sexta-feira, 14 de setembro de 2018

MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO – A Mendiga



MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO
(Lisboa, Portugal, 1890 - Paris, França, 1916)
Poeta, contista, ficcionista

***

A Mendiga

Pedia esmola porque as suas pobres mãos encarquilhadas já não serviam para o trabalho, porque o seu corpo, ajoujado com o peso dos anos, se inclinava para o chão, olhando a terra a quem brevemente iria servir de pasto… Lutava pela vida, apesar de quase morta… Pedia esmola…

**

Era um dia lindo d´agosto e ela lá ia caminhando, pisando as pedras da calçada que, aquecidas por um sol abrasador, queimavam os seus velhos pés descalços… Havia dois dias já, que não comia. Sua filha, uma transviada da vida que se afogara no pântano lodacento da prostituição e do crime, pedira-lhe chorando, algum dinheiro para o seu amante…Ela dera-lhe todas as poucas moedas de cobre que possuía…

Das famílias que habitualmente a costumavam socorrer, só uma, por falta de meios, ficara na cidade. Era para a sua porta que se encaminhava. Subiu a escada, bateu, esperou. Um padeiro que descia disse-lhe: - «Aí não está ninguém, tiazinha. Saiu-lhes a sorte grande e foram ontem para fora». Bateu então às portas dos outros andares. Em todos lhe deram a esmola dum carinhoso «Tenha paciência» …

Saiu; foi caminhando até que se encontrou numa ruazinha deserta; sentou-se à borda do passeio e, sem forças já para lutar contra a morte, entregou-se-lhe serenamente…

… Era um dia lindo d´agosto e o seu pobre corpo jazia inerte sobre as pedras ardentes da calçada…
                             


in” Primeiros Contos”



quinta-feira, 13 de setembro de 2018

STANISLAW PONTE PRETA – Foi num clube aí



STANISLAW PONTE PRETA
(Rio de Janeiro, Brasil, 1923 - 1968)
Escritor, cronista, compositor

***

FOI NUM CLUBE AÍ

Isto mesmo, foi num clube da Guanabara, desses que cultivam a chamada segregação social. De repente o Conselho Deliberativo foi obrigado a se reunir em sessão especial por causa de um bode que deu num dos eventos sociais da agremiação.

Alguns conselheiros já sabiam vagamente do que se tratava, mas a maioria estava por fora, boiando no assunto. É que a grave ocorrência se dera em circunstâncias mais ou menos veladas. Todavia, clube vocês sabem como é: um antro de fofocas que eu vou te contar. Num instante começaram os boatos, os blá-blá-blás regulamentares.

Afinal, reunidos os senhores conselheiros, foi explicado que, durante uma reunião dançante, um sócio tinha bolacheado a namorada, num cantinho discreto do salão. A coisa, no entanto, se esparramara pela sede. Ora, em clube de gente metida a diferente, aquilo era insuportável.

Imaginem: um sócio exemplando a namorada numa dependência social.

Discutiu-se a matéria ad nauseam – como dizem os latinistas enjoados – mas aí um dos conselheiros garantiu que a coisa não fora bem assim. Um sócio tinha, realmente, baixado a manopla numa mulher, mas não era namorada, era esposa. Ora, isto agravava o caso. Um homem que não sabia respeitar a própria “patroa” (em clube usa-se muito chamar a mulher de “patroa”, assim como no Lion´s eles chamam de “domadora”), era indigno do quadro social.

Discutiu-se a matéria outra vez e aí outro conselheiro afirmou que tinham visto e lhe contado que o sócio dera uma bolacha, de facto, mas fora numa bicharoca, e não numa mulher. Gravíssimo, pois!

Discutiu-se a matéria e o Conselho Deliberativo já ia deliberar, quando um dos membros viu-se na obrigação de contar tudo, garantindo aos seus coleguinhas que era pior ainda. Não fora um só sócio, mas um director que batera na bicharoca.

Espanto gera! Mas que vexame! Sim, era, pior porém: duas bicharocas é que tinham se esbofeteado por causa de um director. A discussão - nesta altura – já era velada, tudo falando baixinho. E aí o presidente do Egrégio Conselho Deliberativo foi obrigado a suspender a sessão e aconselhar a todos que não falassem mais nisso, pois acabava de ser informado ao ouvido, por um conselheiro discreto, que não foi o caso de duas bicharocas brigando por causa de um director, e sim dois directores brigando por causa de uma bicharoca.





quarta-feira, 12 de setembro de 2018

SIBILLA ALERAMO – “Uma Mulher”



SIBILLA ALERAMO
(Alexandria, Itália, 1876 – Roma, 1960)
Escritora, poetisa

***
No princípio do século XX, tornou-se conhecida em toda a Europa graças à publicação do romance semi-autobiográfico, Uma Mulher, chocante e controverso para a época. Trata-se da história de uma mulher de uma aldeia do sul de Itália que, seduzida por um operário de seu pai, é obrigada a casar e, não conseguindo suportar essa união opressiva e infeliz, acaba por abandonar o lar, ao preço da perda do filho.

in “Mulheres Século XX”

***

“Porque é que a condição de mãe nos leva a adorar o sacrifício? De onde nos vem esta ideia desumana da imolação materna? De mãe para filha, há séculos que esta servidão se transmite. É uma cadeia monstruosa. Todas temos, a certa altura da nossa vida, a consciência de quanto fez para nosso bem aquela que nos deu a vida; e, juntamente com a consciência, o remorso de não termos compreendido como devíamos o holocausto dessa pessoa amada.

