segunda-feira, 13 de novembro de 2017

LAMENTO POR HIROXIMA




LAMENTO POR HIROXIMA

Em Setembro de 1961, no quadro do Festival Outono de Varsóvia, o director de orquestra Andrzej Markowski dá a conhecer uma obra que causa profundo impacto no auditório: Trenos, de Krzystof Penderecki, dedicada às vítimas de Hiroxima. 

Escrita para um conjunto de 52 cordas (24 violinos, 10 violas-de-arco, 10 violoncelos e 8 contrabaixos), a partitura não só apresenta uma inovadora escrita para os instrumentos, mas acima de tudo, impressiona pela sua surpreendente capacidade expressiva. 

Penderecki afirmou a propósito dela: «Com Trenos, quis expressar a minha firme crença de que o sacrifício de Hiroxima não deverá ser nunca esquecido.»



in “Auditorium”

domingo, 12 de novembro de 2017

FERNANDO GUIMARÃES - Poesia, Pintura e Realidade




FERNANDO GUIMARÃES
(Porto, Portugal, 1928)

Poeta, ensaísta, tradutor, crítico literário


POESIA, PINTURA E REALIDADE

A linguagem poética ou artística, que nada representa, aparece, entre todas, como aquela que está mais próxima do conhecimento do ser, na medida em que ela é, e não significa, o próprio ser. Tal linguagem é, pois, criação. O poeta, como criador, é de si que desvela essa realidade, não porque esta seja apenas ele, mas porque ela está também nele.

Neste momento, podemos perguntar se a pintura é distinta da poesia por ser não criação mas contemplação. A atitude do pintor seria contemplativa e, como contemplativa, distinguir-se-ia da do poeta que, como vimos, é criativa.

Enquanto um exprimia a realidade, o outro representá-la- ia. Uma das descobertas do artista plástico foi a cor. Mas a cor, ao ser descoberta, representa, não aquilo para que serve - porque então não seria já ela -, mas o que ela é em si mesma. Deste modo surge como linguagem, mas como essa linguagem nada nos representa além dela mesma, porque encontra em si a sua plenitude, podemos dizer que ela é, também, criação ou poesia. O mundo criado é a própria realidade. 

É aí, nessa realidade, que se encontram o autêntico religioso, ou seja, o místico, e todo o artista. Mas só este, estrangeiro entre os outros dessa realidade, pode dela regressar, criando-a. 

O religioso - pelo contrário – ficará inevitavelmente acorrentado à sua essencial ausência de limites. Por isso ele é, como diria Nietzsche, rico de mais para que possa dar.



in “Árvore” – revista literária


sábado, 11 de novembro de 2017

Poema de EGITO GONÇALVES dedicado a LEDO IVO



OUTUBRO


Os mortos estão esperando o frio de Novembro
enquanto as pétalas dos crisântemos se vão definindo
neste meio de Outubro, hereditariamente mortiço.
Os mortos estão esperando! Os cardíacos, os fuzilados,
os arrogantes, os tuberculosos, os suicidas
estão esperando as suas flores, o seu pretexto
para se imporem ao coração dos existentes
e manejarem a saudade como um látego,
rasgando a carne dos joelhos que amaram.
É a hora de nos ditarem a contemplação de pequenos objectos
sepultados no fundo de gavetas incómodas ...
É a hora de se transformarem em flechas
e apresentarem os retratos fidelíssimos
para serem salgados de lágrimas veementes.
Ridículo oferecer-lhes passeios sobre o rio,
constelações em marcha, conferências sobre o sexo,
magazines ilustrados, coloridos foguetes luminosos.
O choro é essencial; Novembro não esquece,
reforça os seus pilares, não tardará a erguer-se.
Com os relógios quebrados contra o tempo
os mortos aguardam, embrulhados nas horas que não têm,
enquanto as pétalas dos crisântemos já se torcem, disformes,
como a dor que depositaremos sobre os túmulos.




sexta-feira, 10 de novembro de 2017

HENRY DAVID THOREAU - Escritor




HENRY DAVID THOREAU
(Concord, EUA, 1817 – 1862)

Escritor, poeta, historiador  e filósofo

Para os seus contemporâneos, Henry Thoreau não passava de um discípulo menor do filósofo e seu amigo íntimo Ralph Waldo Emerson, mais velho catorze anos e autor já então muito conhecido. 

Cem anos depois, porém, Thoreau passou a ser considerado um dos gigantes da literatura norte-americana, admitindo-se universalmente que fala muito mais ao nosso tempo do que pôde falar ao seu. A sua vasta obra, em grande parte postumamente publicada, continua a mostrar-se influente em domínios diversos: no amor pelas belezas naturais, na sátira de costumes, na oposição às instituições estatais, na protecção e conservação da natureza e seus recursos, na estilística do ensaísmo moderno.

