quinta-feira, 19 de junho de 2014

A LUZ QUE VEM DAS PEDRAS

 
 
 
 

 
                                            A Luz que Vem das Pedras

 
A luz que vem das pedras, do íntimo da pedra,
tu a colhes, mulher, a distribuis
tão generosa e à janela do mundo.
O sal do mar percorre a tua língua;
não são de mais em ti as coisas mais.
Melhor que tudo, o voo dos insectos,

o ritmo nocturno do girar dos bichos,
a chave do momento em que começa o canto
da ave ou da cigarra
— a mão que tal comanda no mesmo gesto fere
a corda do que em ti faz acordar

os olhos densos de cada dia um só.
Quem está salvando nesta respiração
boca a boca real com o universo?

 

Pedro Tamen, in "Agora, Estar"

 

quarta-feira, 18 de junho de 2014

JOSÉ LEZAMA LIMA

 
 



José Lezama Lima (1910-1976) nasceu em Havana, Cuba.
É considerado um dos mais importantes escritores da literatura latino-americana do século XX.

Participou em revoltas estudantis contra a ditadura de Machado.

Em 1937, publicou Morte de Narciso, a sua primeira composição poética.
Fundou as revistas Verbum e Orígenes, sendo esta considerada, por estudiosos latino-americanos, a revista literária mais importante do século XX.

Em 1966, publicou o romance semiautobiográfico Paradiso, um dos seus melhores trabalhos.

A sua obra está associada ao neo-barroco da América Latina.

Várias gerações de escritores, dentro e fora de Cuba, foram influenciadas pelo seu estilo literário.

 

Palavras de José Lezama Lima:

“A história da poesia ou a poesia da história não pode ser outra coisa senão o estudo e a expressão das eras imaginárias."
 
 

       Ah, que você escape

 

Ah, que você escape no instante
em que tenha alcançado sua melhor definição.
Ah, minha amiga, não queira acreditar
nas perguntas dessa estrela recém-cortada,
que vai molhando suas pontas em outra estrela inimiga.
Ah, se fosse certo que, à hora do banho,
quando, em uma mesma água discursiva,
se banham a imóvel paisagem e os animais mais finos:
antílopes, serpentes de passos breves, de passos evaporados,
parecem entre sonhos, sem ânsias levantar
os mais extensos cabelos e a água mais recordada.
Ah, minha amiga, se no puro mármore das despedidas
tivesses deixado a estátua que poderia nos acompanhar,
pois o vento, o vento gracioso,
se extende como um gato para deixar-se definir.

 

José Lezama Lima, in “Inimigo Rumor”

Tradução: Cláudio Daniel

 

terça-feira, 17 de junho de 2014

RAINER MARIA RILKE

 

 

Rainer Maria Rilke (1875-1926) nasceu em Praga, Checoslováquia.


Poeta e escritor expressionista, foi o criador do “objecto poema”, descrevendo com objectos físicos, o ”silêncio da sua realidade latente”.

Nos poemas filosóficos Rilke meditava sobre o tempo e a eternidade, a vida e a morte, a arte contra as coisas comuns. Acreditava na coexistência dos reinos material e espiritual.

Algumas das suas obras: O Livro das Horas; Vida e Canções; Elegias de Duíno; Sonetos a Orfeu; Cartas a um Jovem Poeta e Novos Poemas.



Palavras de Rainer Maria Rilke: Rejeitando as crenças católicas de seus pais, bem como o cristianismo em geral, o poeta se esforçou durante toda a sua vida para conciliar beleza e sofrimento, vida e morte, em uma filosofia. As CM Bowra observed in Rainer Maria Rilke: Aspects of His Mind and Poetry, "Where others have found a unifying principle for themselves in religion or morality or the search for truth, Rilke found his in the search for impressions and the hope these could be turned into poetry...For him Art was what mattered most in life." Como CM Bowra observado em Rainer Maria Rilke: Aspectos de sua mente e Poesia, "Onde outros descobriram um princípio unificador para si na religião ou a moral ou a busca da verdade, Rilke encontrou o seu na busca de impressões ea esperança estes poderiam ser se transformou em poesia ... Para ele arte era o que mais importava na vida. "


“O que é necessário, afinal, é apenas isto: solidão, grande solidão interior. Para andar dentro de si mesmo e encontrar ninguém durante horas - que é o que você deve ser capaz de alcançar.”
 

              Solidão


A solidão é como uma chuva.
Ergue-se do mar ao encontro das noites;
de planícies distantes e remotas
sobe ao céu, que sempre a guarda.
E do céu tomba sobre a cidade.

Cai como chuva nas horas ambíguas,
quando todas as vielas se voltam para a manhã
e quando os corpos, que nada encontraram,
desiludidos e tristes se separam;
e quando aqueles que se odeiam
têm de dormir juntos na mesma cama:

então, a solidão vai com os rios...

 
Rainer Maria Rilke, in "O Livro das Imagens"
Tradução: Maria João Costa Pereira






 



 

segunda-feira, 16 de junho de 2014

SENHOR IMPERADOR

 
 
 

 

Senhor Imperador
 
Senhor Imperador:
escrevo-lhe estas linhas
em nome das mulheres
— as pobres e as rainhas.

Em nome das manhãs
que nascerão sem paz;
em nome das crianças
que nascerão sem pais.

