sábado, 14 de maio de 2016

CARTA DE ARMANDO CORTEZ aos CTT – 1969






CARTA DE ARMANDO CORTEZ aos CTT – 1969


Os meus cumprimentos. Vinha solicitar a V. Exas, o favor de, se passarem por Castelo Branco, perguntarem notícias do meu filho Pedro, e terem a sublime gentileza de mas transmitir quando regressarem.

Poderão talvez V. Exas interrogar-se porque não utilizo o telefone, meio tão rápido e eficiente de comunicação.

Há três dias que o tento, Exma. Administração dos CTT. Que o tento em vão!
Não sou rico e preciso de trabalhar. Ora nestes três dias perdi 8 horas à espera de sucessivas chamadas que pedi e de que desisti ao fim de 2 horas de espera.
Perdi portanto nada menos que um dia de trabalho.
Isto não é possível, Exma. Administração dos CTT.

Recuso-me a acreditar que seja por instruções da Exma. Administração dos CTT que as funcionárias sugerem sistematicamente que se peçam chamadas urgentes. Deve ser coisa delas, certamente… Estou convencido de que o pulso firme e administrador de V. Exas. pronto porá cobro a este descaramento.

No caso improvável de o não conseguirem permito-me sugeri a V. Exas. que pelas mesmas taxas estipuladas para os telefones nos forneçam pombos-correios e pacotinhos de limpadura. Os fios telefónicos poderão ter grande aplicação para os pombos descansarem quando as “pombadas” forem interurbanas.

Sem outro assunto, de momento, e enquanto preparo as gaiolas, subscrevo-me com a mais alta consideração.

Armando Cortez

PS – O meu filho Pedro tem calções azuis.



Nota: Esta carta foi cedida pela actriz Manuela Maria, esposa de Armando Cortez. 

sexta-feira, 13 de maio de 2016

EDMUNDO DE BETTENCOURT - Aparição






Edmundo de Bettencourt (Funchal, Madeira, Portugal, 1889 – Lisboa, 1973).

Tornou-se célebre em Coimbra, durante os tempos de estudante universitário, como intérprete do fado coimbrão. E a par disso, como um dos fundadores da revista Presença, a cujo grupo pertenceu até 1930, conjuntamente com José Régio, Gaspar Simões, Branquinho da Fonseca, Fausto Navarro e José António Navarro, ano em que publicou O Momento e a Legenda.
Até 1964, limitou-se a colaborar em alguns jornais e revistas. Altura escolhida para editar Poemas, livro que reúne toda a sua produção poética dispersa.


in “Dicionário da Literatura Portuguesa”


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                             Aparição

A mulher que por mim passou na rua, há pouco, 
foi uma coisa diáfana, gentil, 
cedo, a pairar 
na sombra dum jardim 
com flores, em baixo, ajoelhadas, 
ao senti-la na altura, 
e mandando-lhe o aroma em lágrimas, desfeito, 
para mantê-la em uma nuvem branca... 

Mulher, coisa diáfana, vaga e bela, sem desenho, 
logo fluido animando o colo duma nuvem, nuvem, 
num ápice, trucidada pelo vento! 


Edmundo de Bettencourt, in “Rede Invisível” 

quinta-feira, 12 de maio de 2016

ANTÓNIO BOTTO – Hino de Nossa Senhora do Rosário de Fátima






António Botto, (Concavada, Abrantes, Portugal, 1897 – Rio de Janeiro, Brasil, 1959).


É um dos mais notáveis poetas modernos portugueses, pensador profundo e possuidor de grande intelectualidade.
Colaborou nas principais revistas de vanguarda, distinguindo-se como um dos renovadores da literatura portuguesa contemporânea.
Escreveu diversos livros não só em verso, como em prosa, evidenciando-se especialmente no conto, em que foi considerado um verdadeiro mestre.




Hino de Nossa Senhora do Rosário de Fátima



A treze de Maio
Na cova da Iria
Do céu aparece
A Virgem Maria.

Avé, avé, avé Maria,
Avé, avé, avé Maria.

A três pastorinhos
Cercada de luz
Com eles falou
A mãe de Jesus.

Avé, avé, avé Maria,
Avé, avé, avé Maria.

Vestida de branco
E manto real
Falou do amor
Do bem e do mal.

Avé, avé, avé Maria,
Avé, avé, avé Maria.

Das mãos lhe pendiam
As contas e a cruz
Do terço bem-dito
Da Mãe de Jesus.

Avé, avé, avé Maria,
Avé, avé, avé Maria.

A Virgem lhes manda
O terço rezar
Dizendo: da guerra
Vos hei de salvar.