No dia 4 de Julho de 1845, aos 27 anos, enquanto a maioria dos estadunidenses agitava bandeirinhas por entre o ruído do fogo de artifício e dos sinos, Thoreau celebrava o Dia da Independência à sua própria maneira, inaugurando, com um grupo de amigos (entre os quais Emerson), a cabana que construíra junto ao Walden, um lago glaciar situado a uns 3 km de Concord.

Dera esse passo com vista a pôr em prática as suas exigências de uma vida simples e despojada, graças à qual, como depois há-de verificar, lhe será possível trabalhar, no máximo, seis semanas por ano. 

Thoreau, que levava muito a sério o lema «um homem é rico em proporção ao número de coisas de que pode prescindir», confirmava assim o que declarara alto e bom som aquando da sua licenciatura na Universidade de Harvard, invertendo as prescrições bíblicas: que o homem deveria trabalhar um dia por semana e descansar nos outros seis  ainda que este «descanso», no caso de Thoreau, deva ser matizado, visto ele o dedicar a escrever e a observar apaixonadamente a natureza. 

Um dos seus objectivos ao ir morar para os bosques era escrever uma obra sobre a viagem que em 1839 empreendera com seu irmão John pelos rios Concord e Merrimack. E, curiosamente, na cabana escreverá A Week on the Concord and Merrimack Rivers e Walden, os dois únicos livros que pôde publicar em vida. 

Curiosamente também, fez isso na altura da grande migração que levou à chamada «conquista do Oeste», sem esta o atrair. Thoreau, de facto, compreendera que necessitava de algo mais vital do que mudar de geografia: impunha-se-lhe modificar o seu modo de vida.
Para Thoreau, a verdadeira transformação é pessoal, interior, totalmente individual, correspondendo à descoberta da divindade em cada pessoa como elemento indissociável da natureza.


in “Antígona”

***
Palavras de Henry David Thoreau
“Se queres um escudo impenetrável, permanece dentro de ti mesmo.”



quinta-feira, 9 de novembro de 2017

AUGUSTO ABELAIRA - Escritor




AUGUSTO ABELAIRA
(Ançã, Cantanhede, Portugal, 1926 - Lisboa, 2003)

Romancista, dramaturgo, jornalista

Licenciou-se em Histórico-Filosóficas pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (1953). Foi professor durante alguns anos, tendo-se dedicado posteriormente apenas à escrita, ou como jornalista ou como ficcionista e dramaturgo e mais esporadicamente como tradutor. 

Desempenhou alguns cargos, entre outros: director das revistas Seara Nova (1969-1973) e Vida Mundial (1974-1975).

A sua estreia literária data de 1947 com um pequeno ensaio «Sinceridade e falta de convicções na obra de Fernando Pessoa».

Recusado pelas editoras, por razões políticas, A Cidade das Flores foi publicado em edição de autor (1959), tendo sido sucessivamente reeditado ao longo dos anos (a última em 2004). Romance que marcou toda uma geração, Florença, cidade onde se situa a narrativa, tornou-se uma «cidade abelairiana», como lhe chamam numerosos leitores e amigos.

Como ficcionista publicou 11 obras, tendo o seu último romance Nem Só Mas Também sido publicado postumamente.

Como dramaturgo publicou três peças de teatro, uma delas – A Palavra é de Oiro (1961) – foi proibida de representação pela Comissão de Exame e Classificação dos Espectáculos.

A sua intervenção política data dos tempos da Faculdade (MUD Juvenil), tendo integrado os movimentos de oposição ao regime. Em 1965 foi preso por alguns dias juntamente com outros membros do júri que atribuiu o Prémio da Novelística da Sociedade Portuguesa de Autores a Luandino Vieira, na altura preso no Tarrafal.

Fez parte das tertúlias dos cafés «Bocage», «Chiado», «Monte Carlo», entre outros, e mais tarde da «Nobreza» (a figura de Carlos de Oliveira sempre presente mesmo quando já ausente) e da «Cister».



in “Biblioteca Nacional de Portugal” (excertos)


quarta-feira, 8 de novembro de 2017

PROBLEMAS DO TEATRO: Traições e interpretações





TRAIÇÕES E INTERPRETAÇÕES

Arte de sínteses, o teatro amplia o significado das mais simples frases na linguagem da atitude, da cor, do som, da luz.
Há portanto que prolongar a ideia na interpretação, e que a classificar na expressão. E para isso não deve o actor, sob pena de atraiçoar a obra, recorrer a processos pessoais, aqueles processos naturalmente aconselhados pela sua sensibilidade de homem, mas sim aos processos que se coadunam com o espírito e com a índole da peça.

O actor tem que estudar, principalmente quando se trata de teatro clássico, o reajustamento de processos, devendo ter em consideração a época, o estilo do autor e a formação do público para quem representa. Este deve ser o trabalho intelectual de todo o intérprete digno deste nome.

O autor confia ao talento do intérprete qualquer coisa de muito precioso, que não é só a obra materialmente contida num caderno de papel, que não é só a ideia logicamente exposta, que é também e principalmente uma confidência de sensibilidade, mais do que um estado sentimental, uma potencialidade de sentir. Quando um homem tem a honra de receber de outro homem um depósito destes e o deforma para o adaptar a si próprio, comete pura e simplesmente um delito moral que o devia encher de vergonha.

