quinta-feira, 21 de julho de 2016

SEBASTIÃO DA GAMA - Madrigal






Sebastião da Gama (Vila Nogueira de Azeitão, Portugal, 1924 – Lisboa, Portugal, 1952).

Poeta de uma Humanidade e autenticidade raras foi prematuramente surpreendido pela morte quando exercia o professorado na Escola Comercial e Industrial de Estremoz, na sequência dum sofrimento que já se arrastava do tempo do magistério.
Razão por que a sua obra se encontra pejada daquela candura romântica tocada pela pungência da morte próxima.

Deixou: Serra Mãe, Cabo da Boa Esperança, Campo Aberto, Pelo Sonho é que Vamos, Diário, Itinerário Paralelo e Segredo de Amar, livros quase todos póstumos.
Loa a Nossa Senhora da Arrábida, foi escrito de colaboração com Miguel Caleiro.



in Dicionário da Literatura Portuguesa



***********



Palavras de Sebastião da Gama: 
"Eu nasci e nada mudou"


        Madrigal

A minha história é simples. 
A tua, meu Amor, 
é bem mais simples ainda: 

"Era uma vez uma flor. 
Nasceu à beira de um Poeta..." 

Vês como é simples e linda? 

 (O resto conto depois; 
mas tão a sós, tão de manso 
que só escutemos os dois). 


Sebastião da Gama, in “Antologia Poética”




quarta-feira, 20 de julho de 2016

KARL JASPER – Filósofo





Karl Jasper (Oldemburgo, Alemanha, 1883 – Basileia, Suíça, 1969).

Foi um dos grandes nomes do pensamento filosófico do século XX.

Começou por se licenciar em Medicina, dirigindo os seus interesse para o campo psiquiátrico e publicando mesmo um estudo sobre psicopatologia. Posteriormente dedicou-se à especulação filosófica, ao longo de uma obra rica de perspectivas, em que sobressaem como marcos principais os três volumes de Filosofia, Razão e Existência, Sobre a Origem e o Propósito da História e Introdução à Filosofia.

Professor na Universidade de Heidelberga, foi demitido em 1937 pelo regime nazi a que sempre se opusera. Após a libertação ( e no período que decorre até à sua fixação na Suíça), dirigiu um curso sobre a responsabilidade do povo alemão nos crimes do nacional-socialismo, publicando depois em livro sob o título A Questão da Culpa, que lhe valeu em 1948 o “Prémio da Paz” dos editores alemães. Na mesma altura, participava no Encontro Internacional de Genebra subordinado ao tema «O Espírito Europeu», onde afirmaria: 

A liberdade só se realiza na comunidade de todos. Só posso ser livre na medida em que todos o forem também.

A Bomba Atómica e o Futuro dos Homens, que publica em 1958 e a que é atribuído o “Prémio Internacional da Paz” vem documentar de novo o interesse de Jaspers pelos problemas do mundo contemporâneo; o que é comprovado também pela atitude crítica que por diversas vezes tomou, nos últimos anos, face ao governo da Alemanha Federal e o seu excessivo nacionalismo.

Profundamente influenciado pela obra de Kierkgaard, Jaspers será um dos criadores do pensamento existencialista, a que deu uma formulação muito pessoal.

Ao lado do filósofo francês Gabriel Marcel – de quem aliás se separa na resposta a alguns problemas fundamentais – estará na origem do «existencialismo cristão», assim chamado por oposição ao agnosticismo patente no ramo do pensamento existencial que, passando por Heidegger, virá a ter no primeiro Sartre o mais lúcido e importante dos doutrinadores.



in “Vida Mundial”- nº 1503 de 4 de Março de 1969.





terça-feira, 19 de julho de 2016

AMADIS DE GAULA – Romance de Cavalaria







      Amadis de Gaula


Romance de cavalaria considerado dos mais importantes, se não mesmo o mais importante que se escreveu na Península Ibérica e quiçá na Europa, onde teve enorme repercussão literária, se exceptuarmos o «D. Quixote de la Mancha», da autoria de Miguel Cervantes.

