segunda-feira, 20 de agosto de 2018

SARAH AFFONSO – Pintora


SARAH AFFONSO
(Lisboa, Portugal, 1899 - 1983)
 Pintora

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A vida de Sarah Affonso tem uma relação particular com a sua obra. Foram poucas as mulheres que souberam transpor em Portugal as barreiras sociais à afirmação das mulheres como artistas nas primeiras décadas do século XX. Foi a primeira mulher a frequentar, contra todas as convenções, a “Brasileira”, no Chiado, o que ilustra não só os preconceitos do seu tempo mas também o espírito independente com que os encarava. 

Mas se, por um lado, o tempo em que viveu condicionou o seu percurso artístico, foram também as suas vivências e memórias que usou como matéria-prima da sua arte. Foi a partir da sua própria vida – da infância e e dos laços de amizade e amor – que construiu uma linguagem e uma temática próprias.

Em 1934 casa com Almada Negreiros, que acabara de voltar de uma estadia de sete anos em Madrid. A prazo, as obrigações de sustentar a sua família, tarefa nem sempre fácil, concorreram para a voluntária retirada da pintura, em finais dos anos 40. Mas nos primeiros anos do seu casamento desenvolve o que será a parte mais importante da sua obra pictórica. 

Dos retratos de meninas e mulheres e das paisagens urbanas passa para composições que incorporam motivos antes utilizados nos bordados, oriundos da cultura e imaginário populares. Evoca, a partir da memória da infância passada no Minho, costumes (procissões, festas, alminhas) e mitologias populares (nomeadamente as sereias). 

A obra Casamento na Aldeia, de 1937, é representativa desta fase da obra de Affonso. Outro motivo frequente é a família, que retrata num universo íntimo com sugestões mágicas ou lendárias.




in “Museu Calouste Gulbenkian” (excerto)
Imagem: auto-retrato de Sarah Affonso


domingo, 19 de agosto de 2018

EDUARDO PITTA - Está um rapaz a arder


EDUARDO PITTA
(Lourenço Marques, actual Maputo, Moçambique, 1949)
Poeta, escritor, ensaísta

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Publicou, em Moçambique, o seu primeiro livro de poesia, Sílaba a Sílaba, 1974.
Em 2008 adaptou para crianças o clássico de Eça de Queirós O Crime do Padre Amaro. Em 2008 editou a obra poética de António Botto em dois volumes.
Entre 1974 e 2013 publicou dez livros de poesia, uma trilogia de contos, seis volumes de ensaio, um romance, dois diários de viagem e um livro de memórias.
Últimos livros publicados: Desobediência, Um Rapaz a Arder, Cadernos Italianos, Pompas Fúnebres.

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Está um rapaz a arder

Está um rapaz a arder
em cima do muro,
as mãos apaziguadas.
Arde indiferente à neve que o encharca.
Outros foram capazes
de lhe sabotar o corpo,
archote glaciar.
Nunca ninguém apagou esse lume.








sábado, 18 de agosto de 2018

AMBROSE BIERCE – O funcionário consciencioso

AMBROSE BIERCE
(Ohio, EUA, 1842 – 1913)
Escritor, crítico satírico, jornalista

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O funcionário consciencioso

Estava um Chefe de Divisão de uma companhia de caminhos-de-ferro concentrado na sua tarefa de colocar obstáculos na via e de trocar agulhas, quando foi avisado que o Presidente da companhia tencionava despedi-lo por incompetência.

- Ora valha-me Deus! – exclamou ele. – Na minha divisão até há mais acidentes que em todo o resto da linha.

- Para o Presidente todos os pormenores contam – disse o Homem que lhe trouxera a notícia -; acha ele que é possível manter o mesmo número de vítimas infligindo menos danos à propriedade da companhia.

- Estará ele à espera que eu comece a disparar contra os passageiros através das janelas das carruagens?! – exclamou o indignado funcionário enquanto cravava uma travessa de um lado ao outro da via. – Por quem me toma ele? Por algum assassino?



in “Esopo emendado & outras fábulas fantásticas”




sexta-feira, 17 de agosto de 2018

ANTÓNIO SARDINHA - Letreiro


ANTÓNIO SARDINHA
(Monforte, Portugal, 1887 - Elvas, 1925)
Historiador, poeta

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Convertido ao catolicismo e aos ideais monárquicos, fundou em 1914, com Alberto Monsaraz e Hipólito Raposo, a revista de filosofia política Nação Portuguesa, que em 1916 daria origem ao Integralismo Lusitano, de que foi o chefe prestigioso. O fracasso da tentativa de restauração monárquica, no Porto, levou-o ao exílio em Espanha (1919-1921). 

No regresso dedicou-se à sua obra de historiador e doutrinador, em grande parte publicada postumamente. Apesar da morte prematura, a sua obra dá-lhe jus a ser considerado o mais fecundo renovador do pensamento português nas segunda e terceira décadas do século XX.


in “Livro dos Grandes Portugueses”


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Letreiro

Tudo o que sou o sou por obra e graça 
da comoção rural que está comigo. 
Foi a virtude lírica da Raça 
a herança que eu herdei do sangue antigo.

Foi esta voz que em minhas veias passa 
e atrás da qual, maravilhado eu sigo. 
Como um licor de encanto numa taça,  
assim se quer esse condão comigo.

