sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Crepúsculo

 

 
         Crepúsculo

 
É quando um espelho, no quarto,
se enfastia;
Quando a noite se destaca
da cortina;
Quando a carne tem o travo
da saliva,
e a saliva sabe a carne
dissolvida;
Quando a força de vontade
ressuscita;
Quando o pé sobre o sapato
se equilibra...
E quando às sete da tarde
morre o dia
- que dentro de nossas almas
se ilumina,
com luz lívida, a palavra
despedida.
 
David Mourão Ferreira

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

António Sardinha

 

António Sardinha (1887-1925) nasceu em Monforte, Alentejo, Portugal.

Licenciou-se na Faculdade de Direito de Coimbra.

Foi poeta, historiador, ensaísta e político.

Em 1914, fundou a revista “Nação Portuguesa”, que viria a dar origem ao integralismo lusitano, do qual foi precursor.

Dirigiu o jornal diário “A Monarquia”, que defendia o nacionalismo monárquico.

Devido à derrota do movimento da Monarquia do Norte, António Sardinha exilou-se em Espanha.

Algumas das suas obras poéticas: “Tronco Reverdecido”; “Epopeia da Planície”; “Quando as Nascentes Despertam”; “Chuva da Tarde”; “Era uma vez um Menino”; “O Roubo da Europa”.


 
Palavras de António Sardinha:
Esta Elvas! “Esta Elvas!” – Oh, então! Uma lágrima – um silêncio – um suspiro risonho porão Elvas inteira e viva à nossa frente evocada em Amor como num sonho.”

 
         Deus na Planície

 
O espírito de Deus flutua e erra
por todo este côncavo profundo.
Assim errava Ele sobre a terra
quando pensou na criação do Mundo.

 

É noite. Aqui não há mar nem serra.
Há o infinito, o vago. E cá no fundo

minh'alma que se excede e que se aterra,

ó Hálito-Supremo em que eu me inundo!

 
Ó Hálito-Supremo!... É noite escura.

E o Criador no enlevo em que eu me alago
domina e empolga a Sua criatura.

 
Sucumbe em mim o bicho vil da terra

E como no Princípio sobre o vago

O Espírito de Deus flutua e erra.

 

António Sardinha, in “Epopeia da Planície”

 

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Já não se encantarão os meus olhos nos teus olhos

 
 

 
Já não se encantarão os meus olhos nos teus olhos

 

Já não se encantarão os meus olhos nos teus olhos,
já não se adoçará junto a ti a minha dor.


Mas para onde vá levarei o teu olhar
e para onde caminhes levarás a minha dor.

Fui teu, foste minha. O que mais? Juntos fizemos
uma curva na rota por onde o amor passou.

Fui teu, foste minha. Tu serás daquele que te ame,
daquele que corte na tua chácara o que semeei eu.

Vou-me embora. Estou triste: mas sempre estou triste.
Venho dos teus braços. Não sei para onde vou.

...Do teu coração me diz adeus uma criança.
E eu lhe digo adeus.

 

Pablo Neruda

Ilustração: Anca Sandu


terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Madalena Férin


Madalena Férin (1929-2010) nasceu em Vila Franca do Campo, Ilha de S. Miguel, Açores.

Licenciou-se em Filosofia pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

Poetisa, romancista, ensaísta, contista e tradutora, exprimiu na sua obra a paixão pelos Açores, pelas suas ilhas, pelo seu mar.

Em 1957, publicou o primeiro livro, “Poemas”.

Outras obras editadas: “Meia Noite no Mar”; “A Cidade Vegetal e Outros Poemas”; “Prelúdio para o Dia Perfeito”; “Um Escorpião Coroado de Açucenas”; “O Anjo Fálico”; “O Número dos Vivos”; “África  Annes: o Nome em Vão”.

Publicou artigos na “Revista Ocidente” e na “Revista de Portugal”.
Está representada em diversas antologias poéticas.

Recebeu, duas vezes, o “Prémio Antero de Quental de Poesia”.
 
 
 
                   Mar de oeste

 
Eis que do seu dorso despontaram garras!
No vértice onde se embalavam peixes
nasceram asas,
num anseio de pombas
mortas implumes...

Eis que o líquido e o denso se casaram
formando um monstro: rochedo e cavalo,
serpente e águia,
grilheta e asa!
E num barco de papel navego eu!


Madalena Férin, in “Poemas”
 

 

 

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Rafael Alberti


 
 
Rafael Alberti (1902-1999) nasceu em El Puerto de Santa Maria, Cádis, Espanha.    