Surgiu na sequência da «Demanda do Santo Graal» e «José de Arimateia». E oferece o verdadeiro paradigma do perfeito cavaleiro, destruidor de monstros e malvados, amador constante e tímido, segundo o modelo das cantigas de amor, de uma moça solteira, Ariana, que se deixou possuir antes do casamento.

Prevalece a respeito deste famoso romance a incógnita de saber quem terá sido o seu autor e qual o seu país de origem.

O português Vasco de Lobeira, como Gomes Eanes de Azurara aponta (1460) em «Crónica do Conde D. Pedro de Meneses»? João de Lobeira, seu presumível irmão e trovador nas cortes de D. Afonso III e D. Dinis? Ou ainda os dois, cabendo ao primeiro ser o seu iniciador com os dois primeiros livros e ao segundo, o terceiro, podendo aceitar-se que o quarto seja castelhano?
Esta tese que os espanhóis contradizem reclamando a sua paternidade por inteiro.

A primeira edição do «Amadis de Gaula» data de 1508, e foi impressa em Saragoça, (Espanha) por Garcia Rodriguez de Montalvo, que a emendou, actualizou e lhe acrescentou o já referido quarto livro. Quanto à primeira alusão que lhe é feita, cita-se Canciller Ayala, e o ano de 1380.

São inúmeras as reedições que se têm feito deste trabalho ao longo dos séculos, escrevendo-se, ao todo, 12 livros, que formam o ciclo do Amadis.



in Dicionário de Literatura

segunda-feira, 18 de julho de 2016

EDUÍNO DE JESUS – Poema do Amor Desesperado





Eduíno de Jesus (Ponta Delgada, Ilha de S. Miguel, Açores, Portugal, 1928).


Ensaísta, dramaturgo e principalmente poeta do modernismo se revelou Eduíno com o maior destaque. Interessado em divulgar na sua terra a nova moda literária, fundou, juntamente com outros companheiros de tertúlia, à data finalistas do secundário, uma espécie de cenáculo a que se chamou “Círculo Literário de Antero de Quental”. (…)


Por essa altura (1947-1948) Eduíno de Jesus publicou um artigo no jornal "Correio dos Açores" intitulado «O que se deve entender por uma Literatura Açoriana» que antecedeu cinco anos o de Borges Garcia sobre o mesmo tema.


São diversos os estudos e prefácios deste autor que então foram aparecendo na imprensa insular e que dedicou a autores nascidos nos Açores. (…)


Na sua obra poética publicada, é de destacar Caminho para o Desconhecido; O Rei Lua ; A Cidade Destruída durante o Eclipse. (…)


Também escreveu teatro. Apesar de episódica, a escrita dramática de Eduíno de Jesus é significativa. Na sua comédia em um acto Cinco Minutos e o Destino afirma-se partidário da «arte pela arte»: as personagens são remetidas ao anonimato e designadas no diálogo cénico pelo papel que desempenham...(…)


Para a Televisão Portuguesa, produziu e dirigiu os programas literários quinzenais «Convergências, Livros & Autores» (1969-1974).




Fonte: Direcção Regional da Cultura – Açores (excertos)



*****************


               Poema do Amor Desesperado

Espera um pouco (até que o amor de todo nos destrua!)
Amanhã, amanhã é que esta história há-de ser contada.
Então, da nossa vida e amores, não haverá mais nada
Do que um fantasma branco balouçando à lua.

Mas é agora que tudo é verdadeiro. Amanhã, quando
Não houver de nós ambos nem o nome escrito
Em letras de pedra numa pedra num canto do mundo,
Nina, quem saberá o que foi o nosso amor profundo?
O nosso amor maldito?
O nosso amor tão grande?

É preciso, é preciso dar notícia aos grandes profetas do futuro!
(Não vão depois dizer que o nosso amor era pecado…)
Não havia nenhum muro, e para trazer calado
O mundo, é que os dois, a pedra e lágrimas, levantámos a
enorme e intransponível sombra deste muro!


domingo, 17 de julho de 2016

CONFERÊNCIAS CIENTÍFICAS – Os Submarinos





               CONFERÊNCIAS CIENTÍFICAS
                (Para os alunos dos liceus)
           

                       Os Submarinos


O tema da minha conferência de hoje é da maior actualidade, meninos e meninas, ainda que mal me pareça dizê-lo, porque louvor em boca própria é vitupério. 