Avé, avé, avé Maria,
Avé, avé, avé Maria.

Se és Nossa Senhora,
E os mundos são teus,
Diz-nos o teu nome?

Sou a Mãe de Deus.

Avé, avé, avé Maria,
Avé, avé, avé Maria.



António BOTO, in “Fátima – Poema do Mundo”.


quarta-feira, 11 de maio de 2016

OMAR KHAYYĀM - Trechos do Rubayat






Omar Khayyām (Pérsia, 1048 – 1131).

Poeta, matemático, filósofo e astrónomo iraniano.
Calculou como corrigir o calendário persa. O seu calendário tinha uma margem de erro de um dia a cada 3770 anos. 

Contribuiu em álgebra com o método para resolver equações cúbicas pela intersecção de uma parábola com um círculo, que viria a ser retomada séculos depois por Descartes. (…)

Entre suas principais contribuições à matemática estão a solução de equações de segundo grau e a demonstração da impossibilidade de resolução de equações de terceiro grau com números inteiros. Omar Khayyam elaborou vários trabalhos desenvolvendo a geometria euclidiana.

A obra mais famosa de Omar Khayyam, no entanto, está no terreno da literatura. Seu livro mais célebre chama-se Rubayat e compõe-se de uma colecção de mais de mil poemas de quatro versos. Rubayat é o plural da palavra persa "rubai", que significa "quadras". No "rubai", o segundo e o quarto versos são rimados. 

A difusão da poesia de Khayyan no ocidente deve-se à tradução de seus versos para o inglês, feita em 1859 pelo britânico Edward Fitzgerald.
A tradução mais conhecida da obra de Omar Khayyam em português foi feita por Otávio Tarquínio de Sousa, embora vários outros poetas e escritores se tenham sensibilizado com a beleza do Rubayat, como Fernando Pessoa e Manuel Bandeira.


Fonte: Passagens e Marcas


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Palavras de Omar Khayyām:

“Subi a montanha para alcançar as estrelas, voltei invejando os cegos e surdos que encontrava no caminho.”



               Trechos do Rubayat:


Quando eu não mais viver, não haverá mais rosas,
 nem lábios vermelhos, nem vinhos perfumados;
 não haverá auroras, nem amores, nem penas:
 o Universo terá acabado, pois ele é o meu pensamento
                                   
                                     
                               **

Que pobre o coração que não sabe amar
 e não conhece o delírio da paixão.
 Se não amas, que sol pode te aquecer,
 ou que lua te consolar?

                                   
                              **

Vasto mundo: um grão de areia no espaço.
A ciência dos homens: palavras. Os povos,
os animais, as flores dos sete climas: sombras.
O profundo resultado da tua meditação: nada.
                                   
                              **

Uma vez que se ignora o que é que nos reserva
o dia de amanhã, busca ser feliz hoje.
Vai sentar-te ao luar e bebe. Pois talvez
não vivas mais quando amanhã voltar a lua.



Tradução: Manuel Bandeira.





terça-feira, 10 de maio de 2016

CASA MUSEU MANUEL RIBEIRO DE PAVIA





Casa Museu Manuel Ribeiro de Pavia


Trata-se de um pequeno espaço dedicado à obra do artista, onde podem ser admiradas algumas peças de artesanato local, pinturas e desenhos originais, algumas reproduções e livros ilustrados por este insigne alentejano.

Fundada a 16 de Junho de 1984, contou com o apoio da Câmara Municipal de Mora, da Junta de Freguesia de Pavia e com a colaboração de amigos do pintor.
A existência de um espaço como este pretende perpetuar o espólio artístico de Manuel Ribeiro de Pavia, através da promoção e divulgação da sua obra com exposições, publicações, conferências e outros eventos na sua terra natal, dinamizando ainda iniciativas de artes-plásticas.

A Casa Museu é constituída por biblioteca, documentação e museu. 
A biblioteca reúne um conjunto de livros, revistas e outro material impresso, onde se encontra registada a colaboração ou reprodução de trabalho do pintor.
A documentação é composta por reproduções fotográficas de capas e ilustrações que constituem um ficheiro próprio e a classificação de documentos, objectos e outros elementos que registam o trabalho e a personalidade de Manuel Ribeiro Pavia.

Já o museu possui uma exposição permanente de originais, onde as obras expostas são fruto de doações de particulares, aquisições e empréstimos temporários.

Manuel Ribeiro de Pavia, pintor das gentes do Alentejo, nasceu em Pavia a 19 de Março de 1907.
Como ilustrador exerceu influência determinante na modernidade das artes gráficas portuguesas, quer através de capas, quer de inúmeras ilustrações que realizou para escritores seus contemporâneos.