Rouba mais do que um pensamento porque rouba uma alma, empobrece mais do que um homem porque delapida uma obra, mata mais do que um sonho porque compromete a perenidade de uma ideia. 

À luz portanto de um juízo objectivo, calmo e imparcial, todas essas adaptações de personagens, todas essas inspirações momentâneas de intérpretes, todas essas habilidades histriónicas dos chamados mestres de êxitos que se arrastam com o cabotinismo por grande parte dos palcos de todo o mundo e de todos os séculos, são afinal apenas uma infame espoliação do espírito.

Não suponha ninguém que é grande actor pelo simples facto de ser aplaudido, é preciso apenas que siga de perto, lado a lado, o destino da obra que interpreta.

O actor que tem um êxito pessoal numa peça falhada, pode ter a certeza absoluta que cometeu um abuso de confiança. E quantas vezes ofuscado pelo clarão de glória que envolve o autor, não foi o intérprete elemento essencial do êxito!

O actor não é um criador puro, é um instrumento de expressão do autor, é mármore plasticizado por um génio alheio, é tinta de uma paleta que outro compôs e só tendo a noção disso a personalidade do actor passa com incólume nobreza por tudo o que na sua arte se pode parecer com vaidosa exibição, com hábil aproveitamento de dotes físicos, com torpe cabotinismo de vaidades ocas. E só despindo-se de cabotinismos e vaidades, se pode chamar a um homem com talento – artista.

Não nos iludamos portanto com a dignidade artística de determinados actores que aplicam a sua elegância, a sua vibração dramática, ou o seu físico especial para enlevarem o público, sendo sempre eles próprios em todas as peças.

Nestes seres não há paixão por uma ideia, mas simplesmente ignóbil narcisismo, e sem paixão não há arte.

Eleonora Duse na sua companhia ambulante, pobre e ignorada, sem dinheiro para se vestir de luto quando se viu só no mundo, persistia sob os apupos de toda a vilanagem dos palcos, a dar a sua alma nua aos poetas; hoje falar na Duse é invocar toda a grandeza de uma profissão e de uma arte.

Por muito cruel que seja a subalternidade imposta pelo arbítrio das empresas, que não desanimem os novos com verdadeiro amor ao teatro, porque os que se amam a si próprios morrerão e a arte é imortal.

A vida do teatro oferece frequentemente exemplos desta verdade: não é preciso ser-se cabeça de cartaz para que o público saiba onde estão os grandes artistas.

É evidente que deve haver horas tenebrosas nessa arte tornada profissão, quando sistematicamente aos artistas são distribuídos papeis que não lhes convêm porque os empresários conhecem as suas próprias deficiências; mas não se corta o caminho do génio mesmo quando se distribuem rábulas. Basta o eco de uma inflexão justa num diálogo de cabotinos artificiais, para que o rabulista varra os astros com uma vassourada de verdade.

Fora do ambiente da peça, da convenção entre autor e público, que Sarcey via na colocação do problema teatral, todas as habilidades por maiores que sejam soam a falso, pois esbracejam apenas moinhos sem grão.

Desde que as empresas se desinteressam do real valor artístico das suas peças, compreende-se até que caos de desordem e de empobrecimento mental chegou ao teatro português, abrindo as portas pela sua voluntária acefalia, a toda e qualquer habilidade vistosa do mais despudorado cabotino.


ANTÓNIO DA COSTA FERREIRA (Elvas, Portugal, 1918 - Lisboa, 1997), actor, encenador e dramaturgo.

in “Mundo Literário” – Semanário de crítica e informação literária, científica e artística -1947 (excertos)




terça-feira, 7 de novembro de 2017

MARIA ALMIRA MEDINA - Manhãs de infância




MARIA ALMIRA MEDINA
(Figueira da Foz, Portugal, 1921 – Sintra, 2016)

Poetisa, artista plástica e professora

Licenciou-se em Filologia Românica da Universidade de Lisboa. Dedicou-se especialmente ao desenho, à caricatura, cerâmica e a trabalhos de esmalte. Além disso, também publicou livros de poesia: Distância e Madrugada, entre outros.
Teve colaboração literária em diversos jornais, livros e revistas. Realizou exposições individuais e colectivas.
***
MANHÃS DE INFÂNCIA
Ter-te nas mãos em concha ó Serra
de Sintra verde pomba mansa de heras
manhãs de infância hibernadas
pitospóro a exalar primaveras
paralelas obsessivas derramadas
no tempo escorregadia voz e violino rosto à janela
manto inconsútil nómada sobre castelo e bosques
morrinha orvalho lágrima chorada
pelo coração do mar.

Imagem: Maria Almira Medina – fotografia de Rui Zilhão


MALMEQUER

MALMEQUER Português, ó malmequer Em que terra foste semeado? Português, ó malmequer Cada vez andas mais desfolhado Ma...