sexta-feira, 15 de junho de 2018

ELISABETH BADINTER - "O Amor Incerto: História do Amor Maternal"


ELISABETH BADINTER
(Boulogne-Billancourt, França, 1944)
Filósofa, escritora

***

Elisabeth Badinter demonstra nesta obra, O Amor Incerto: História do Amor Maternal, que já fez correr muita tinta, que o amor maternal não é, contrariamente a uma ideia divulgada, um instinto: é, de acordo com o título deste livro, “incerto”e não inato. Baseando-se em dois exemplos retirados dos últimos séculos, do XVII ao XX, a autora sublinha que ser mãe não está inscrito na natureza das mulheres. A história do amor maternal revela-nos que se trata em primeiro lugar, de um sentimento que evolui ao longo dos tempos.


in "Mulheres Século XX"

***

“O amor maternal não é mais que um sentimento humano. E como todos os sentimentos é incerto, frágil e imperfeito. Contrariamente às ideias dominantes, talvez não se encontre inscrito em profundidade na natureza feminina. Quando observamos a evolução das atitudes maternais, verificamos que o interesse e a dedicação pela criança ora se manifestam, ora não se manifestam. A ternura ora existe, ora não existe. As diferentes maneiras de expressão do amor maternal vão do mais ou menos, passando pelo nada, ou pelo quase nada.”

“A mãe, no sentido habitual do termo (quer dizer, a mulher casada dotada de filhos legítimos), é um personagem relativo e tridimensional. Relativo, porque a mãe não é concebível a não ser por referência ao pai e à criança. Tridimensional, porque, para além desta dupla relação, a mãe também é uma mulher, quer dizer, um ente específico dotado de aspirações próprias que muitas vezes nada têm a ver com as do esposo e com os desejos da criança.”



in”O Amor Incerto: História do Amor Maternal"






quinta-feira, 14 de junho de 2018

ANA HATHERLY – Tisana 45


ANA HATHERLY
(Porto, Portugal, 1929 – Lisboa, 2015)
Professora, escritora, artista plástica

***

Tisana 45

De cada vez que respiro sei que alternadamente perco e recupero o meu corpo. Depois penso que é na praia-mar da respiração que o meu corpo de forma, nesse intervalo. (Quando as pessoas dormem ou estão no cinema, por exemplo, o ar do recinto fica alternadamente cheio e vazio de corpos!) Respirar o corpo para fora inspirar o corpo para dentro. Eis como a ginástica é uma forma de vampirismo. Penso nisto quando estou na praia olhando um homem deslizar numa prancha por uma onda fora. De repente desequilibra-se e cai. Tudo o que é profundo se revela à superfície.

Estou aqui e contemplo o suicídio dos objectos habituais. Na mutilação da própria cadeira em que me sento vejo a morte lenta e saturada que consiste na imolação pela comunicação. Na minha frente desmorona imperceptível uma mesa. Ia falar mas já era tarde. Os vidros estavam todos embaciados.









quarta-feira, 13 de junho de 2018

ANTÓNIO GEDEÃO - Poema da mulher dos cabelos brancos...



ANTÓNIO GEDEÃO
(Lisboa, Portugal, 1906 - 1997)
Poeta, professor

***

Poema da mulher dos cabelos brancos...

A mulher dos cabelos brancos estava à janela do primeiro andar
com os antebraços poisados no parapeito.
Tinha um xaile de malha sobre os ombros,
cruzado à frente e as mãos metidas nele.

Quentinha, a mulher dos cabelos brancos.

Postada à janela,
muito ocupada em fazer coisa nenhuma,
com os antebraços poisados no parapeito,
a mulher dos cabelos brancos
só seguia com os olhos quem passava na rua.
Ela nunca tinha ouvido falar no Aristóteles,
nem no Descartes, nem no Sigmund Freud,
mas sabia coisas concretas que a vida prática lhe ensinara.
Sabia que Eva tinha sido feita
de uma costela de Adão,
o que se prova
por os homens terem uma costela a menos do que as mulheres.
E também sabia que o Sol anda à volta da Terra
como é evidente,
e que as salamandras vivas,
postas no fogo,
não morrem nem sequer se queimam,
o que não é evidente mas é certo.
E por saber todas estas coisas,
e muito mais,
a mulher dos cabelos brancos sentia-se muito quentinha
com os antebraços poisados no parapeito.