 
Foi poeta e pintor. Integrou a “Geração de 27 da literatura espanhola.

 
Em 1925, recebeu o “Prémio Nacional de Literatura”, pelo livro de poemas intitulado, “Marinheiro em Terra”.

 
Após a sangrenta Guerra Civil em Espanha, Alberti mudou-se para Paris. Por motivos políticos, decidiu viajar para o Chile, acompanhado pelo seu amigo Pablo Neruda.

 
Regressou a Espanha em 1977. Recebeu, então, numerosas homenagens, que exaltavam a sua estatura de poeta empenhado na causa da liberdade. Foi, também, agraciado com diversos prémios literários, dos quais se destaca o “Prémio Miguel de Cervantes”.

 
 
Palavras de Rafael Alberti:
“Os poetas de vanguarda quando mais simples são, mais de vanguarda são. E um poeta bêbado nunca pode ser um poeta simples, portanto nunca pode ser um poeta de vanguarda.”
 
 
 
 
Equivocou-se a pomba
 
Equivocou-se a pomba.
Equivocava-se.
Por ir ao norte, foi ao sul.
Acreditou que o trigo era água.
Equivocava-se.

Acreditou que o mar era o céu:
que a noite, a manhã.
Equivocava-se.

Que as estrelas, orvalho;
que o calor; a nevasca.
Equivocava-se.

Que tua saia era tua blusa;
que teu coração, sua casa.
Equivocava-se.

(Ela dormiu na beira
tu, no topo de um ramo).


Rafael Alberti
 
 

 



domingo, 23 de fevereiro de 2014

Marta Mesquita da Câmara


 
Marta Mesquita da Câmara (1895-1980) nasceu no Porto.

Poetisa, jornalista, professora, tradutora e autora de literatura infantil, considerada pela crítica da especialidade, como uma das principais poetisas portuguesas.
 
Em 1924, publicou o seu primeiro livro de poesia, intitulado “Triste”.
Outras obras editadas: “Arco-íris”; “Pó do Teu Caminho”; “Relicário”;“Poemas”; “Poesias Completas”.
 
Colaborou em diversas publicações, tais como, ”Civilização”; “Alerta”; “Modas e Bordados”; “Senhor Doutor”; Mickey”; “ABC”.
 
Pertenceu à direcção da “Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto”.
Em 1967, foi homenageada pela Associação dos Jornalistas do Porto.

 
Alguns escritores fizeram referências elogiosas à poetisa, entre eles Jaime Cortesão, que a considerava, “pela elevação do sentimento e do vigor da forma, a primeira poetisa portuguesa.” 
 
 
          
             A maior mágoa

 

Cá dentro da minh'alma de mulher,
Alma feita de sonho e de incerteza,
Sedenta de afeição e de beleza,
Quantas coisas sonhei p'ra te dizer!...

 
Quantas coisas sonhei p'ra te escrever!...
Jamais mulher alguma, com certeza,
Cantou com tanto amor, tanta tristeza,
O bem que desejou sem nunca o ter!...

 
Porque a chaga mais viva, que mais dói,
Não é saudade do que a vida foi...
Ninguém nos rouba um doce bem vivido.

 
A mágoa do que foi é suportável;
É bem mais funda a mágoa irreparável
Daquilo que pudera, enfim ter sido!...

 

Marta Mesquita da Câmara

 

sábado, 22 de fevereiro de 2014

A Guerra que Aflige com os seus Esquadrões o Mundo

 
 
 
A Guerra que Aflige com os seus Esquadrões o Mundo

A guerra que aflige com os seus esquadrões o Mundo,
É o tipo perfeito do erro da filosofia.

A guerra, como tudo humano, quer alterar.
Mas a guerra, mais do que tudo, quer alterar e alterar muito
E alterar depressa.

Mas a guerra inflige a morte.
E a morte é o desprezo do Universo por nós.
Tendo por consequência a morte, a guerra prova que é falsa.
Sendo falsa, prova que é falso todo o querer alterar.

Deixemos o Universo exterior e os outros homens onde a Natureza os pôs.
Tudo é orgulho e inconsciência.
Tudo é querer mexer-se, fazer coisas, deixar rasto.
Para o coração e o comandante dos esquadrões
Regressa aos bocados o Universo exterior.

A química directa da Natureza
Não deixa lugar vago para o pensamento.

A humanidade é uma revolta de escravos.
A humanidade é um governo usurpado pelo povo.
Existe porque usurpou, mas erra porque usurpar é não ter direito.

