como se lêssemos todo o tempo que transcorreu até nós desde o dia em que ele foi escrito. Por isso convém manter o culto do livro. O livro pode estar cheio de coisas erradas, podemos não estar de acordo com as opiniões do autor, mas mesmo assim conserva alguma coisa de sagrado, algo de divino, não para ser objecto de respeito supersticioso, mas para que o abordemos com o desejo de encontrar felicidade, de encontrar sabedoria.

 
Jorge Luís Borges, in “Ensaio: O Livro”.


terça-feira, 22 de abril de 2014

Gomes Leal

 

Gomes Leal  (1848-1921) nasceu em Lisboa.
Poeta, jornalista, editor e crítico literário, é considerado um precursor do Modernismo Português.
Em 1875, publicou o seu primeiro livro de poemas, intitulado  “Claridades dos Sul”.
A sua poesia é uma agregação de estilos, sendo influenciada pelas  principais linhas de força da poesia europeia de seu tempo.
Foi um dos fundadores dos jornais “O Século” e “ O Espectro de Juvenal”.
Algumas das suas obras: “Claridades do Sul”; “O Tributo do Sangue”; “A Fome de Camões”; “O Anti-Cristo”.

       

 
Palavras de Gomes Leal:
 
Há uma faculdade prestigiosa na nossa alma, que nos torna rivais dos deuses; chama-se “vontade” !
 
 
 
              Carta ao Mar

 
 
Deixa escrever-te, verde mar antigo,
Largo Oceano, velho deus limoso,
Coração sempre lyrico, choroso,
E terno visionario, meu amigo!
Das bandas do poente lamentoso
Quando o vermelho sol vai ter comtigo,
- Nada é mais grande, nobre e doloroso,
Do que tu, - vasto e humido jazigo!
Nada é mais triste, tragico e profundo!
Ninguem te vence ou te venceu no mundo!...
Mas tambem, quem te poude consollar?!
Tu és Força, Arte, Amor, por excellencia! -
E, contudo, ouve-o aqui, em confidencia;
- A Música é mais triste inda que o Mar!
 
 
Gomes Leal, in “Claridades do Sul”
 
 

 
 


segunda-feira, 21 de abril de 2014

A Solidão é Sempre Fundamento da Liberdade

 
 


A Solidão é Sempre Fundamento da Liberdade
 

 

A solidão é sempre fundamento
da liberdade. Mas também do espaço.
por onde se desenvolve o alargar do tempo
à volta da atenção estrita do acto.
Húmus, e alma, é a solidão. E vento,
quando da imóvel solenidade clama
o mudo susto do grito, ainda suspenso
do nome que vai ser sua prisão pensada.
A menos que esse nome seja estremecimento.
- fruto de solidão compenetrada
que, por dentro da sombra, nomeia o movimento
de cada corpo entrando por sua luz sagrada.


Fernando Echevarría, in “Sobre os Mortos”.
 
 

domingo, 20 de abril de 2014

Poema no Domingo de Páscoa

 
 
 
 

 Poema no Domingo de Páscoa
 
No domingo de Páscoa
vi um cego a almoçar num restaurante.
Levava o garfo à boca, e entretanto sorria,
cândidamente,
como só os cegos sabem sorrir.
Comia frango, e ao servir-se do garfo ora trazia
comida nova, ora coisa nenhuma,
ora tendões e peles já antes mastigados,
ora tudo junto,
dependurado de qualquer maneira,
sorrindo sempre, cândidamente.

Eu então levantei-me, e assim mesmo,
de sapatos castanhos,
calças e casaco da mesma cor,
alto, magro e bastante calvo,
aproximei-me do cego
e disse-lhe imperativamente:
– Abre os olhos!

Que ridículo!
Uma coisa que só aos deuses pertence.



António Gedeão, poeta português, in “Revista Colóquio/Letras".
Ilustração: Tela incluída na série “Pinturas Cegas”, pintada, de olhos vendados, pela artista plástica japonesa, Tomie Ohtake.

sábado, 19 de abril de 2014

Carlo Goldoni

 
 

 
Carlo Goldoni  (1707-1793) nasceu em Veneza, Itália.

Foi um dos maiores dramaturgos do século XVIII, considerado o “Molière de Itália”.

Escreveu mais de duzentas e cinquenta peças de todos os géneros – tragédias, comédias, tragicomédias, melodramas, óperas bufas, etc.

Goldoni renovou a encenação da “Commedia dell´Arte”, introduzindo textos escritos e elementos realistas, tornando as suas peças conhecidas em todo o mundo.

Em 1734, obteve o seu primeiro sucesso em teatro com a tragédia “Belisário”.

Mudou-se para Paris, definitivamente, em 1762.

De entre as suas obras, destacam-se: “A Estalajadeira”; “O Mentiroso”; “Arlequim e Seus Dois Patrões”; “Os Enamorados”; “A Viúva Astuta”; “A Guerra”.

Em 1784, começou a escrever, em francês, a autobiografia intitulada “Memórias”, publicada em 1787.

A peça “A Estalajadeira” foi representada pela primeira vez em Portugal, no Teatro Nacional D. Maria II, em 1901.

Outras Companhias teatrais apresentaram esta peça, tais como: “Teatro Experimental do Porto”, “Grupo Teatro Hoje”; “Centro Cultural de Évora”; “Teatro Experimental do Funchal”; “Teatro da Malaposta”; “Artistas Unidos”.
 
 
Palavras de Carlo Goldoni:

"Se prestássemos atenção ao que os outros podem dizer de nós, perderíamos depressa toda a possibilidade de fazer bem."
 