Olhai-me: – Eu vim de honrados lavradores. 
De avós e netos, sempre os meus Maiores 
fitaram o horizonte que hoje eu fito.


«O que estaria além da curva estreita?»  
– E da pergunta, a cada instante feita. 
nasceu em mim a ânsia pró Infinito.



quinta-feira, 16 de agosto de 2018

TOMÁS DA FONSECA – Aos Humildes



TOMÁS DA FONSECA
(Mortágua, Portugal, 1877 - Lisboa, 1968)
Poeta, historiógrafo, professor

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Cursou Teologia no Seminário de Coimbra. Tendo abandonado a carreira eclesiástica, tornou-se ardoroso arauto dos ideais republicanos e anticatólicos.
Publicou versos, ensaios, romances e obras de historiografia. Estreou-se com Evangelho de Um Seminarista, 1903, e o volume de poesias Deserdados.
Em 1909 publicou Sermões da Montanha, um dos seus mais famosos livros.

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AOS HUMILDES

Povo! Hoje ainda, como há vinte, como há quinhentos séculos, o maior empenho dos tiranos é afastar-te da verdade, conservando-te preso à mais afrontosa ignorância. Agora, como então, há uma casta maldita que te impede o direito de seres livre, procurando esconder-te da razão e da justiça, fazendo ao teu sentir e ao teu querer o mesmo que tu fazes, no alambique, ao fermento da uva e do medronho, quando o queres destilar: abafam-te.

Mas uma coisa, enfim, deve animar-te. É que em volta de ti, já tudo canta e fraterniza. De toda a parte surgem vozes que te mandam ser livre; vozes harmónicas, profundas, que juntamente nos convidam a descer a noite da tua dor, onde mãos criminosas te algemaram, para que nenhuma luz te alumiasse. E porque tuas ânsias tanto bradam, eis-me portanto aqui. É esta a minha mão; aperta! Este o meu braço; arriba! E agora escuta. (…)



in “ Sermões da Montanha”






quarta-feira, 15 de agosto de 2018

ALFREDO BROCHADO - Senhora, porque me Deixas?



ALFREDO BROCHADO
(Amarante, Portugal, 1897 – Lisboa, 1949)
Poeta

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Escreveu um livro, apenas, O Sangue dos Heróis (1921). O segundo, Bosque Sagrado (1949), editado postumamente, foi feito de versos recolhidos pela mão amiga que os reuniu como num ramo perfumado, das páginas literárias de jornais e revistas, preparado por Teixeira de Pascoaes e com notícia crítica de Manuel Mendes. Nele se revela o poeta das névoas e das finas luzes do entardecer. Os versos que nos deixou, quanto mais simples mais belos.


in “Dicionário da Literatura Portuguesa”

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Senhora, porque me Deixas?

Senhora, porque me deixas,
Quando eu te não deixei?
Se me deixas, minhas queixas
A quem é que eu as farei?

Senhora do meu deserto,
Com alegria, ou tristeza,
Mostra o caminho mais certo
À minha grande incerteza.

Que a tua boca me diga
Segredos, intimidades.
Que a tua voz seja amiga
De quem não tem amizades.

Porque me deixas, senhora,
Depois de ver-te a meu lado?
Em vez disso melhor fora
Nunca te haver encontrado.

Senhora porque me deixas
Com o teu perfil esguio?
Se me deixas, minhas queixas
A quem é que eu as confio?






terça-feira, 14 de agosto de 2018

JOSEPH BRODSKY - A Cura pelo Tédio



JOSEPH BRODSKY
(Leningrado, Rússia, 1940 - Nova Iorque, EUA, 1996)
Poeta, ensaísta

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Recebeu o "Prémio Nobel de Literatura" de 1987.

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A Cura pelo Tédio

Sempre que fores atingido pelo tédio, deixa-te ser esmagado por este; submerge, bate no fundo. Em geral, com as coisas desagradáveis, a regra é: quanto mais cedo bateres no fundo, mais rápido voltas à tona. A ideia aqui é teres logo uma visão completa do pior. A razão pela qual o tédio merece tal escrutínio é que este representa tempo puro não diluído, de uma forma repetitiva, redundante e monótona.

O tédio é a tua janela para as propriedades do tempo, que tendemos a ignorar, necessário ao nosso equilíbrio mental. É a tua janela para o infinito. Uma vez que esta janela se abra, não a tentes fechar. Pelo contrário, abre-a completamente.

O tédio fala a linguagem do tempo, e ensina-te a mais importante lição da tua vida – a lição da tua total insignificância. E por isso é valioso, assim como para aqueles com quem esfregas os teus ombros. «Tu és finito», diz-te o tempo com uma voz de tédio, «e qualquer coisa que faças é, do meu ponto de vista, fútil». 

Como música para os teus ouvidos, claro, não deve contar; contudo, o sentimento de inutilidade, da importância limitada mesmo das tuas melhores, mais ardentes acções, é melhor do que a ilusão das suas consequências e a auto-satisfação correspondente.





in “On Grief and Reason: Essays”



MALMEQUER

MALMEQUER Português, ó malmequer Em que terra foste semeado? Português, ó malmequer Cada vez andas mais desfolhado Ma...