Então desviamos para os nossos filhos tudo aquilo que não demos às nossas mães, renegando-nos a nós próprias e oferecendo um novo exemplo de mortificação, de aniquilamento. E se um belo dia a cadeia fatal se quebrasse, e houvesse uma mãe que não suprimisse em si a mulher, e um filho que aprendesse através do exemplo da sua vida o que é a dignidade? 

Então, as pessoas começariam a compreender que o dever dos progenitores começa muito antes do nascimento dos filhos, e que a sua responsabilidade vem de trás precisamente quando é mais imperioso, mais sedutor viver só para si. Quando o casal humano tivesse a humilde certeza de possuir todos os elementos necessários à criação de um novo ser íntegro, forte, digno de viver, nesse momento, se alguém tivesse de ficar em dúvida, não seria o filho?”



in ”Uma Mulher” -1983



terça-feira, 11 de setembro de 2018

TEIXEIRA DE PASCOAES - Tristeza



TEIXEIRA DE PASCOAES 
(Amarante, Portugal, 1877 - 1952)
Poeta, escritor

***
Estreou-se com a colectânea de versos Embriões, 1895. Em 1910, com Leonardo Coimbra e Jaime Cortesão, entre outros, fundou a revista Águia que lançou o movimento cultural da Renascença Portuguesa. Foi o mentor do saudosismo, por ele erguido a traço definidor da alma nacional. Pelo vulcanismo intermitente do seu lirismo cósmico e pela profundidade das suas intuições angustiantes, servidas por uma inesgotável imaginação, é um dos vultos mais significativos de toda a literatura portuguesa.


in “Portugal Século XX”
***

Tristeza

O sol do Outono, as folhas a cair,
A minha voz baixinho soluçando,
Os meus olhos, em lágrimas, beijando
A mística paisagem a sorrir…

Assim a minha vida transitando
Vai, à tona da terra… E fico a ouvir
Silêncios do outro mundo e o ressurgir
De mortos que me foram sepultando…

E fico mudo, estático, parado
E quase sem sentidos, mergulhado
Na minha viva e funda intimidade…

A mais longínqua estrela em mim actua…
Inunda-me de mágoa a luz da lua,
E sou eu mesmo o corpo da saudade.



segunda-feira, 10 de setembro de 2018

FIAMA HASSE PAIS BRANDÃO – Na Rua das Mónicas (poema para Sofia de Melo Breyner Andresen)



FIAMA HASSE PAIS BRANDÃO
(Lisboa, Portugal, 1938 - 2007)
Poetisa, dramaturga, tradutora

***
Na Rua das Mónicas

Nos meus vinte anos,
almoçar em casa de Sofia
era ouvir ferver em cachão, frigir
na cozinha, arfar a cafeteira da poesia.
Era ver a ama de Sofia,
e de todos os filhos, de muitos versos,
cuidar de muitas gerações de memórias,
no lar desses versos tão caseiros.
E era beber, ali, na mesa, uma água
que, mais do que a da torneira,
concitou o mar para cada copo.
Era olhar um rosto de coral
(o que exorciza as Fúrias, na cozinha)
um rosto de mar novo, de geografia.
Era escutar as palavras da boca
Do vocábulo grego para a sabedoria,
o que me confirma o poder dos nomes,
ao serem Verbo, sobre os seres e as coisas.
Era sentar-me, lado a lado,
no espaço irradiante da volúvel lareira,
no Outono apagada, na Primavera acesa,
e com o fogaréu alimentado
por papéis venais de outra política
(que não a da sua humanidade),
que a prudência mandava destruir no fogo.
Era entrar e sair pela porta das Mónicas,
e das mulheres congregadas
sob invocação da mãe de Agostinho,
o que para mim celebrava também
o amor de mãe, da velha ama, da Poesia.





domingo, 9 de setembro de 2018

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE – Capítulo do Gênesis



CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
(Itabira, Brasil, 1902 - Rio de Janeiro, 1987)
Poeta