Eis que,
porém,
o relógio do tempo despertou-a.
Então,
pausadamente,
a mulher dos cabelos brancos ergueu o busto,
fechou a janela,
e foi sentar-se na cadeira do costume,
aconchegadinha,
a ver televisão.




domingo, 10 de junho de 2018

MIGUEL TORGA - A Brandura dos Nossos Costumes



MIGUEL TORGA
(São Martinho de Anta, Portugal, 1907 - Coimbra, 1995)
Poeta, escritor

***

A Brandura dos Nossos Costumes

A brandura dos nossos costumes... A delicadeza da nossa alma... O sentimentalismo do homem português... É, é! Viu-se no passado, e vê-se no presente. O que nós somos é hipócritas! 

Amamos a violência disfarçada, a tirania encoberta, o arrocho secreto. O medo do escândalo — que até no plano criador nunca nos permitiu grandes atrevimentos — é que tem sido o freio da nossa crueldade. 

Haja qualquer alvaiade para encobrir a sevícia, e Deus tenha piedade da vítima. Vilões sempre que nos põem a vara na mão, só não vamos às do cabo por cobardia. 

E é na denúncia irresponsável, na perfídia impune, na aleivosia anónima que cevamos a maldade. Realmente, nunca matamos o toiro. Cobrimo-lo de farpas, cristãmente.


in "Diário"




sábado, 9 de junho de 2018

CHARLES BAUDELAIRE – Os Faróis



CHARLES BAUDELAIRE
(Paris, França, 1821 - 1867)
Poeta

***
Foi um dos mais influentes poetas franceses do século XIX, considerado um dos precursores do Simbolismo.

***
Os Faróis

Rubens, rio do olvido, jardim da preguiça,
Divã de carne tenra onde amar é proibido,
Mas onde a vida flui e eternamente viça,
Como o ar no céu e o mar dentro do mar contido;

Da Vinci, espelho tão sombrio quão profundo,
Onde anjos cândidos, sorrindo com carinho
Submersos em mistério, irradiam-se ao fundo
Dos gelos e pinhais que lhes selam o ninho;

Rembrandt, triste hospital repleto de lamentos,
Por um só crucifixo imenso decorado,
Onde a oração é um pranto em meio aos excrementos,
E por um sol de inverno súbito cruzado;

Miguel Ângelo, espaço ambíguo em que vagueiam
Cristo e Hércules, e onde se erguem dos ossários
Fantasmas colossais que à tíbia luz se arqueiam
E cujos dedos hirtos rasgam seus sudários;

Impudências de fauno, iras de boxeador,
Tu que de graça aureolaste os desgraçados,
Coração orgulhoso, homem fraco e sem cor,
Puget, imperador soturno dos forçados;


Watteau, um carnaval de corações ilustres,
Quais borboletas a pulsar por entre os lírios,
Cenários leves inflamados pelos lustres
Que à insânia incitam este baile de delírios;

Goya, lúgubre sonho de obscuras vertigens,
De fetos cuja carne cresta os sabás,
De velhas ao espelho e seminuas virgens,
Que a meia ajustam e seduzem Satanás;

Delacroix, lago onde anjos maus banham-se em sangue,
Na orla de um bosque cujas cores não se apagam
E onde entranhas fanfarras, sob um céu exangue,
Como um sopro de Weber entre os ramos vagam;

Essas blasfémias e lamentos indistintos,
Esses Te Deum, essas desgraças, esses ais
São como um eco a percorrerem mil labirintos,
E um ópio sacrossanto aos corações mortais!

É um grito expresso por milhões de sentinelas,
Uma ordem dada por milhões de porta-vozes;
É um farol a clarear milhões de cidadelas,
Um caçador a uivar entre animais ferozes!

Sem dúvida, Senhor, jamais o homem vos dera
Testemunho melhor de sua dignidade
Do que esse atroz soluço que erra de era em era
E vem morrer aos pés de vossa eternidade!




sexta-feira, 8 de junho de 2018

YVETTE CENTENO – Os Abutres


YVETTE CENTENO
(Lisboa, Portugal, 1940)
Professora, poetisa, dramaturga, tradutora

***

Os Abutres

I

Morre um poeta
cai um avião
os abutres
limparão os corpos
deixando os ossos
espalhados
na montanha;
roubarão ao poeta
as palavras não-ditas
que ele fora amortalhando
como se adivinhasse

Bastaria morrer
para que se abrissem
as páginas dos jornais
com o seu rosto cansado

Poderá ver de longe
com um sorriso amargo
alguma correria aos livros
mais antigos, de que ele
dizia irónico são apenas folhetos…

