domingo, 17 de agosto de 2014

DA MINHA ALDEIA

 
 
 
 

                     
                    Da Minha Aldeia

 

 
Vejo quando da terra se pode ver no Universo....
Por isso a minha aldeia é grande como outra qualquer
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura...

Nas cidades a vida é mais pequena
Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.
Na cidade as grandes casas fecham a vista a chave,
Escondem o horizonte, empurram nosso olhar para longe de todo o céu,
Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos nos podem dar,
E tornam-nos pobres porque a única riqueza é ver.




Alberto Caeiro (heterónimo de Fernando Pessoa), in "O Guardador de Rebanhos”


sábado, 16 de agosto de 2014

ANTERO DE QUENTAL

 
 
 

Antero de Quental (1842-1891) nasceu na Ilha de São Miguel, Açores, Portugal.

Foi poeta, escritor e filósofo. Desenvolveu uma intensa actividade política.

Em 1866, decidiu viver em Lisboa.

Liderou o “Cenáculo”, nome dado ao grupo de intelectuais que pertenceram à “Geração de 70”, tais como Eça de Queirós, Guerra Junqueiro, Ramalho Ortigão, Adolfo Coelho, Manuel de Arriaga, entre outros. O “Cenáculo” seria o embrião para as “Conferências do Casino”.

Fundou o jornal “A República”; editou a revista “O Pensamento Social”; dirigiu o jornal “O Académico-Publicação Científica e Literária” e a revista “Ocidental”. Escreveu artigos para vários jornais e revistas.

A sua vasta obra literária é constituída, entre outros, pelos títulos: “Odes Modernas”; “Sonetos Completos”; “Raios de Extinta Luz”; “Primaveras Românticas”; “Beatrice”; “A Dignidade das Letras e as Literaturas Oficiais”; “Portugal perante a Revolução de Espanha”; “A Poesia na Actualidade”, “A Bíblia da Humanidade”; “Leituras Populares”.

Escreveu vários opúsculos e sonetos, dos quais se destacam: “Bom Senso e Bom Gosto”; “Na Mão de Deus”, “Evolução” e “Voz Interior”.

Em 1884, Antero de Quental encontrou-se no Palácio de Cristal, no Porto, com Eça de Queirós, Oliveira Martins, Ramalho Ortigão e Guerra Junqueiro, onde tiraram a fotografia do “Grupo dos Cinco”.
 
 
Em 1889, Columbano Bordalo Pinheiro, o maior pintor português do século XIX, pintou o retrato de Antero de Quental, que se conserva no Museu do Chiado.
Antes de partir definitivamente para Ponta Delgada, o “Grupo Vencidos da Vida”, que tinha fortes ligações ao grupo “Geração de 70”, ofereceu a Antero um jantar de despedida no Café Tavares.
 
 
 
              Divina Comédia
 
Erguendo os braços para o céu distante
E apostrofando os deuses invisíveis,
Os homens clamam: — “Deuses impassíveis,
A quem serve o destino triunfante,

Porque é que nos criastes?! Incessante
Corre o tempo e só gera, inextinguíveis,
Dor, pecado, ilusão, lutas horríveis,
N'um turbilhão cruel e delirante...

Pois não era melhor na paz clemente
Do nada e do que ainda não existe,
Ter ficado a dormir eternamente?

Porque é que para a dor nos evocastes?”
Mas os deuses, com voz inda mais triste,
Dizem: — “Homens! Por que é que nos criastes?”


Antero de Quental, in “Sonetos”.
Imagem: pintura do retrato de Antero de Quental por Columbano Bordalo Pinheiro.                     
 
 

 

 

 

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

O REI DO SORVETE

 
 
 
 
 
 
 
              O Rei do Sorvete


Chame o enrolador de grandes charutos,
Aquele dobrado, e diga-lhe que bata
Os coalhos concupiscentes nas xícaras da cozinha.
Que as gurias zaranzem nos vestidos
Habituais, e os rapazes tragam flores
Em cartuchos de jornais do mês passados.
Que ser seja o final de parecer.
Só há um rei e esse é o rei do sorvete.


Tire da cômoda de pinho,
Que já perdeu três puxadores de vidro, aquele lençol
Que ela bordou um dia com caudas de pavão
E estenda-o de modo a cobrir-lhe o rosto.
Se um pé unhudo sair para fora, é
Para mostrar como ela está fria, como está muda.
Que a lâmpada afixe o seu filete.
Só há um rei e este é o rei do sorvete.

 
Wallace Stevens
Tradução:Décio Pignatari
Imagem: L.A de Genaro, pintor brasileiro.

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

PARA NÃO PARECER RIDÍCULO

 
 
 
 
 

     Para não parecer ridículo

 
 
Uma história nascida no Cáucaso, entre os Nartos, dá uma receita interessante para escapar à zombaria.

Uma mulher, que se chamava Satana, desejava casar com o seu irmão Urizmag, o da barba de neve, mas este recusava, dizendo:

- Nunca se viu tal coisa entre os Nartos! Não poderia mostrar-me nas ruas! Toda a gente ia rir-se de mim!

