segunda-feira, 7 de setembro de 2015

RUBEN A. - Vivemos para os momentos Futuros, e não o Presente

 
 
 
 
 

Ruben A. (Lisboa, Portugal, 1920 – Londres, Reino Unido, 1975).

Professor, romancista, dramaturgo e historiador foi autor de diversas narrativas de cunho memorialista.

 
Palavras de Ruben A.:
“Amor é a possibilidade de duas pessoas não se aborrecerem uma à outra.”

 

Vivemos para os momentos Futuros, e não o Presente

 

A ânsia de matar tempo, de liquidar o espaço de dias entre um acontecimento e o que lhe sucede, transmite, tanto em casos de amor como em outros, fins importantes, um estado de alma que se preocupa exclusivamente em atingir esse alvo previamente estabelecido.
Não se pensa em mais nada. Semelhante à situação criada quando se sabe de antemão que se vai encontrar determinada pessoa que nos interessa muito.
Fica-se incapaz de articular palavra, de estreitar vínculo com quem quer que seja que se nos atravesse no caminho. Está-se a viver em outrem, num estado fora da relação humana do dia-a-dia.
Nem sequer ouvimos os sons, arrepiamos a pele ao tomar conhecimento consciente de notícias que já sabíamos de antemão pertencerem ao domínio público.
Esta é também a ânsia do suicida que nada mais faz entre a decisão de cometer o homicídio e a prática do acto extremo.

 

 
Ruben A., in "O Mundo À Minha Procura I"

Imagem: pintura de Almada Negreiros (São Tomé e Príncipe, 1893 – Lisboa, Portugal, 1970).

 

 

 
 

domingo, 6 de setembro de 2015

JEAN-GEORGE NOVERRE - Coreógrafo e bailarino

 
 
 
 
 
 

Jean - George Noverre (Paris, França, 1727 – Saint-Germain-en-Laye, França, 1810).

 
Os estudiosos consideram-no o maior coreógrafo do seu tempo e um dos mais importantes nomes mundiais da dança.

Foi um constante lutador contra o marasmo oficial e as interferências retrógradas na dança.

Publicou, em 1760, Lettres sur la danse et sur les ballets, um tratado no qual defende uma nova forma de dança, construindo uma obra coreográfica baseada numa história dramática. 

Contribuiu, também, para que a dança fosse definitivamente para os teatros.

Em 1776 foi nomeado mestre de ballet na Ópera de Paris.

O Dia Mundial da Dança celebra-se todos os anos a 29 de Abril, dia de nascimento de Jean-Georges Noverre.

 

 
Palavras de Jean- George Noverre:

 
Nem todo mundo tem gosto; só a natureza o provê. Pela educação pode-se apenas refiná-lo e aperfeiçoá-lo. Qualquer regra que se queira estabelecer é inútil, pois ele nasce connosco, manifesta-se por si próprio, e sem ele não passamos de bailarinos medíocres.”

 

 

 

 

 

sábado, 5 de setembro de 2015

ALEXANDER SOLJENITSIN – A Detenção

 
 
 
 
 
 

Alexander Soljenitsin (Kislovodsk, Rússia, 1918 – Moscovo, Rússia, 2008).

As suas obras Arquipélago de Gulag e Um Dia na Vida de Ivan Denissovitch revelaram ao mundo, por experiência própria, a horrorosa realidade dos campos de concentração soviéticos.

Foi galardoado, em 1970, com  o “Prémio Nobel de Literatura".


 
Palavras de Alexander Soljenitsin:

“Nos Gulags, o homem era reduzido a uma caricatura de humanidade - execuções, estupros, tortura, doenças, fome e miséria.”

 

A Detenção

 

Como se chega esse misterioso Arquipélago? A todas as horas para lá voam aviões, navegam barcos e marcham comboios, sem que neles se veja uma só inscrição que indique o lugar de destino.

Os empregados das bilheteiras e os agentes da Sovturista e da Inturista ficarão surpreendidos se você lhes pedir uma passagem para lá. Nem do Arquipélago, no seu conjunto, nem de nenhum dos seus incontáveis ilhéus eles têm conhecimento, ou ouviram sequer falar.

Aqueles que vão dirigir o Arquipélago chegam lá por intermédio da Escola do Ministério do Interior.

Aqueles que vão ser guardas no Arquipélago são convocados por intermédio de secções militares.

Aqueles que vão lá morrer, como você e eu, leitor, esses devem passar infalível e exclusivamente através da detenção.