***
Capítulo do Gênesis

1.  E o Senhor, vendo que os homens não melhoravam,
antes se tornavam piores, decidiu mandar-lhes uma chuva de advertência; e com isso lhes manifestava seu enfado, e que outro dilúvio não estaria fora de suas cogitações.
2. E a chuva começou a cair, a princípio alegre com seu destino de chuva; insistente, depois, e zangada, fazendo aluir a morada dos homens.
3.  E os caminhos se encheram de lama, e na lama passavam cadáveres de criancinhas com suas bonecas; e também boiavam corpos de velhos e de moços na fluorescência do amor.
4.  E as águas cumpriram seu serviço e se retiraram ao cabo de um dia; e quedou sobre a terra uma dor feita de mil dores.
5.  Nisso vieram os sábios da cidade e puseram-se a fazer a exegese da catástrofe; e concluíram que todo mal provinha de certas povoações altaneiras, desligadas do corpo social, a que se dava o nome de favelas.
6.  As quais dependuradas na crista e no declive dos morros, vertiam sobre a cidade, com algumas notas de música, seus detritos e sua miséria, travando o escoamento das águas.
7.  E individualmente se chamavam Querosene, Escondidinho, Pasmado, Pretos Forros, Cabrito, Vintém, Cantagalo, Curral das Éguas, Nheco, Borel, Esqueleto, Catacumba e apelativos que tais.
8.  E mereciam ser destruídas pelo que se escolheu a Favela da Catacumba, de nome exemplar, para ser arrasada primeiro que as outras, e das outras a hora soaria a seu tempo.
9.  E milicianos, na calada da noite, subiram até lá e arrasaram-na, ateando fogo aos escombros e os sábios se persuadiram de que haviam acabado com a causa primeira da enchente.
10.   Embora não houvessem acabado com a causa maior das favelas; e os favelados foram recolhidos a uma casa de boa vontade, enquanto seus pertences tomavam rumo de uma praça de jogos, Maracaná chamada.
11.   E havendo entre esses alguns tamboretes e cadeiras, bem podiam ser aproveitados para assento de amadores das grandes justas e atletas, que eram a glória da cidade.
12.   E reinou sobre o morro um silêncio catacumbal, que nem a voz de um papagaio bicava.
13.   E seus amigos moradores, depois de alguns dias na casa de asilo, subiram a outro morro ainda virgem e lá plantaram seus fogos e entoam sua música.
14.   E outra vez choverá o aborrecimento de Deus, e eles serão responsabilizados, expulsos, apartados de seus bens, e descobrirão novos terrenos de cume, de onde voltarão a ser tangidos.
15.   E milicianos em número crescente desalojarão ainda mais numerosos catacumbeiros.
16.   A menos que o Senhor, em sua ira, se lembre de consumar a ameaça e promova a magna chuva final.
17.   Da qual ninguém escapará; e depois dessa ninguém será acusado e molestado por ninguém.
18.   A menos ainda que, a poder de palavras e subtis manobras, os sábios consigam desviar a atenção do Senhor para outros mundos ainda mais errados que este.




sábado, 8 de setembro de 2018

YIANNIS RITSOS - Coisas simples e incompreensíveis



YIANNIS RITSOS
(Grécia, 1909 - 1990)
Poeta, dramaturgo, tradutor

***
O seu livro Epitáfios foi queimado publicamente pela ditadura de Ioannis Metaxas. Em 1948, com o início de outra ditadura militar na Grécia, Yiannis Ritsos é preso, passando pelos campos de Limnos e o terrível Makronisos, onde escreve seus Diários do Exílio.

Em 1967, é preso novamente, desta vez pelo regime da Junta Militar de George Papadopoulos e Nikolaos Makarezos, e enviado para o campo de Gyaros. É proibido de publicar até 1972.

Está entre os grandes poetas gregos modernos, ao lado de Konstantinos Kavafis, Kostas Kariotakis, Giorgos Seferis e Odysseus Elytis.

Recebeu o “Prémio Lenin da Paz”

in “Escritas” - Ricardo Domeneck

 ***

Coisas simples e incompreensíveis

Nada de novo — repete ele. Os homens matam-se ou morrem,
sobretudo
envelhecem, envelhecem, envelhecem — os dentes,
os cabelos, as mãos, os espelhos.
Aquele vidro do candeeiro, quebrado — foi consertado com um jornal.
E o pior de tudo: quando aprendes que algo vale a pena, já passou.
Então se faz uma grande serenidade. Chega o verão. As árvores
são altas e verdes — muito provocantes. As cigarras cantam.
À tardinha, as montanhas azulecem. Lá de cima descem
homens obscuros. Coxeiam ladeira abaixo (fingem que coxeiam).
Lançam cães mortos ao rio, e depois, muito tristes e como
que irritados
dobram os sacos de linho, coçam os testículos e olham a lua
na água. Somente essa coisa inexplicável:
fingirem-se de coxos, sem que ninguém esteja a vê-los.



MALMEQUER

MALMEQUER Português, ó malmequer Em que terra foste semeado? Português, ó malmequer Cada vez andas mais desfolhado Ma...