domingo, 20 de dezembro de 2015

JOAQUIM PAÇO D´ARCOS - Medo

 
 
 
 
 

Joaquim Paço D´Arcos(Lisboa, Portugal, 1908 – 1979).

Foi ensaísta, contista, poeta e dramaturgo.

Uma parte da sua obra literária é constituída pela Crónica da Vida Lisboeta, em que ele se dedicou ao estudo da alta sociedade portuguesa de Lisboa.

Algumas das suas obras: Diário dum Emigrante, O Navio dos Mortos e Outras Novelas, Poemas Imperfeitos, Memórias da Minha Vida e do Meu Tempo.

 

                    
                         Medo

Medo não é o temor dos piratas no Rio de Oeste,
Nem dos tufões do mar.

Não é o receio dos tiros, pela noite,

No rio povoado de lorchas e traições;

Nem o susto dos enforcados,

Ao luar branco,

No mangal da Areia Preta.

Medo não é o temor da guerra,

nem da fome, nem da cólera,

Nem das chagas dos leprosos

na Ilha de S. João;

Não é suspeita

De que a morte espreita,

Continuadamente,

E nos levará.

Medo não é contágio da tristeza

Quando a tarde tomba

E o ocaso ensanguenta

O mar de água barrenta,

As terras e o céu,

Até as ilhas serem tragadas pelo negrume

E as montanhas pelo escuro,

E nada restar senão a treva

E os gritos que atravessam a noite,

Vindos não sei donde,

Para não sei onde.

 
Medo não é o temor das ciladas,
Nem dos punhais,

Nem dos beijos vermelhos que enganam

E sorvem lentamente as vidas...

 
Medo é este pavor de que tu partas

E me deixes só.

 

Joaquim Paço D´Arcos, “Poemas Imperfeitos”

 

sábado, 19 de dezembro de 2015

TOMÁS RIBEIRO - Bênçãos

 
 
 
 
 

Tomás Ribeiro (Parada de Gonta, Tondela, Portugal, 1831 – Lisboa, Portugal, 1901).

Escritor, dramaturgo, historiador, poeta, político e jornalista.
Foi uma figura destacada da vida portuguesa do século XIX.

A sua obra insere-se no romantismo português da Regeneração.

Foi amigo de Camilo Castelo Branco, de quem prefaciou várias publicações. Dedicou-lhe a obra Dissonâncias, editada em 1890.

O seu testamento dispunha o seguinte desejo: «Que quatro pobres me levem ao cemitério da circunscrição onde me finar, envolto numa simples mortalha, sem anúncios, sem convites, sem a menor pompa funeral.»

 
               Bênçãos
 
Bem hajas, oh luz do sol,
Dos órfãos agasalho e manto,
Imenso, eterno farol
Deste mar largo de pranto!

Bem hajas, água da fonte,
Que não desprezas ninguém!
Bem haja a urze do monte,
Que é lenha de quem não tem!

Bem hajam rios e relvas,
Paraíso dos pastores!
Bem hajam aves das selvas,
Música dos lavradores

Bem haja o reino dos céus,
Que aos pobres dá graça e luz!
Bem haja o templo de Deus,
Que tem sacramento e cruz!

Bem haja o cheiro da flor,
Que alegra o lidar campestre;
E o regalo do pastor,
A negra amora silvestre!

Bem haja o repouso à sesta
Do lavrador e da enxada;
E a madressilva modesta,
Que espreita à beira da estrada!

Triste de quem der um ai
Sem achar eco em ninguém!
Felizes os que têm pai,
Mimosos os que têm mãe!


Tomás Ribeiro, in “D. Jaime”

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

ALBANO MARTINS - Entardecer na Praia da Luz

 
 
 
 
 

Albano Martins (Aldeia do Telhado, Castelo Branco, Portugal, 1930).

Professor e tradutor de poesia grega, italiana, sul-americana e espanhola. 
É um dos grandes poetas da língua portuguesa.
 
 
 
Palavras de Albano Martins:

As barbáries têm a idade do homem. Os bárbaros modernos gozam, entretanto, de uma particularidade, que é também, para eles, uma vantagem: usam técnicas e instrumentos mais requintados do que os antigos e actuam por cálculo e cinismo.”

 
 
Entardecer na Praia da Luz

Espreguiçados, os ramos
das palmeiras filtram
a luz que sobra
do dia. É já noite
nas folhas. O branco
das paredes recolhe
o sangue e o vinho
de buganvílias
e hibiscos. Bebe-os
de um trago: saberás
que, mais do que cegueira, a noite
é uma embriaguez perfeita.

 
Albano Martins, in "Castália e Outros Poemas"

 
 

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

ORLANDO NEVES - Só de Restos se Consagra o Tempo

 
 
 
 
 
 

Orlando Neves (Portalegre, Portugal, 1935 – Senhora da Hora, Matosinhos, Portugal, 2005).
Foi poeta, escritor, dramaturgo, cronista, jornalista, encenador, investigador, crítico e tradutor.
Publicou: Dicionário de Frases Feitas, Dicionário de Expressões Correntes, Dicionário da Origem das Palavras e Dicionário de Superstições.