Detenção!!! Será necessário dizer que isso representa uma viragem brusca em toda a sus vida? Que é como a queda a pique de um corisco sobre a sua cabeça? Que é uma comoção espiritual insuportável, a que nem todas as pessoas podem adaptar-se, e que frequentemente leva à loucura?

O universo tem tantos centros quantos os seres vivos que nele existem.

Cada um de nós é o centro do mundo e do universo, e ele desmorona-se quando alguém nos sussurra ao ouvido: «Estás preso!»

Se você já está preso, acaso algo resistiu ainda a esse terramoto?

Incapazes, com o cérebro ofuscado, de abarcar esses abalos do universo, os mais subtis, bem como os mais simples dentre nós, não conseguem extrair nesse instante, de toda a sua experiência de vida, senão isto a dizer mais ou menos:

- Eu??? Porquê???

Pergunta repetida milhões e milhões de vezes antes de nós, e

que nunca obteve resposta.

                                                                             

 

Alexander Soljenitsin, inArquipélago de Gulag”.

 

 

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

PRÉMIO CAMÕES – 2013

 
 





Mia Couto (Beira, Moçambique, 1955).

É, actualmente, o autor moçambicano mais traduzido e divulgado no estrangeiro.
Tem uma obra literária extensa e diversificada, incluíndo poesia, contos, romance e crónicas.

Instituído pelos governos português e brasileiro em 1988, o “Prémio Camões” distingue, anualmente, um autor que, pelo conjunto da sua obra, tenha contribuído para o enriquecimento do património literário e cultural da língua portuguesa.

 

Palavras de Mia Couto:

“A nossa língua comum foi construída por laços antigos, tão antigos que por vezes lhes perdemos o rastro.”
 
     
         Saudade


Magoa-me a saudade
do sobressalto dos corpos
ferindo-se de ternura
dói-me a distante lembrança
do teu vestido
caindo aos nossos pés
 


Magoa-me a saudade
do tempo em que te habitava
como o sal ocupa o mar
como a luz recolhendo-se
nas pupilas desatentas

 

Seja eu de novo tua sombra, teu desejo
tua noite sem remédio
tua virtude, tua carência
eu
que longe de ti sou fraco
eu
que já fui água, seiva vegetal
sou agora gota trémula, raiz exposta

 

Traz
de novo, meu amor,
a transparência da água
dá ocupação à minha ternura vadia
mergulha os teus dedos
no feitiço do meu peito
e espanta na gruta funda de mim
os animais que atormentam o meu sono

 

Mia Couto, in “Raiz de Orvalho”

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

CONTOS TRADICIONAIS DO POVO PORTUGUÊS – A rosa branca na boca

 
 
 
 

A rosa branca na boca

 

Um homem muito abastado veio a cair em pobreza pelos seus desvarios; como tinha dado uma boa educação ao filho, este sabia tocar muitos instrumentos e para ganhar a sua vida foi por esse mundo além.

Chegou a uma terra e parou diante de um palácio onde se estavam tocando peças de música muito lindas. Deixou-se ali ficar sem comer nem beber. O dono do palácio vendo aquele homem parado na rua, perguntou-lhe o que queria. Ele disse que também gostava muito de música; o homem mandou-o entrar para ver se ele também sabia tocar.

Assim foi, tocou e desbancou todos os outros músicos. O homem admirado, despediu todos os músicos, e disse ao rapaz que ficasse com ele, para o ouvir tocar sempre.

Os outros músicos desesperados só queriam apanhar o rapaz para o matarem; mas o velho assim que soube disto protegia o rapaz, acompanhava-o sempre, e queria deixar-lhe tudo como se fosse seu filho.

Na corte correu a fama do tocador, e o rei pediu ao fidalgo para lhe levar o rapaz e deixá-lo no paço alguns dias. Lá lhe custou isso, mas não podia dizer que não ao rei. O rapaz espantou todos nas festas do palácio, porque tocava muito bem.

Uma noite que estava recolhido, sentiu entrarem-lhe na câmara e meter-se na cama com ele uma dama; quis saber quem era, acendeu uma luz, mas ela trazia uma máscara. Enquanto se demorou no paço, todas as noites ia a dama ter com ele.

O rapaz insistiu para que lhe dissesse quem era. Ela respondeu:

Não te posso dizer quem sou! Amanhã ao entrar para a missa, hás- de me ver com uma rosa branca na boca.