II

Eu guardo para mim
os primeiros encontros
no café Gelo, ao Saldanha,
diante da bica
nesses anos sessenta, onde
o sucesso pouco importava e
apenas se falava do livro
entregue para publicação
ou de algum outro
que se estivesse a ler

Vivia-se entre amigos,
era o Carlos Ferreiro quem fazia
as vinhetas e as ilustrações
que o Vítor Silva Tavares lhe pedia
para as edições & Etc.
Os seus desenhos eram ampliação
da palavra mais negra, mais oculta
batiam no coração

E anos mais tarde, já depois
da Revolução de Abril,
era com o Alberto Pimenta
outro poeta, um amigo de sempre,
que se discutia o interesse
da tão aguardada nova escrita:
escassa e rara, fazia-se politiquice,
não se lia, e era assim que o poeta
entristecia

Pego ao acaso num desses “folhetos”
que ele sabia enviar-me, sabia que eu gostava
fui sempre fiel e lia –
desde A Colher na Boca não mais me separara

E aqui o tenho e leio,
um deles,
as folhas amareladas de
O Corpo O Luxo A Obra:
reparo que há lá dentro uma carta
de que não me lembrava,
estamos em 1978 e ele escreve a agradecer
algo que eu lhe tinha enviado:
uma carta gentil, caligrafia miudinha,
de letra bem desenhada…

Para O Corpo O Luxo A Obra
ele escolhera uma epígrafe de Húmus,
anterior de dez anos (1966/67) mas já fecha o seu livro, com a Tabula Smaragdina, de Hermes Trismegisto,
o Pai fundador da alquimia:
é um aceno discreto que me faz
recordando que também ele estudava
o ouro da alquimia que se gera a si próprio
no interior da terra

Queria ver talvez se eu tinha mesmo chegado
ao fim do seu folheto, que o não era,
era já o poema contínuo de uma vida,
ela sim forrada por dentro a folha de ouro,
o ouro das palavras
“o nervo que entrelaça a carne toda,
de estrela a estrela da obra”.

Despeço-me, aqui mesmo,
como no café Gelo,
sem saber até quando

A mim, também já de saída,
citar ou evocar já não me chega,
aguardarei o sinal que a Mãe
na véspera me tinha dado
mas sem dizer mais nada:
era um sonho, vejo a Mãe,
aguardando de pé, elegante e de negro
enquanto à sua frente, na mesa coberta
por toalha de linho, vários talheres de prata
iam ser arrumados

Vejo-a que espera.
Sei que virá alguém
para arrumar aquele resto de vida:
era afinal o Poeta,
o filho tão aguardado…




in “Literatura e Arte” - Blog de Ivette Centeno
Este poema foi escrito a 25 de Março de 2015: ao Herberto Helder, in memoriam.

HERBERTO HELDER (Funchal, Madeira, Portugal, 23 de Novembro de 1930 – Cascais, 23 de Março de 2015), poeta, escritor.





quinta-feira, 7 de junho de 2018

O JOGO DA VIDA E DA MORTE




O Jogo da Vida e da Morte


A 2 de Dezembro de 1949, Leonard Bernstein, à frente da Orquestra Sinfónica de Boston, dirige a estreia da obra mais ambiciosa que até à data foi composta por Olivier Messiaen: Turangalîla-symphonie. 

Escrita entre 1946 e 1948, o título, como explica o seu criador, deriva de uma palavra sânscrita: «Lîla quer dizer ‘jogo’, mas jogo no sentido de acção divina sobre o cosmos, o jogo da criação e da destruição (…) da existência e da morte. Turanga é o tempo que corre, como um cavalo a galope (…) Assim, Turangalîla vem a significar algo parecido a um canto de amor, um hino à alegria, ao tempo, ao movimento, ao ritmo, à vida e à morte.» 

A obra surpreende o auditório pela inusitada riqueza e originalidade das suas cores orquestrais e também pela variedade e heterogeneidade da sua linguagem. Com efeito, em Turangalîla- symphonie encontram-se todas as constantes próprias do particular estilo de Olivier Messiaen, desde uma profunda fé cristã até à fascinação pela serenidade hindu, incluindo o seu interesse pelo timbre ou a sua paixão pelo canto dos pássaros.



in “Auditorium”
Imagem: escultura de Havajra


MALMEQUER

MALMEQUER Português, ó malmequer Em que terra foste semeado? Português, ó malmequer Cada vez andas mais desfolhado Ma...