Que é um submarino? 

É tudo, pessoa ou coisa, que anda debaixo do mar. 
À primeira vista, como todos os dias havereis de ter lido que na guerra actual foram introduzidos como elementos novos os submarinos e os aparelhos aéreos, como aeroplanos, zepelins, etc., é possível que por vezes confundais um aeroplano com um submarino; tal confusão, seria lamentável, e imperdoável, visto que daríeis fraquíssima conta de vós próprios – se imaginásseis que uma pescadinha marmota, por exemplo, pode atravessar as nuvens.

Nada, porém, mais fácil do que evitar a confusão: o submarino tem periscópio e aparelho aéreo não tem. 

A isto objectareis, talvez, que os carapaus e outros submarinos análogos não possuem periscópio; não, efectivamente, mas ninguém nos assegura que os antepassados destes animais o não tenham tido. 
Assim como o homem possui rudimentos de órgãos que foram muito desenvolvidos nos seus avós – o lóbulo auricular, por exemplo, não é mais do que o resto da orelha do burro – é também possível que os peixes possuam periscópios rudimentares.

Os submarinos agrupam-se em duas grandes divisões: os submarinos de paz e os submarinos de guerra. 

Os primeiros compreendem os peixes, os mariscos, o cabo submarino, etc.; os segundos são uns objectos de aço, com gente e torpedos dentro e às vezes fora. Estes são ofensivos e aqueles não, podendo até afirmar-se que muitas das suas espécies são comestíveis, enquanto que dos submarinos de guerra não há exemplo de que algum tenha sido mastigado.

Aconselho-vos, contudo, meninos e meninas, que quando vos apetecer em qualquer restaurante um submarino, expliqueis bem ao moço a espécie, para que não aconteça que ele vos sirva algum tipo do Deutschland, que apesar de ser de paz é de dificílima digestão. 

Tenho dito.
                                                                                          

Bonaparte

(aluno do liceu Camões)




in “Século Cómico” - 1916, suplemento humorístico do jornal “O Século”.


sábado, 16 de julho de 2016

CURRY CABRAL – Cientista e professor





Curry Cabral (Horta, Açores, Portugal, 1844 – Lisboa, 1920).

Residiu quase toda a vida em Lisboa, onde se matriculou na respectiva Escola Médico-Cirúrgica em 1864, tendo defendido a sua tese inaugural a 23 de Julho de 1869.

Passou a exercer medicina no Hospital Real de S. José e Anexos, exercendo as funções de cirurgião do Banco de Urgências e, a partir de 1874, de cirurgião extraordinário. 

Em 1885 foi nomeado director da Enfermaria, chegando em 1900 ao cargo de enfermeiro-mor, tendo-o desempenhado até 1910. Como enfermeiro-mor reformou o sistema administrativo daquele hospital, levando à aprovação de um novo regulamento para os internamentos, que vigorou em todos os hospitais portugueses desde 1901. (…)

Entretanto iniciou carreira académica, sendo nomeado por decreto de 11 de Dezembro de 1873, após concurso, preparador e conservador do Museu de Anatomia da Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa. Exerceu aquele cargo até 10 de Fevereiro de 1876, data em que foi nomeado lente substituto da secção cirúrgica daquela Escola, ingressando assim na respectiva docência. (…)

A sua fama como cientista e como professor de ciências médicas levou a que fosse de feito membro de várias associações científicas, nacionais e estrangeiras, entre as quais da Societé d'Hygiene de Paris, e eleito sócio correspondente da Academia Real das Ciências de Lisboa. (…)

Foi o principal impulsionador da instalação em Lisboa de um hospital para tuberculosos e outros pacientes de doenças infecto-contagiosas. Aquele hospital, ainda hoje conhecido popularmente como Hospital do Rego, foi erguido no local onde assentou o Convento das Convertidas de Nossa Senhora do Rosário, de religiosas franciscanas, fundado depois de 1768.