O rapaz foi dizer tudo ao fidalgo que já o tratava como filho; mas o fidalgo lembrando-se do ódio dos músicos, quis acompanhá-lo, não fosse alguma traição.

 

Pôs-se ele à porta da igreja, entraram todas as damas, e só quando veio a rainha é que ao lado dela viu a condessa que a acompanhava, e que todos tinham na corte por muito virtuosa, com a rosa branca na boca.

 

Assim que viu o rapaz em companhia do fidalgo botou a rosa ao chão e amachucou-a com os pés. O rapaz chegou-se próximo da condessa para saber o motivo daquela zanga. Ela disse-lhe que a tinha atraiçoado, dizendo tudo ao fidalgo. Perguntou-lhe ele o que era preciso que fizesse para tornar a alcançar o seu amor.

 

Disse a condessa que só matando o fidalgo que lhe servira de pai. Ele na sua cegueira assim fez. O rei quando soube deste crime, achou-o tão atroz que deu ordem logo para que o enforcassem.

 

Então a condessa foi contar tudo ao rei, e confessou-se culpada, dizendo que o rapaz estava inocente, e que o que fizera era pela paixão do amor. Então o rei perdoou-lhe:

 

Já que a condessa fez a sua desgraça, case agora com ele para o fazer feliz.

 

 
Teófilo Braga, in “Contos Tradicionais do Povo Português”
Imagem: pintura de Amadeo de Souza-Cardoso (Amarante, Portugal, 1887 – Espinho, Portugal, 1918).

 

 

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

OLAVO BILAC – A Bocage

 
 



Olavo Bilac (Rio de Janeiro, Brasil, 1865 – 1918).
É um dos mais notáveis poetas brasileiros do período literário parnasiano.

 
Palavras de Olavo Bilac:

Já repararam como se queixam de falta de tempo as pessoas que nada fazem?”

 
                   A Bocage

Tu, que no pego impuro das orgias
Mergulhavas ansioso e descontente,
E, quando à tona vinhas de repente,
Cheias as mãos de pérolas trazias;

Tu, que do amor e pelo amor vivias,
E que, como de límpida nascente,
Dos lábios e dos olhos a torrente
Dos versos e das lágrimas vertias;

Mestre querido! Viverás, enquanto
Houver quem pulse o mágico instrumento,
E preze a língua que prezavas tanto:

E enquanto houver num canto do universo
Quem ame e sofra, e amor e sofrimento
Saiba, chorando, traduzir no verso.

 

Olavo Bilac, in” Via- Láctea(poema XXV).

Imagem: pintura de Tóssan (Vila Real de Santo António, Algarve, Portugal, 1918 – Lisboa, Portugal, 1991).

 

 


terça-feira, 1 de setembro de 2015

POR QUE OS PORTUGUESES SÃO ASSIM?

 
 




Por que os Portugueses são assim?

Agustina Bessa-Luís:
"Dizem mal de tudo com uma insinceridade genial. Os Portugueses são a gente mais insincera que há. Por isso são raramente grandes artistas."

Florbela Espanca:
"O costume português é deixar-se tudo em palavras mas palavras que são bolas de sabão deitadas ao ar para distrair pequeninos de seis anos.”

Miguel Torga:
"É espantosa a tendência do Português para a promiscuidade! Chega a umas termas, senta-se, volta-se para o vizinho da direita e, sem dizer água-vai, conta-lhe a vida.”

António Lobo Antunes:
"Eu gosto desta terra. Nós somos feios, pequenos, estúpidos, mas eu gosto disto."

Teixeira de Pascoaes:
"O Português é indeciso e inquieto, como as nuvens em que as suas montanhas se continuam e as ondas em que as suas campinas se prolongam.”

Vergílio Ferreira:
“Frente a uma situação difícil, o Português opta pela espera de um milagre ou pela descompressão de uma anedota. O grave disto é que o milagre não vem e a anedota descomprime de tudo. Ficamos assim à mercê do azar e nem restos de razão para mexer um dedo.”

 
Fernando Pessoa:
"É claro que o português, com a sua tendência para ser tudo, forçosamente havia de ser nada de todas as maneiras possíveis."

 
Padre António Vieira:
"Nós (Portugueses) temos a nossa desunião, a nossa inveja, a nossa presunção, o nosso descuido e a nossa perpétua atenção ao particular."

 

Imagem: pintura de Bruno Netto (Lisboa, Portugal).

MALMEQUER

MALMEQUER Português, ó malmequer Em que terra foste semeado? Português, ó malmequer Cada vez andas mais desfolhado Ma...