Deixai existir o mundo exterior e a humanidade natural!
Paz a todas as coisas pré-humanas, mesmo no homem,
Paz à essência inteiramente exterior do Universo!


Alberto Caeiro, (Heterónimo de Fernando Pessoa) in “Poemas Inconjuntos”
Ilustração: pintura de Pieter Brueghel, o Velho (1525 -1569), “O Triunfo da Morte”.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Albert Schweitzer

 

 
Albert Schweitzer (1875-1965) nasceu na Alsácia, então parte do Império Alemão.

Filósofo, músico, teólogo e médico, foi, além de tudo, um homem de gigantesca estatura humanitária.

Destacou-se como um dos melhores intérpretes de Bach e um especialista na construção de órgãos.

Como médico, dedicou 50 anos da sua vida, no Gabão, em África, cuidando de milhares de pessoas que, sem a sua assistência, teriam morrido.

Construiu um hospital, que ainda hoje continua a servir de recurso primário aos cuidados de saúde dos habitantes da região.

Escreveu, além de outros, os livros “A Busca do Jesus Histórico” e “Reverência pela Vida”.

Em 1952, recebeu o “Prémio Nobel da Paz”, como “humilde homenagem a um grande homem”.

O dinheiro que auferiu do prémio foi utilizado na construção de uma clínica, em Lambaréné (capital do Gabão), destinada a abrigar leprosos.

 
 
Palavras de Albert Schweitzer:

"Quando o homem aprender a respeitar até o menor da criação, seja animal ou vegetal, ninguém precisará ensiná-lo a amar o seu semelhante."

 
A Ingenuidade Ignorante e a Ingenuidade Sábia

Há duas espécies de ingenuidade: uma que ainda não percebeu todos os problemas e ainda não bateu a todas as portas do conhecimento; e outra, de uma espécie mais elevada, que resulta da filosofia que, tendo olhado dentro de todos os problemas e procurado orientação em todas as esferas do conhecimento, chegou à conclusão de que não podemos explicar nada, mas temos de seguir as convicções cujo valor inerente nos fala de maneira irresistível.”

Albert Schweitzer, in “O Cristianismo e as Religiões do Mundo”

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Camilo Castelo Branco

 

Camilo Castelo Branco (1825-1890) nasceu em Lisboa.

Escritor multifacetado, foi romancista, dramaturgo, crítico,  cronista, historiador, poeta, e tradutor.

Durante quarenta anos escreveu quase trezentas obras literárias, deixando um valioso legado de comédias, folhetins, poesias, prefácios, ensaios, traduções e cartas.

Viveu, exclusivamente, do seu trabalho como escritor.   

Colaborou  em diversos jornais e revistas literárias.

Em 1848, publicou o folheto ““Maria! Não me mates que sou tua Mãe” e, três anos depois, editou o primeiro romance intitulado : “Anátema”.

Outras obras do escritor: “O Morgado de Fafe em Lisboa”; “Amor de Perdição”; “A Queda dum Anjo”; “O Retrato de Ricardina”; “A Brasileira de Prazins”.

As adversidades da sua vida provocaram-lhe desânimo e tristeza, considerando que a desgraça estava escrita no seu destino, ao qual não podia fugir. A cegueira agravou esse sentimento.

Camilo Castelo Branco foi um dos escritores mais relevantes da literatura portuguesa do século XIX.


Palavras de Camilo Castelo Branco:
"Amigo é uma palavra profanada pelo uso e barateada a cada hora, como a palavra de honra, que por aí anda desvirtualizando a honra."



     O Anel

Dá-me um anel; mas que seja
Como o anel em que cingida
Tem gemido toda a minha vida.
Dá-me um anel; mas de ferro,
Negro, bem negro, da cor
Desta minha acerba dor,
Deste meu negro desterro!
 
 
Dá-me um anel; mas de ferro...
Sempre comigo hei-de tê-lo;
Há-de ser o negro elo,
Que me prenda à sepultura.
Quero-o negro...seja o estigma,
que decifre o escuro enigma,
Duma grande desventura.
 
 
Dá-me um anel; mas de ferro
Que resista mais que os ossos
Dum cadáver aos destroços
Do roaz verme do pó.
Entre as cinzas alvacentas,
como espólio das tormentas
Apareça o ferro só.
 
 
E o teu nome impresso nele,
Falará dum grande amor,
Nutrido em ânsias de dor,
Pelo fel da sociedade...
Que teu nome nele escrito,
Nesse padrão infinito,
Vá comigo à Eternidade.

