domingo, 19 de fevereiro de 2017

CARLOS HARRINGTON - “O Bocage do Fado”




CARLOS HARRINGTON
(Lisboa, Portugal, 1870 – 1916)

Cantador e poeta espontâneo

Boémio impenitente, que passou a sua curta vida em continuada estúrdia foi também figura de destaque no processo da evolução do fado.
Dotado de um poder de improvisação e de um sentido de oportunidade raros, a sua veia poética permitia-lhe glosar quaisquer motes com extrema facilidade, produzindo uma torrente de décimas, motivo pelo qual foi conhecido por o “Bocage do Fado”.

Cantando num estilo sentimental a sua poesia recheada de conceitos, Carlos Harrington foi, além de cantador e poeta espontâneo, um homem de alma nobre e enternecida, que teve como inseparável companheira uma cadelinha (a Pérola). 

Desapareceu prematuramente do número dos vivos, com 46 anos, ou não tivesse ele presidido ao “Grupo dos Desgraçados” de que foi secretário outro boémio incorrigível, Augusto Bastos. Reunia-se esse grupo de amigos da vida airada numa casa de pasto de um tal António Ribas, conhecida por a Desgraça devido a estar situada num prédio das Escadinhas da Rua de Santa Justa, esquina da Rua da Madalena, que fora pasto de um pavoroso incêndio, e também por causa da sua pouca clientela. 

O “Grupo dos Desgraçados” realizando ali aos sábados suculentas jantaradas de cabrito assado e de belas galinhas do campo, conseguia ir mantendo aberta a casa, onde após as comedorias e com o sentimentalismo exacerbado pelas libações, o bom Carlos Harrington dava o lamiré para a função, com a sua frase sacramental: “Vou pregar o meu sermão!”. 
A partir daí as cantigas sucediam-se na sua voz melancólica, escutadas com enlevo pelos companheiros. 

E a rapiocada não terminava às vezes ali: alta madrugada, iam todos para a Floresta, a adega que ficava ao lado do também desaparecido Café Martinho, vizinha do Teatro Nacional de D. Maria II e lá continuava a cantoria até ao romper do dia.

Frequentador assíduo do Águia Roxa, da Estrada de Sacavém, Carlos Harrington participou na festa de homenagem a D. João da Câmara, realizada nesse retiro a propósito da 15.ª representação do drama Alcácer- Quibir daquele dramaturgo. Nessa festa, como aliás noutras ocasiões, acompanhando-se à guitarra, improvisou com mote de Henrique Lopes de Mendonça:

Se foi Alcácer-Quibir
A perda da nossa glória,
Tal nome hoje representa
A mais completa vitória.
              
                I

Se um poeta é uma estrela
E a poesia um firmamento,
De D. João o talento
Compõe a estrela mais bela.
Inspirou-me a luz singela
Dessa lira e o seu sentir,
Mas não posso definir
Qual tomei como pretexto,
Se foi D. Afonso sexto
Se foi Alcácer-Quibir.

             II

Em versos cadenciosos
E de sublime primor
Burila o grande escritor
Um dos fastos lutuosos.
Matizam tão bem a História
Que na chaga da memória
Vertem bálsamo e prazer
Fazendo mesmo esquecer
A perda da nossa glória.

              III

Mas de que podem servir
Cantos feitos num momento
Saudando o fino talento,
Cantor de Alcácer- Quibir!
É dessa estrela a luzir
Que a minha canção alenta,
E com voz bem rouca e lenta
Eu direi com alegria,
Tudo o que há em poesia
Tal nome hoje representa

             IV

Dos notáveis escritores
O seu nome é decantado
Tendo o caminho alfombrado
De frescas e belas flores.
Eu, um dos admiradores,
Ergo um brinde à pura glória
Desse que cantou a História
Com vigor e singeleza,
É da musa portuguesa
A mais completa vitória



in “Lisboa, o Fado e os Fadistas” de Eduardo Sucena
Imagem: Cartaz do Ciclo “A Cantar e a Contar”, inserido na programação “Há Fado no Cais”, produzido pelo CCB.


1 comentário:

  1. Bom dia colega em oficio, José Eduardo Taveira!!!
    Meus aplausos pelo seu comentário sobre o CARLOS HARRINGTON - “O Bocage do Fado... Apreciei muito o seu Blog!

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