Inaugurado em 1906, por obra do Governo de Hintze Ribeiro, com o nome de Hospital do Rego, aquela instituição deu origem ao actual Hospital Curry Cabral, assim denominado, no ano de 1929, em homenagem ao Professor José Curry da Câmara Cabral.



in Instituto de História Contemporânea (excertos)

sexta-feira, 15 de julho de 2016

ANTÓNIO JOSÉ DA SILVA, "O JUDEU"





António José da Silva, “O Judeu” (Rio de Janeiro, Brasil, 1705 – Lisboa, Portugal, 1739)

António José da Silva, “O Judeu”, é um dos grandes nomes da História da Literatura Portuguesa e Brasileira.

A família terá procurado na colónia sul-americana uma maior tolerância, numa altura em que os judeus eram perseguidos em Portugal e nas suas colónias. (…)

António José da Silva era filho do advogado e poeta João Mendes da Silva, que conseguiu manter a fé judaica secretamente, e de Lourença Coutinho, filha de um proprietário de uma plantação de cana-de-açúcar, que não conseguiu escapar das malhas inquisitórias. Em 20 de Fevereiro de 1712, Lourença Coutinho foi presa, acusada de ser judia, e foi deportada para Portugal, a bordo da nau "Calendária", onde foi entregue à Santa Inquisição. 

João Mendes da Silva decide, nessa altura, partir para Portugal para estar próximo da esposa e leva consigo os filhos: António José (7 anos), Baltazar (doze anos) e André (dez anos). A 10 de Outubro desse ano desembarcam da nau "Madre de Deus" e dez meses depois os pais de António José da Silva são condenados às penas de confiscação de bens, abjuração, hábito penitencial e cárcere, onde permanecem dez dias, acabando por se estabelecerem em Lisboa. 

Anos mais tarde, numa das suas "óperas", António José da Silva chegará a escrever os seguintes versos: "

Tirana ausência 
que me roubaste e me levaste  
da alma o melhor 
Ai de quem sente  
de um bem ausente 
a ingrata dor.

Aos 21 anos já António José da Silva frequentava o curso de Direito na Universidade de Coimbra e destacava-se pela inteligência e pelas qualidades enquanto poeta. (…)

Interessado pela dramaturgia, "O Judeu"" foi autor de uma sátira que serviu de imediato às autoridades como pretexto para a sua prisão. A 8 de Agosto de 1726, António José da Silva foi preso, juntamente com a mãe, e submetido a torturas que lhe fizeram perder a fala e que o deixaram parcialmente inválido. Após a abjuração, a penitência e o juramento de jamais cometer heresias, António José da Silva foi libertado. (…)

O período de seis anos, entre 1733 e 1738, corresponde ao auge da criação literária de António José da Silva e à sua afirmação como dramaturgo. 

As suas sátiras e comédias ficaram conhecidas como a obra do "Judeu" e foram várias vezes encenadas com grande êxito. 

Foram-lhe atribuídas obras, publicadas em vida do autor, como: Labirinto de Creta, As Variedades de Proteu, Guerras do Alecrim e Manjerona. (…)

António José da Silva, respeitado até pelo rei, viu-se preso de novo, a 5 de Outubro de 1737, juntamente com a mulher e com a mãe, já viúva. (…) Foi acusado de jejuns rituais, torturado, acabando por ser condenado como herege. (…)

A 18 de Outubro de 1739, António José da Silva foi estrangulado e queimado num Auto-de-Fé, em Lisboa, no "Campo da Lã". (…)

A sua vida e a sua obra foram fonte de inspiração para muitos, entre eles, Camilo Castelo Branco, no romance O Judeu (1866), Bernardo Santareno na peça O Judeu (1966) e, mais recentemente, o filme O Judeu (1995), uma vida encenada por Jom Tob Azulay.



Fonte: Teatro Nacional D. Maria II (excertos)




MALMEQUER

MALMEQUER Português, ó malmequer Em que terra foste semeado? Português, ó malmequer Cada vez andas mais desfolhado Ma...