quinta-feira, 23 de abril de 2015

PIERRE DE RONSARD - Soneto a Helena

 
 
 
 
 
 
 

Pierre de Ronsard (Couture-sur-Loir, França,1524 Saint-Cosme-en-Isle, França, 1585).

Grande humanista e poeta renascentista, foi o principal representante da “La Pléiade”, grupo de poetas cujos principais modelos foram os líricos greco-romanos e italianos, que tiveram grande importância na renovação da literatura francesa.

Após as suas Odes, imitadas de Píndaro, praticou uma poesia mais pessoal nos Amores e encontrou o tom épico nos Hinos.

 

Palavras de Pierre de Ronsard:

"A poesia é um fogo cuja chama faz arder o espírito de quem ama."
 
 
 

                Soneto a Helena
 
Quando fores bem velha, à noite, á luz da vela
Junto ao fogo do lar, dobando o fio e fiando,
Dirás, ao recitar meus versos e pasmando:
Ronsard me celebrou no tempo em que fui bela.
E entre as servas então não ha de haver aquela
Que, já sob o labor do dia dormitando,
Se o meu nome escutar não vá logo acordando
E abençoando o esplendor que o teu nome revela.

Sob a terra eu irei, fantasma silencioso,
Entre as sombras sem fim procurando repouso:
E em tua casa irás, velhinha combalida,
Chorando o meu amor e o teu cruel desdém.
Vive sem esperar pelo dia que vem;
Colhe hoje, desde já, colhe as rosas da vida.

                                                

Pierre de Ronsard
Tradução: Guilherme de Almeida
 

 
 


quarta-feira, 22 de abril de 2015

REINALDO FERREIRA - Uma casa portuguesa

 
 
 
 
 

Reinaldo Ferreira (Barcelona, Espanha, 1922 – Lourenço Marques, Moçambique, 1959).

A sua poesia enquadra-se na tendência presencista, notando-se também elementos que a ligam ao simbolismo e ao decantismo.

A colectânea dos seus poemas, publicada, postumamente, em 1960, com o título Poemas, mereceu elogios de vários poetas.

 José Régio, escreveu sobre Reinaldo Ferreira: é a revelação de um grande poeta português, uma obra que, mesmo chegando até nós fragmentada, pela sua densidade substancial e a sua beleza formal já entrou como peça de rara qualidade no tesoiro da nossa poesia.”
 
 

Uma casa portuguesa

 

 
Numa casa portuguesa fica bem
pão e vinho sobre a mesa.
Quando à porta humildemente bate alguém,
senta-se à mesa coa gente.
Fica bem essa franqueza, fica bem,
que o povo nunca a desmente.
A alegria da pobreza
está nesta grande riqueza
de dar, e ficar contente.

 
Quatro paredes caiadas,
um cheirinho a alecrim,
um cacho de uvas doiradas,
duas rosas num jardim,
um São José de azulejo
sob um sol de primavera,
uma promessa de beijos
dois braços à minha espera...
É uma casa portuguesa, com certeza!
É, com certeza, uma casa portuguesa!

 
No conforto pobrezinho do meu lar,
há fartura de carinho.
A cortina da janela e o luar,
mais o sol que gosta dela...
Basta pouco, poucochinho pra alegrar
uma existéncia singela...
É só amor, pão e vinho
e um caldo verde, verdinho
a fumegar na tijela.

 
Quatro paredes caiadas,
um cheirinho a alecrim,
um cacho de uvas doiradas,
duas rosas num jardim,
um São José de azulejo
sob um sol de primavera,
uma promessa de beijos
dois braços à minha espera...
É uma casa portuguesa, com certeza!
É, com certeza, uma casa portuguesa!
 
 

Reinaldo Ferreira

 

 

terça-feira, 21 de abril de 2015

MARTHA MEDEIROS - Puxei a manga da camisa

 
 
 
 
 

Martha Medeiros (Porto Alegre, Brasil, 1961).

 
É poetisa, jornalista, cronista e escritora.

 
Trabalhou na área da publicidade como redactora e directora de criação em várias agências do sector.
A partir de 1993 dedicou-se à poesia.

Alguns dos seus livros: Divã, Fora de mim, Strip-tease, De cara lavada, Feliz por nada.

Muitas as suas obras foram adaptadas para o cinema, teatro e televisão.