Os desenhos, gravuras e projectos para murais constituem um espólio inconfundível. 

Participou nas Exposições Gerais de Artes Plásticas, na Exposição dos Modernos Gravadores Portugueses (Galeria de Artes e Letras, 1995) e na Exposição Gravura Portuguesa (Pórtico, 1956). 
Em 1950, a Editorial Inquérito publica um álbum com 15 desenhos de nome “Líricas”, com um texto de José Gomes Ferreira.

Faleceu a 19 de Março de 1957, no seu quarto-atelier numa pensão na Rua Bernardim Ribeiro. O artista encontra-se sepultado no cemitério da vila de Pavia, tendo a pedra da sua campa gravado um desenho seu - Planície - homenagem dos seus conterrâneos.

Em maio de 1957, após a sua morte, a revista Vértice, publica um número especial com depoimentos de intelectuais que constituem um vivo testemunho da sua atividade na vida artística portuguesa.
Em 1958, um grupo de amigos do artista realiza na SNBA a primeira exposição e única retrospetiva da sua obra.
Em Abril de 1976, na FIL, é realizado no Mercado Popular do Livro e do Disco, uma exposição documental sobre a sua obra, que posteriormente foi itinerante em várias cidades do país.


Fonte: Câmara Municipal de Mora


 Ilustração publicada, postumamente, na capa da revista Vértice, número 258, de Março de 1965.

segunda-feira, 9 de maio de 2016

HENRIQUE CAIADO – Humanista e poeta






Henrique Caiado (Lisboa, Portugal, 2ª metade do século XV – Roma, Itália, 1509).

Aluno de Cataldo Sículo e de Pedro Rombo, a maior parte do que dele se conhece provém de confidências autobiográficas dispersas na sua obra.

Foi para Itália estudar Direito, mas preferia frequentar mestres de Humanidades e compor versos latinos. Pronunciou em Pádua, perante a Universidade, em 24.10.1503, um discurso de elogio dos Estudos Jurídicos; e um outro, de elogio fúnebre do jurisconsulto Dr. Francesco Faccio, também em Pádua, o que mostra o prestígio  de que gozava na Universidade.
É, por isso, natural que se tenha doutorado em Direito.

Verso e prosa de Henrique Caiado revelam as suas relações com alguns dos primeiros humanistas italianos do seu tempo e com estrangeiros que estudavam em Itália.

A sua reputação de poeta novilatino é internacional, desde as referências de contemporâneos, como Erasmo, ou pouco posteriores, como o crítico Lilio Giraldi, até à reedição de W.P. Mustard, que inclui as suas Aeglogae na coluna “Studies of the Renaissance Pastoral”, publicada pela Universidade de Johns Hopkins.



Fonte: Enciclopédia de Cultura




domingo, 8 de maio de 2016

ALFRED DE MUSSET – Tristeza






Alfred de Musset (Paris, França, 1810 – 1857).

Fez-se conhecer por seus Contos de Espanha e de Itália (1830).
Ensaios infelizes no teatro, depois de uma tempestuosa ligação com George Sand revolucionaram sua vida.

Publicou peças destinadas à leitura, Os Caprichos de Mariana, Fantasio, Não se brinca com o amor, Lorenzaccio, O candelabro, Não se pode confiar em coisa alguma.

Além do livro de poemas, As Noites, escreveu um romance autobiográfico, A Confissão de um filho do século (1836).

A partir de 1838, doente e esgotado pelos excessos, escreveria ainda contos, provérbios, fantasias poéticas, exprimindo as contradições de sua personalidade, poeta da dor e das grandes paixões, foi também o da fantasia ligeira. 



Fonte: Dicionário Enciclopédico KLS


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Palavras de Alfred de Musset:
 “As coisas mais desagradáveis que os nossos piores inimigos nos dizem pela frente, não se comparam com as que os nossos amigos dizem de nós pelas costas.”



                   Tristeza


Eu perdi minha vida e o alento,
E os amigos, e a intrepidez,
E até mesmo aquela altivez
Que me fez crer no meu talento.

Vi na Verdade, certa vez,
A amiga do meu pensamento;
Mas, ao senti-la, num momento
O seu encanto se desfez.

Entretanto, ela é eterna, e aqueles
Que a desprezaram - pobres deles! -
Ignoraram tudo talvez.

Por ela Deus se manifesta.
O único bem que ainda me resta
É ter chorado uma ou outra vez.



Tradução: Guilherme de Almeida







MALMEQUER

MALMEQUER Português, ó malmequer Em que terra foste semeado? Português, ó malmequer Cada vez andas mais desfolhado Ma...