- Vou dizer-te como te defenderás do riso das pessoas – disse-lhe então Satana, a irmã. – Arranjas um burro, pões-lhe a sela e o teu freio de prata, monta-lo ao contrário, agarras a cauda com ambas as mãos e passeias-te durante três dias no meio dos Nartos.

Urizmag, o da barba de neve, seguiu as indicações de Satana. No primeiro dia, os que o viram rebentaram a rir, apontando-o a dedo. No segundo dia riram apenas aqueles que não o tinham visto na véspera. No terceiro dia, ninguém riu.

No quarto dia, ele casou com a irmã.

 

Jean-Claude Carrière, in “Tertúlia de Mentirosos”

 

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

A CASA ONDE ÀS VEZES REGRESSO É TÃO DISTANTE

 
 
 



 
              A casa onde às vezes regresso é tão distante

 

 

A casa onde às vezes regresso é tão distante
da que deixei pela manhã
no mundo
a água tomou o lugar de tudo
reúno baldes, estes vasos guardados
mas chove sem parar há muitos anos

 
Durmo no mar, durmo ao lado do meu pai
uma viagem se deu
entre as mãos e o furor
uma viagem se deu: a noite abate-se fechada
sobre o corpo

 
Tivesse ainda tempo e entregava-te
o coração

 

José Tolentino Mendonça, in “A Que Distância Deixaste o Coração”.
Imagem: quadro do pintor francês Eugène Boudin (1824-1898)

terça-feira, 12 de agosto de 2014

GONÇALVES CRESPO

 
 
 
 

Gonçalves Crespo (1846-1883) nasceu no Rio de Janeiro, Brasil.

Poeta, jornalista e jurista, filho de pai português e de mãe negra, viajou para Portugal aos dez anos de idade, onde passou a viver definitivamente.

Em 1877, formou-se em Direito na Universidade de Coimbra.

Foi um dos principais representantes do movimento literário denominado Parnasianismo.

Colaborou em diversos jornais e revistas literários.

Em 1870, publicou o seu primeiro livro de poesia: Miniaturas.

Postumamente, foram publicadas as suas Obras Completas.



 
Palavras de Gonçalves Crespo:

Amar e ser amado, que ventura! Não amar, sendo amado, é um triste horror; mas na vida há uma noite mais escura, é amar alguém que não nos tenha amor! "


 
                    O Relógio

 
Ebúrneo é o mostrador: as horas são de prata
Lê-se a firma Breguet por baixo do gracioso
Rendilhado ponteiro; a tampa é enorme e chata:
Nela o esmalte produz um quadro delicioso.

Repara: eis um salão: casquilho malicioso
Das festas cortesãs o mimo, a flor, a nata,
Junto a um cravo sonoro a alegre voz desata.
Uma fidalga o escuta ébria de amor e gozo.

Rasga-se ampla a janela; ao longe o olhar descobre
O correto jardim e o parque extenso e nobre.
As nuvens no alto céu flutuam como espumas.

Da paisagem no fundo, em lago transparente,
Onde se espelha o azul e o laranjal frondente,
Um cisne à luz do sol estende as níveas plumas.


Gonçalves Crespo, in “Obras completas”.

 

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

D. DINIS

 




D. Dinis (1261-1325) nasceu em Lisboa.
Foi Rei de Portugal entre 1279 e 1325.

Desenvolveu um trabalho importante para o desenvolvimento da agricultura, aumentando significativamente a área de plantação do pinhal de Leiria. Por isso, ficou conhecido como o “Lavrador”. Teve, também, actividade de realce na pesca e no comércio.
Fundou, em 1290, a primeira Universidade com sede em Lisboa, tendo sido transferida, em 1307, para Coimbra.

Apaixonado pela poesia e pela música, deixou 138 cantigas – de Amor, de Amigo e de Maldizer – publicadas nos Cancioneiros Galaico-Portugueses.
Foi o melhor representante da poesia trovadoresca, ficando na História como o “Rei Poeta”.



Ai, flores, ai, flores do verde pino


Ai, flores, ai, flores do verde pino,
se sabedes novas do meu amigo?
Ai, Deus, e u é?
 
Ai, flores, ai, flores do verde ramo,
se sabedes novas do meu amado?
Ai, Deus, e u é?
 
Se sabedes novas do meu amigo,
aquel que mentiu do que pôs comigo?
Ai, Deus, e u é?
 
Se sabedes novas do meu amado,
aquel que mentiu do que mi há jurado?
 Ai, Deus, e u é?
 
Vós me preguntades polo vosso amigo?
E eu ben vos digo que é sano e vivo.
Ai, Deus, e u é?
 
Vós me preguntades polo vosso amado?
E eu ben vos digo que é vivo e sano.
Ai, Deus, e u é?
 
E eu ben vos digo que é sano e vivo
e seerá vosco ante o prazo saido.
Ai, Deus, e u é?
 
E eu ben vos digo que é vivo e sano
e seerá vosco ante o prazo passado.
Ai, Deus, e u é?

 

D. Dinis, in “A Lírica Galego-Portuguesa”.

 

MALMEQUER

MALMEQUER Português, ó malmequer Em que terra foste semeado? Português, ó malmequer Cada vez andas mais desfolhado Ma...