Camilo Castelo Branco, in “366 Poemas que Falam de Amor”.
Ilustração: Retrato de Camilo Castelo Branco pelo pintor João Duarte Freitas 
 



quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Real Gabinete Português de Leitura – Rio de Janeiro

 
 


O Real Gabinete Português de Leitura foi fundado em 1837, por um grupo de 43 emigrantes portugueses, 15 anos após a independência do Brasil.

O edifício, construído no estilo neomanuelino, foi projectado pelo arquitecto português Rafael da Silva e Castro. De realçar o maravilhoso salão de leitura, onde se encontra o “Altar da Pátria”, um monumento de mármore, prata e marfim, com 1,70m de altura, que celebra a época dos Descobrimentos.

A fachada, além dos medalhões esculpidos em homenagem aos escritores Gil Vicente, Alexandre Herculano, Almeida Garrett e Fernão Lopes, é ornamentada com as estátuas de Vasco da Gama, Pedro Álvares Cabral, Infante D. Henrique e Luís de Camões.

O 1º presidente da instituição foi José Marcelino Rocha Cabral, advogado e jornalista.

A Biblioteca tem um acervo de mais de 400 mil livros.

Entre as obras mais raras existentes na biblioteca, destacam-se uma primeira edição de “Os Lusíadas” de 1572, que pertenceu à “Companhia de Jesus”; as “Ordenações de D. Manuel”; manuscritos autografados do “Amor de Perdição”, de Camilo Castelo Branco; o “Dicionário  da Língua Tupy”, de Gonçalves Dias e centenas de cartas de escritores.

O Real Gabinete Português de Leitura, localiza-se na Rua Luís de Camões, 30,  Rio de Janeiro, Brasil.

É uma das bibliotecas mais  bonitas do mundo.
 


 
                               Real Gabinete Português de Leitura
 
 
Tem uma extremada beleza
de madeira e livros
de memórias secretas e lisuras serenas
 
E um sumptuoso silêncio lírico
feito de versos, leituras e poemas
numa longa linhagem de achamento antigo
 
 
Na tessitura de enredo e chama acesa
onde de manso se esconde e desalinha
a urdidura da alma portuguesa
 
 
Tem uma rara beleza vinda do passado
que de tanto atravessar a linguagem
ali vai misturar ambos os lados
 
 
De Portugal, atado em nós de escrita
ao Brasil, recriando a musa ambígua
a partilhar para sempre a mesma língua.

 
Maria Teresa Horta, poetisa portuguesa
 
 

 
 

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Edwin Morgan

 
 
Edwin Morgan (1920-2010) nasceu em Glasgow, Escócia.
 
Poeta, dramaturgo, crítico, tradutor, professor de Inglês e Literatura na Universidade de Glasgow, foi considerado um dos poetas mais destacados do seu país.
 
Em 1950, publicou o primeiro livro de poesia, “The Vision of Cathkin Braes”.
Em 1960, envolveu-se no movimento internacional da poesia concreta. Encetou contactos com poetas concretos de S. Paulo, no Brasil. Foi o maior representante deste tipo de poesia na Escócia.
Activista académico e cultural, colaborou com inúmeras revistas, publicando poemas e ensaios críticos.
 
Recebeu vários galardões literários: “Prêmio de Tradução Weidenfeld” em 2001; “Ordem do Mérito da República da Hungria” e “Medalha de Ouro 2000 da Rainha para a Poesia”.
Em 2004, foi nomeado “Poeta Nacional da Escócia”.
 
Foi desejo do escritor a criação de uma Fundação para premiar jovens poetas escoceses, que se concretizou em 2012.


Palavras de Edwin Morgan:
“O problema dos especialistas é que eles tendem a pensar sempre nas mesmas coisas.”


          Um Cigarro

Não há fumo sem ti, meu fogo.
Depois de teres partido,
o teu cigarro cresceu no meu cinzeiro
e enviou uma linha de uma cinza muito calma.
E sorri a quem iria acreditar no seu sinal
de tanto amor. Um cigarro
no cinzeiro do não-fumador.
Enquanto a última espiral
estremece, uma pequena corrente de ar
sopra o seu caminho no meu rosto.
É cheiro, é gosto?
Tu estás aqui de novo, e eu estou bêbado no teus
lábios de tabaco.
Fora com a luz.
Deixa o fumo esconder-se no escuro.
Até eu ouvir a mesma cinza
suspirar entre as flores de bronze.
Respirarei, após a meia-noite, o teu último beijo.


Edwin Morgan
Tradução: Pedro Calouste