 

“Não é fácil saber que o mundo está a mudar. E Goldoni sabe-o, vai vendo o velho ruir, o novo afirmar-se, anota, anota sem fim, vê, tudo vai trazendo para o palco, gente, coisas, contratos, cadeiras, é uma sanguessuga da vida, o palco tem um íman a que ele se oferece. E o seu teatro, teatro novo, será a amável anotação deste tempo que passa, deste mundo que muda, teatro ele próprio em mudança, forma que se vai adequando à investigação e ela própria investigada. Volto sempre a Goldoni, nasceu ali um teatro, nasceu um mundo.”
 
Jorge Silva Melo, actor, realizador, encenador e director do Grupo de Teatro "Artistas Unidos".
 

 
 


sexta-feira, 18 de abril de 2014

Silva Tavares

 
 
 
Silva Tavares (1893–1964) nasceu em Estremoz, Alentejo, Portugal.

Foi poeta, dramaturgo, escritor.
Publicou, com 18 anos de idade, o seu primeiro livro de versos intitulado “Nuvens”.
Escreveu cerca de 100 peças de teatro, entre dramas, comédias e farsas.
De realçar, também, o seu talento para o teatro de revista.
A poesia foi, sem dúvida, predominante na sua vida literária, publicando mais de 40 obras.
Criou grandes sucessos para o Fado, tais como: “Céu da Minha Rua”; “Que Deus me Perdoe”; “A Casa da Mariquinhas”; “Fado da Balada”; “Elogio do Xaile”.
Foi Chefe de Coordenação de Programas da Ex-Emissora Nacional, onde lançou programas ligados à poesia e ao teatro.
Legou à Biblioteca de Estremoz o seu espólio literário, constituído por vários manuscritos das suas obras, um bronze e as insígnias das condecorações com que foi distinguido.

Silva Tavares foi um poeta do fado.




Quadras de Amor

 
Já te paguei por amor,
muito mais do que devia,
vê lá, se fazes favor,
de me dar a demasia.

Pois se foste beijada,
porque estás a negar?
Depois de carta jogada,
não se pode levantar.

Inda hão-de nascer os lábios,
que digam porque razão,
um beijo dado nos lábios,
se sente no coração.

Não digas que nada fica
da vida fútil moderna.
Fico eu a soar em bica,
quando tu traças a perna.

Eu olhei e tu olhaste,
sorri, sorriste depois,
eu falei e tu falaste,
casei, casámos os dois.

Achaste lindos meus olhos,
pondo os teus olhos nos meus,
mas tu não viste meus olhos,
viste o reflexo dos teus.

O sol prometeu à lua,
as estrelas ao luar,
o meu coração ao teu,
de nunca mais te deixar.

Maria, a quem dei um cravo,
chamou-me doido de amor,
que é mesmo coisa de doido,
dar-se uma flor a outra flor..



Silva Tavares


quinta-feira, 17 de abril de 2014

André Breton




André Breton  (1896-1966) nasceu em Tinchebray, França.

Poeta, ensaísta, crítico, editor e escritor, estudou medicina e psiquiatria, evidenciando um particular interesse pelas doenças mentais.

Foi o mentor da revista “Littérature”.

No  Manifesto do Surrealismo , publicado em 1924, proclamou o não conformismo  e propôs a fórmula  de criação chamada automatismo psíquico , segundo a qual escreveu o romance "Nadja", em 1928.

No Segundo Manifesto do Surrealismo, em 1930,  reafirma a fidelidade  aos princípios do movimento.

Aquando da ocupação alemã da França, Breton foi para os Estados Unidos. Em 1946, voltou para França.

Alguns dos seus livros: “Os Vasos Comunicantes”; “O Amor Louco”; “O Surrealismo e a Pintura”; “Claridade de Terra”; “Antologia do Humor Negro”; “Poesia”; “Do Surrealismo em Suas Obras Vivas”.

A "Revista Time"  descreveu Breton como o "fundador do surrealismo que se veste frequentemente de verde, bebe um licor verde, fuma num cachimbo verde, e tem um profundo conhecimento da psicologia freudiana."

 

 
Palavras de André Breton:
“Passarei a minha vida a provocar as confidências dos loucos. São pessoas de uma honestidade escrupulosa e cuja inocência só encontra um igual em mim.”
 
 

                   Poema


 
Tenho na minha frente a fada de sal
cuja túnica recamada de cordeiros
desce até ao mar
Cujo véu pregueado
de queda em queda ilumina toda a montanha.

 
Ela brilha ao sol como um lustro de água iridiscente
E os pequenos oleiros da noite serviram-se das suas
unhas onde a lua não se reflecte
para moldar o serviço de café da beladona.

 
O tempo enrodilha-se miraculosamente detrás dos seus
sapatos de estrelas de neve
ao longo dum rasto perdido nas carícias
de dois arminhos.

 
Os perigos anteriores foram ricamente repartidos
e mal extintos os carvões no abrunheiro bravo das sebes
pela serpente coral que sem custo passa
por um delgado
filete de sangue seco
na lareira profunda
sempre sempre esplendidamente negra.

 
Esta lareira onde aprendi a ver
e sobre a qual dança sem cessar
o crepe das costas das primaveras
Aquele que é necessário lançar muito alto para dourar
a mulher em cujos cabelos encontro
o sabor que perdera
O crepe mágico o sinete voador
do amor que é nosso.

 

André Breton, in “Luz da Terra”
Tradução: Nicolau Saião
                    

 



 

MALMEQUER

MALMEQUER Português, ó malmequer Em que terra foste semeado? Português, ó malmequer Cada vez andas mais desfolhado Ma...