segunda-feira, 14 de abril de 2014

Cancioneiro Popular – (VIII)

 
 
 

 
Trabalhadores do Mar

 
 
Às dez horas parte o barco,

Às onze horas larga a vela;

Ao meio dia em ponto

Parte o meu amor da terra.

 

As ondas do mar são verdes,

As do meio amarelas;

Coitadinho de quem nasce

Para andar no meio delas!

 

As ondas do mar são verdes,

Por dentro são amarelas;

Coitado do meu amor

Que navega dentro delas!

 

Eu cá vou pelo mar dentro,

Já não vejo minha terra,

Só vejo o mar e vento

E a auga que me leva

 

Eu corri o mar à roda,

Com uma vela branca acesa;

No mar não achei fundura,

Em vós não achei firmeza!

 

Eu corri o mar à roda,

Nas asas dumas formigas;

Já perdi o tacto à terra,

E a amizade às raparigas.

 

Ó mar bravo, ó mar bravo,

Que assim andas furioso!

Se tu, mar, foras casado,

Serias mais amoroso!

 

Ó mar, colchão dos navios,

Ó cama dos marinhêros,

Ó navio que me levaste

Os mês amores verdadêros.

 

 

Cancioneiro Popular Português de J. Leite de Vasconcellos

 

 

 

domingo, 13 de abril de 2014

Armando Silva Carvalho

 

Armando Silva Carvalho nasceu em 1938, em Olho Marinho, Óbidos, Portugal.

É poeta, tradutor, romancista, jornalista, advogado, professor, crítico literário, publicitário.

Em 1965, publicou o primeiro livro de poesia intitulado “Lírica Consumível”.

Algumas das suas obras: "Os Ovos de Oiro"; "Armas Brancas"; "Técnicas de Engate"; "Sentimento de um Acidental", " Alexandre Bissexto", "Canis Dei"; “O Amante Japonês”; “Lisboas”; “O Homem que Sabia a Mar”; “A Vingança de Maria de Noronha”.

Os seus livros estão traduzidos em diversos idiomas, incluindo o russo, letão e neerlandês.

Participou  na antologia “IV Líricas Portuguesas”, organizada pelo poeta António Ramos Rosa e integrou o grupo que organizou a “Antologia de Poesia Universitária”, no qual faziam parte, entre outros, os poetas Fiama Hasse Pais Brandão, Ruy Belo, Luiza Neto Jorge.

Recebeu o “Premio Revelação” da Sociedade Portuguesa de Autores; o “Prémio de Poesia Luís Miguel Nava” ; o “Prémio de Poesia Teixeira de Pascoaes” (7ª edição); “Prémio Pen Clube”; “Prémio Fernando Namora”.

Foi o vencedor do “Grande Prémio de Poesia 2008”, da Associação Portuguesa de Escritores.

 

 
 
Palavras de Armando Silva Carvalho:

“As rimas são o meu fraco, e também a facilidade nas aliterações. Se não me tivessem mandado estudar, provavelmente devia ter ficado poeta popular, de rima certa, e redondilha a saltar da ponta do lápis.”

 

 
 
Abandono-te todas as noites

 

 
Abandono-te todas as noites,
Troco-te pelos outros,
Por mim
Ou pelo simples sono que sempre me enganou

Desde criança.

Deixo-te ficar tantas vezes à luz duma velha lua
De queixo retorcido e rainha das bruxas
E em lugares frequentados por cães que defecam
Com o mudo amor dos donos
Sigilosamente
À trela.
 
Não devias esperar.
Este amor não é feito de sangue, a minha alma não anda
nessa rua deserta,
Nem vai, pé ante pé, contemplar o teu rosto,
Deitar-se em seguida sobre o teu corpo gelado
E limpar-te os olhos do frio

De uma madrugada
Impúdica.




Armando  Silva Carvalho, in “O Amante Japonês”


sábado, 12 de abril de 2014

Conversa Galante

 
 

           
                      Conversa Galante

Observo: “Nossa sentimental amiga, a Lua!
Ou talvez (é fantástico, admito)
Seja o balão do Preste João que agora fito
Ou uma velha e baça lanterna suspensa no ar
Alumiando pobres viajantes rumo a seu pesar.”
E ela: “Como divagais!”

Eu, então: “Alguém modula no teclado
Esse noturno raro, com que explicamos
A noite e o luar; partitura que roubamos
Para dar forma ao nossa nada.”
E ela: “Me dirá isso respeito?”
“Oh, não! Eu é que de vazios sou apenas feito.”

“Vós, senhora, sois a perene ironia,
A eterna inimiga do absoluto,
A que mais de leve torce nossa tristeza erradia!
Com vosso ar indiferente e resoluto,
De um golpe cortais à nossa louca poética os seus mistérios…”
E ela: “Seremos afinal assim tão sérios?”

T. S. Eliot
Tradução: Ivan Junqueira

 

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Du Fu

 
 

Du Fu (712-770 d.C.) nasceu em Gongyi City, Província de Henan, na China.
Poeta da dinastia Tang é considerado como o maior da China; é, desde sempre, o poeta mais venerado dos chineses.

Os quase 300 anos de existência da dinastia Tang foram o auge da cultura clássica chinesa, caracterizada por uma vida social e intelectual, esteticamente sofisticada.

Durante esse período, 2200 autores escreveram cerca de 50 mil poemas, que estão incluídos na “Antologia da Poesia Chinesa – Dinastia Tang”.

É galardoado, pelas gerações posteriores, com o título honorífico de “Sábio da Poesia”.

Escreveu mais de 1400 poemas. Os seus versos caracterizam-se por um profundo sentimento de humanidade. 