Senhor Imperador:
se é bom fazer a guerra
por que não vai você
o homem que não erra?

Se a pátria pede sangue
por que não dá o seu?
Por que matar o moço
que ainda não viveu?

Um Deus que não o seu
louvando a vida humana
virá pra nos salvar
da garra dos tiranos

dos amantes da morte,
dos senhores da Dor.
Terá fim o seu crime,
                     Senhor Imperador!                      

 
 
Renata Pallottini , poetisa brasileira

Ilustração: pintura da Renascença Italiana


domingo, 15 de junho de 2014

Herberto Hélder

 
 


                                        

Herberto Hélder nasceu, em 1930, no Funchal, Ilha da Madeira, Portugal.

É um dos introdutores do Movimento Surrealista em Portugal e um dos principais entusiastas da poesia experimental ou concreta.

A sua obra é, sem dúvida, uma das mais relevantes da poesia portuguesa contemporânea.

Em 1994, recusou receber o “Prémio Pessoa”.

 

Palavras de Herberto Hélder

“Em poesia, formal, conceptual, estético e humano significam, conjuntamente, «linguagem». E poesia, como diria certo crítico norte-americano, é linguagem. Isolar o implícito, explicitando-o, servirá apenas para estabelecer um sistema insolúvel de situações.”
 
 
        Se houvesse degraus na terra...
 
Se houvesse degraus na terra e tivesse anéis o céu,
eu subiria os degraus e aos anéis me prenderia.
No céu podia tecer uma nuvem toda negra.
E que nevasse, e chovesse, e houvesse luz nas montanhas,
e à porta do meu amor o ouro se acumulasse.
 
Beijei uma boca vermelha e a minha boca tingiu-se,
levei um lenço à boca e o lenço fez-se vermelho.
Fui lavá-lo na ribeira e a água tornou-se rubra,
e a fímbria do mar, e o meio do mar,
e vermelhas se volveram as asas da águia
que desceu para beber,
e metade do sol e a lua inteira se tornaram vermelhas.
 
Maldito seja quem atirou uma maçã para o outro mundo.
Uma maçã, uma mantilha de ouro e uma espada de prata.
Correram os rapazes à procura da espada,
e as raparigas correram à procura da mantilha,
e correram, correram as crianças à procura da maçã.
 
 
Herberto Hélder, in “A Faca Não Corta o Fogo”
 
 
 
 



 
 



 
 
 
 

 

 

sábado, 14 de junho de 2014

Bulhão Pato

 
 



 Bulhão Pato (1829-1912) nasceu em Bilbau, Espanha.
Filho de pai português e mãe espanhola viveu os primeiros anos em Bilbau. Vieram todos para Portugal, em 1837, devido à guerra civil em Espanha.

Poeta, ensaísta, tradutor e memorialista, foi um dos últimos representantes  do Romantismo em Portugal.
 
Traduziu obras de Shakespeare, Vítor Hugo, entre outros autores.

Em 1866, publicou o famoso poema “Paquita”.
Alguns dos seus livros: “Cantos e Sátiras”; “Poesias”; “Versos”; “Flores Agrestes”; Canções da Tarde”; “O Livro do Monte”.

Escreveu livros de memórias, que retratam a vida política e cultural portuguesa na segunda metade do século XIX.
Foi sócio da Academia Real das Ciências de Lisboa.
 
 
        Anjo Caído
 
Na flor da vida, formosa,
ingénua, casta, inocente,
eras tu no mundo, rosa!
Quem te arrojou de repente
para o abismo fatal?
Viste um dia o sol de abril;
o teu seio virginal
sorriu alegre e gentil.
 
 
Ergueu-se aos clarões suaves
d'aquela doce alvorada
a tua face encantada.
Amaste o doce gorjeio
que desprendiam as aves,
e no teu cândido seio
quanto amor, quanta ilusão
alegre pulava então.
 
 
Mal haja o fatal destino,
maldita a sinistra mão,
que em teu cálix purpurino
derramou fera e brutal
esse veneno fatal.
 
 
Hoje és bela; mas teu rosto
que outrora alegre sorria,
é todo melancolia!
 
 
Hoje nem sol, nem estrela,
para ti brilha no céu;
mal haja quem te perdeu!                             
 
 
Bulhão Pato
Ilustração: retrato de Bulhão Pato, por Columbano Bordalo Pinheiro.
                          

 
 

 

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Retrato do Povo de Lisboa

 
 

 

                                    
                              Retrato do Povo de Lisboa

 
 
É da torre mais alta do meu pranto
que eu canto este meu sangue este meu povo.
Dessa torre maior em que apenas sou grande
por me cantar de novo.
 
Cantar como quem despe a ganga da tristeza
e põe a nu a espádua da saudade
chama que nasce e cresce e morre acesa
em plena liberdade.
 
É da voz do meu povo uma criança
seminua nas docas de Lisboa
que eu ganho a minha voz
caldo verde sem esperança
laranja de humildade
amarga lança
até que a voz me doa.
 
Mas nunca se dói só quem a cantar mágoa
dói-me o Tejo vazio dói-me a miséria
apunhalada na garganta.
Dói-me o sangue vencido a nódoa negra
punhada no meu canto.
 


Ary dos Santos, in “Obra Poética”

MALMEQUER

MALMEQUER Português, ó malmequer Em que terra foste semeado? Português, ó malmequer Cada vez andas mais desfolhado Ma...