 
Palavras de Martha Medeiros:
“Não é a altura, nem o peso, nem os músculos que tornam uma pessoa grande, é a sua sensibilidade sem tamanho.”
 
            Puxei a manga da camisa

 
puxei a manga da camisa um pouco pra cima
perto do cotovelo, e abri o botão calmamente
como se fizesse isso todo dia na tua frente
não te olhei como amiga nem professora
e não liguei para a pouca idade que tinhas
eu era mais madura e você mais coerente
tinha certeza de tudo mas não se mexia
passei a mão no teu cabelo
te beijei na testa, no queixo
beijei tua nuca e tua boca
e fui a primeira mulher nua da tua vida

 
Martha Medeiros


segunda-feira, 20 de abril de 2015

GIL VICENTE - Pois Casei Má Hora

 
 
 
 
 

 Gil Vicente (Portugal, 1466-1536). Não existe informação exacta sobre os locais onde nasceu e morreu.
Foi dramaturgo, poeta, actor, encenador, músico e ourives, tendo sido um dos impulsionadores da cultura renascentista em Portugal.
A sua primeira peça, escrita em castelhano, Monólogo do Vaqueiro, data de 1502.
Escreveu 44 peças, umas em português, outras em castelhano, outras bilingues, entre autos, tragicomédias, farsas, comédias e moralidades.
Entre os autos religiosos, são mais famosos os que perfazem a trilogia das Barcas (Barca do Inferno, Barca do Purgatório, Barca da Glória), Auto da Alma, Auto de Mofina Mendes, Auto da Índia, Auto da Feira.
Luís Vicente, seu filho, editou em 1562, cinco volumes com o título: Compilaçam de todalas obras de Gil Vicente.
Marcelino Menéndez  y Pelayo, (1856-1912) consagrado historiador e crítico literário espanhol escreveu sobre Gil Vicente: “é a figura mais importante dos primitivos dramaturgos peninsulares, não havendo quem o excedesse na Europa do seu tempo.”
 
 Pois Casei Má Hora


Pois casei má hora, e nela,
e com tal marido, prima...
Comprarei cá üa gamela,
par'ò ter debaixo dela,
e um grão penedo em cima.
Porque vai-se-me às figueiras,
e come verde e maduro;
e quantas uvas penduro
jeita nas gorgomeleiras:
parece negro monturo.
Vai-se-me às ameixieiras,
antes que sejam maduras.
Ele quebra as cereijeiras,
ele vendima as parreiras,
e não sei que faz das uvas.
Ele não vai à lavrada,
ele todo o dia come,
ele toda a noite dorme,
ele não faz nunca nada,
e sempre me diz que há fome!
Jesu! Jesu! Posso-te dizer,
e jurar e tresjurar,
e provar e reprovar,
e andar e revolver,
que é milhor pera beber,
que não pera maridar.
O demo que o fez marido!
Que assi seco como é
beberá a torre da Sé:
então arma um arruído
assi debaixo do pé!...


Gil Vicente, in “Auto da Feira”
 

 



domingo, 19 de abril de 2015

ELISEO DIEGO - Testamento

 
 
 
 

Eliseo Diego (Havana, Cuba,1920 – Cidade do México, México, 1994).

Foi escritor, poeta, ensaísta e tradutor.

Na década de 1950, fez parte do influente grupo literário chamado “Origens”, que publicou uma revista do mesmo nome, na qual Eliseo Diego divulgou a sua poesia e alguma prosa.

Traduziu os mais importantes autores de literatura infantil.

 
Algumas das suas obras: En la calzada de Jesús del Monte, El oscuro esplendor, Por los extraños pueblos, Libro de las maravillas de Boloña, Los días de tu vida, Poemas al margen, Desde la eternidad.

 

 
 
Palavras de Eliseo Diego: Um dos grandes enigmas do universo é o sofrimento. O mal e o sofrimento dos inocentes.”
 
 
 
                Testamento
 
Tendo chegado o tempo em que
a penumbra já não me consola mais
e reduzem meus presságios pequenos;
tendo chegado este tempo;
e como a borra do café
abre de repente agora para mim suas redondas bocas amargas;
tendo chegado este tempo;
e perdida já toda esperança de alguma merecida ascensão, de ver o mar sereno da sombra;
e não possuindo mais do que este tempo; não possuindo mais, enfim,
que minha memória das noites e sua vibrante delicadeza enorme;
não possuindo nada mais
entre céu e terra do que
minha memória, do que este tempo; decido fazer meu testamento.
É este: deixo-lhes
o tempo, todo o tempo.
 