 
Só de Restos se Consagra o Tempo

 Só de restos se consagra o tempo, força

 cerrada na inutilidade destas

 cores campestres, quando o sol em Novembro

 escurece os sobreiros. Só de restos me

 espera a cerimónia de viver,

 trânsito e transigência do silêncio,

 ocultado no meu corpo. Só de restos

 o trespassa o tempo, máscara e manto. Morro

 muito antes da morte, sem saber se os anjos

 foram gaivotas hirtas no piedoso

 musgos dos rios ou se hão-de ser maçãs

 ou ciência, loendros ou lembrança,

 inocentes, lúcidos sonos ou oblata

 de seda, a deus cedida, em pagamento

 da paz. Só do que chega ao fim, se corrompe

 e apodrece, se imagina o princípio,

 a majestade das coisas, o silêncio

 irrevelado que o corpo desconhece.

 

 Orlando Neves, in "Mar de que Futuro"

 

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

ALFREDO BROCHADO – Misticismo

 
 
 
 

Alfredo Brochado (Amarante, Portugal, 1897 – Lisboa, Portugal, 1949).

Aquilino Ribeiro chamou-lhe «o irmão franciscano de todos os escritores e artistas».
Escreveu apenas um livro, O Sangue dos Heróis.
Foi editado, postumamente, Bosque Sagrado, feito de versos recolhidos em diversos jornais. Este livro foi preparado por Teixeira de Pascoaes.

 
Misticismo

 
Há dias, ao passar nas alamedas
Da minha terra, ao darem as trindades,
Pisando folhas, como velhas sedas,
Com os meus olhos cheios de saudades,

Há dias, quando eu fui nem sei por onde,
Entre lírios e tristes açucenas,
Às horas em que o sol de nós se esconde,
E repicam os sinos às novenas,

Há dias, quando eu fui na tarde exangue,
Ouvindo a minha voz interior,
Faziam recordar gotas de sangue
Os derradeiros raios do sol-pôr.

Bendita sejas, tarde harmoniosa,
Tarde da minha fé e do meu desejo,
Branda como uma pétala de rosa,
Ou como o aroma de um antigo beijo.

Alfredo Brochado, in "Bosque Sagrado”
 

 
 

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

DOMINGOS DOS REIS QUITA - Aonde, amor cruel, aonde me guias?

 
 
 
 
 

Domingos dos Reis Quita (Lisboa, Portugal, 1728 – 1770).
As suas obras compreendem odes, sonetos, éclogas, tragédias.
Foi o criador da pastoral dramática em Portugal, com o drama Licore.


Aonde, amor cruel, aonde me guias?

Aonde, amor cruel, aonde me guias?
São estes os teus bosques consagrados
Onde só vejo peitos lacerados,
Corações em extremas agonias?

Só respondem as duras penedias
A míseros gemidos em vão dados;
Olhos formosos, rostos delicados
São ministros das tuas tiranias.


Já me rasgam o peito em mil pedaços:
Marcia me disparou acerbos tiros,
Lá vai fugindo com velozes passos.

Suspende, ó ninfa, os apressados giros,
Deixa cruel, ao menos, que em teus braços
Amintas lance os últimos suspiros.

 

Domingos dos Reis Quita, in “Antologia Poética”

 

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

ALBERTO DE OLIVEIRA – O Mar agita-se, como um alucinado

 
 
 
 
 
 

Alberto de Oliveira (Porto, Portugal, 1873 - São Mamede de Infesta, Portugal, 1940).

Fez a sua estreia no mundo das letras com Poesias.
Quando o Simbolismo surgiu em França, prontamente aderiu a esse movimento literário de reacção contra o parnasianismo.

Com a publicação de Palavras Loucas e Cartas da Última Hora, o poeta transformou-se no primeiro doutrinário do tradicionalismo literário folclorista.  

 
 
Palavras de Alberto de Oliveira:

Nós queremos a indisciplina, a imagem desgrenhada, temos ódio à regra, desprezamos o contorno, queremos a mancha.”

 

           O Mar agita-se, como um alucinado

 
O Mar agita-se, como um alucinado:
            a sua espuma aflui, baba da sua Dor...
         Posto o escafandro, com um passo cadenciado,
         Desce ao fundo do Oceano, algum mergulhador.

 

Dá-lhe um aspecto estranho a campânula imensa:
          Lembra um bizarro Deus de algum pagode indiano:
      Na cólera do Mar, pesa a sua Indiferença
        Que o torna superior, e faz mesquinho o Oceano!

 

E em vão as ondas se enroscam à cabeça:
          Ele desce orgulhoso, impassível, sem pressa,
         Com suprema altivez, com ironias calmas:

 

Assim devemos nós, Poetas, no Mundo entrar,
       Sem nos deixarmos absorver por esse Mar
        — Pois a Arte é, para nós, o escafandro das Almas!

 

 

Alberto de Oliveira, in “Bíblia do Sonho”

 

MALMEQUER

MALMEQUER Português, ó malmequer Em que terra foste semeado? Português, ó malmequer Cada vez andas mais desfolhado Ma...