A sua antiga residência, a “Cabana de Du Fu”, em Chengdu, está preservada e é um lugar para as pessoas visitarem e reverenciarem o poeta.

 

Palavras de Du Fu:
“Uma pétala que cai, encurta um pouco a beleza..."

 

   Ao luar

Esta noite, a lua
no céu de Fuzhou.
Sozinha, minha mulher
a contemplá-la.
Eu penso
nas crianças,
pequenas demais para compreender
a saudade que sentem.
Uma bruma perfumada
molha seus cabelos.
Os raios pálidos e frios
refletem-se em seus braços
de branco jade.
Quando poderemos nos apoiar
no rebordo
da mesma janela?
Quando vão secar
as marcas de nossas lágrimas?

 

Du Fu
Tradução: Sérgio Capparelli

 

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Este Poema é Absolutamente Desnecessário

 
 
 
 
 

Este Poema é Absolutamente Desnecessário

 

Este poema é absolutamente desnecessário
pela simples razão de que poderia nunca ser escrito
e ninguém sentiria a sua falta.
Esta é a sua liberdade negativa a sua vacuidade dinâmica
e o movimento da sua abolição
a partir do seu vazio inicial.
Mas qual é a sua matéria qual o seu horizonte?
Traçará ele uma linha em torno da sua nulidade
e fechar-se-á como uma concha de cabelos ou como um       
útero do nada?

 
Ou será a possibilidade extrema de uma presença inesperada
que surgiria quando chegasse a essa fronteira branca
que já não separaria o ser do nada e no seu esplendor absoluto
revelaria a integridade do ser antes de todas as imagens
a sua violência inaugural a sua volúvel gestação?

 

António Ramos Rosa , in “Deambulações Oblíquas”.
Ilustração: Pintura  de Anna Kostenko, nascida em Kiev, Ucrânia.


quarta-feira, 9 de abril de 2014

Casimiro de Brito

 
 
 

Casimiro de Brito nasceu em Loulé, Algarve, Portugal, no dia 14 de Fevereiro de 1938.

 É poeta, ensaísta, romancista, contista e tradutor. 

 Publicou o primeiro livro de poemas, em 1958, intitulado “Poemas da Solidão Imperfeita”.

Pertenceu ao movimento “Poesia 61”.

 Foi director de várias revistas literárias.

A sua obra é constituída por mais de 40 livros, e está traduzida em 24 línguas, tendo muitos dos seus poemas incluídos em antologias estrangeiras.

Casimiro de Brito ganhou vários prémios literários nacionais e internacionais de grande prestígio.

Foi agraciado com a “Ordem do Infante D. Henrique”.
 
A Academia Brasileira de Filologia, do Rio de Janeiro, Brasil, distingui-o com a  medalha “Oskar Nobiling”, pelos serviços prestados no campo da literatura.

 

 

 
Palavras de Casimiro de Brito:

"Onde não posso deixar de ser metódico é na dúvida."




        O Poema

Poemas, sim, mas de fogo
devorador. Redondos como punhos
diante do perigo. Barcos decididos
na tempestade. Cruéis. Mas de uma
crueldade pura: a do nascimento,
a do sono, a da morte.

Poemas, sim, mas rebeldes.
Inteiros como se de água, e,
como ela, abertos à geometria
de todos os corpos. Inteiros
apesar do barro e da ternura
do seu perfil de astros.

Poemas, sim, mas de sangue.
Que esses poemas brotem
do oculto. Que libertem o seu pus
na praça pública. Altos, vibrantes
como um sismo, um exorcismo
ou a morte de um filho.


Casimiro de Brito, in “Jardins de Guerra”

terça-feira, 8 de abril de 2014

Jorge Wanderley

 
 

 
Jorge Wanderley (1938-1999) nasceu no Recife, Pernambuco, Brasil.

Foi poeta, tradutor, crítico literário, professor e médico.

Com 16 anos de idade, escreveu o primeiro livro de poesia, intitulado: “Gesta e Outros Poemas”.

Publicou crónicas e ensaios literários em diversos jornais e revistas.

Colaborou, como editor adjunto, na revista “Poesia Sempre”, da Biblioteca Nacional Brasileira.

Outros livros de sua autoria: “Coração à Parte”; “Manias de Agora”; “Agente Infiltrado”; “Antologia Poética”.

Jorge Wanderley foi admirado e considerado como um talentoso tradutor de poesia. Traduziu, entre outros: Dante, Shakespeare e Valéry.

Foi galardoado, postumamente, com o “Prémio Jabuti de Tradução Literária”, pela sua tradução do “Inferno”.

 

 
Palavras de Jorge Wanderley:
“Eu diria até que o Hamlet, dramaturgicamente, é um pequeno desastre. E no entanto é uma obra-prima.”


                               
           Na Véspera


Porque o cansaço tem ruas de sono
Conseguirás agora adormecer.
Tudo anda mal nas coisas que abandonas;
Em solo ingrato a noite vai descer.
Que traga a paz imensa que ambicionas,
Sem sonho algum; para não conceber
Meias-vidas sem rumo onde és o dono
Do que não queres, de insano poder.
Que a lida agora interrompida, amarga,
Possa passar a um outro espaço-tempo,
E volte nova dos frios astrais.
Que esqueça longo o peso, a dor, a carga,
O mal que te contempla e que contemplas.

Se assim não, que não acordes mais.

Jorge Wanderley


MALMEQUER

MALMEQUER Português, ó malmequer Em que terra foste semeado? Português, ó malmequer Cada vez andas mais desfolhado Ma...