 
Eliseo Diego, in “Os dias da tua vida”.
 Tradução: Luizete Guimarães Barros. 
 
 
 

 

 

sábado, 18 de abril de 2015

ADEODATO BARRETO - O Génesis da Mulher

 
 
 
 
 

ADEODATO BARRETO (Margão, Goa, Índia, 1905 – Coimbra, Portugal, 1937).

Poeta e escritor, expoente da cultura luso-indiana, foi o introdutor do verso irregular na literatura goense.

Com 18 anos partiu para Portugal, onde se formou em Ciências Histórico-Filosóficas.

Civilização Hindu é considerada a mais relevante obra em prosa de Adeodato Barreto.
 
 

  O Génesis da Mulher


Deus, logo que fez as flores,
Parou e pôs-se a cismar...
- Falta a flor dos meus amores.
Vou outra flor inventar.

Colheu lírios e boninas,
Rosa... cravo e malmequer,
Mogarins, zaiôs e cravinas...
E fez de tudo a mulher.

Viu, porém, que a nova flor
Era a que mais graça tinha
Disse, então, cheio de amor:
- Não és só flor, és rainha!

Pôs-lhe na fronte a pureza,
Na boca um terno sorriso,
No coração a firmeza...
Esqueceu dar-lhe... juízo.


Adeodato Barreto

sexta-feira, 17 de abril de 2015

HENRI MURGER - A Balada do Desesperado

 
 



Henri Murger (Paris, França, 1822 – 1861).

Foi poeta e romancista.
Na sua obra mais conhecida, Scènes de la vie de Bohème, Murger baseia-se nas suas experiências como escritor pobre vivendo em Paris nos meados do século XIX. A maioria das personagens foi inspirada nos seus amigos e conhecidos.

A Ópera La Bohème, de Puccini, foi composta a partir da obra de Henri Murger.





A Balada do Desesperado

 
- Quem bate à porta a tais horas?
- Abre, sou eu. Quem tu és?
Não se entra na minha casa
Tão tarde assim, bem o vês.

- Abre. - Teu nome? - Há geada,
Abre. Teu nome? - És tardio!
Qual é teu nome? - Ai, na cova
Um morto não tem mais frio.

Eu caminhei todo o dia
Do sul ao setentrião,
Ao pé da tua lareira
Quero sentar-me - Inda não!

Diz teu nome... - Eu sou a glória
E aspiro à posteridade...
- Passa fantasma irrisório...
- Ó dá-me hospitalidade!

Eu sou o amor e a esperança
As duas porções de Deus...
- Segue a estrada... A minha amante
Há muito me disse adeus!

- Eu sou a arte e a poesia,
Proscreveram-me... Abre! - Não!
Já não canto minha amante.
Nem sei que nome lhe dão!...

- Abre, que eu sou a riqueza,
E trago do ouro o fulgor,
- Posso dar-te a tua amante...
- Podes dar-me o seu amor?

-  Sou o poder, tenho a púrpura.
Abre a porta! -  Anelo vão!
Podes trazer-me a existência
Daqueles que já não sâo?!

— Se tu não abres teus lares
Senão a quem diz seu nome
Sou a morte! trago alívio
P'ra cada dor que consome!

Podes ver, trago na cinta
Ruidosas chaves fatais...
Abrigarei teu sepulcro
Do insulto dos animais.

- Entra, estrangeira funérea...
Perdoa à mendicidade,
Porque é no lar da miséria
Que tens hospitalidade.

Entra; cansei-me da vida
Que nada tem que me dar...
Há muito eu tinha desejos
(Não força) de me matar!

Entra no lar, bebe e come,
Dorme, e quando despertares,
Para pagar tua conta
Hás-de levar-me aos teus lares.

Eu te esperava, eu te sigo...
Vamos... arrasta-me... assim...
Mas deixa o meu cão na terra
P'ra eu ter quem chore por mim!

 

Henri Murger
Tradução: Castro Alves
Imagem: retrato de Henri Murger pintado por Chambery.

 

 

 

MALMEQUER

MALMEQUER Português, ó malmequer Em que terra foste semeado? Português, ó malmequer Cada vez andas mais desfolhado Ma...