terça-feira, 15 de agosto de 2017

EMILY GREENE BALCH - Prémio Nobel da Paz

 
 
 
EMILY GREENE BALCH
(Boston, EUA, 1867 — Cambridge, 1961)

Economista, socióloga e pacifista

 
Estudou economia e literatura. Obteve uma bolsa de estudo no estrangeiro, bolsa jamais atribuída a uma aluna. Emily era demasiado dotada e de forte carácter. Viajou para Paris onde se dedicou a estudar a pobreza e medidas sociais. Regressa aos EUA e com Jane Adam fundou casas onde as trabalhadoras das fábricas de tabaco e manufactura de sacas podiam ter o seu espaço, depois dos dias de árduo trabalho, com horários prolongados.
 
Em 1896 começou a preparar o doutoramento, enquanto ensinava economia e sociologia. Foi docente no “Wellesley College”. Paralelamente Emily desenvolveu intensa actividade como pacifista e lutou contra as leis discriminatórias para com os imigrantes.
 
Foi delegada ao Congresso Feminino Internacional de Haia, em 1915 e participou nos Congressos da Escandinávia e Rússia. Amiga de Jane Addams esteve na origem da criação da Liga Feminina Internacional para a Paz e a Liberdade tendo chegado a Presidente.
 
Fundou o jornal "A Nação". Visitou diversos países, esteve nos Balcãs, Viena e Praga.

Em 1946 recebeu, com Elisabeth Morrow, o “Prémio Nobel da Paz”.

 

in “O Leme”


segunda-feira, 14 de agosto de 2017

LUÍS AMARO - Canção efémera

 
 
 
LUÍS AMARO
(Aljustrel, Portugal, 1923)

Poeta e crítico literário

Foi um dos fundadores e directores das folhas de poesia Árvore (1951-1953). Colaborou na Távola Redonda e nas revistas Seara Nova e Portucale.

Publicou os livros Dádiva, 1949, e Diário Íntimo, 1975.

Influenciada pelo movimento da Presença, a sua poesia intimista de penumbra exprime-a com musicalidade numa linguagem simbolista.


in “Grande Livro dos Portugueses”

 ***
CANÇÃO EFÉMERA

Meu sonho dum momento
Que o engano teceu
E um imperceptível vento
Nas asas envolveu...

Nem fixei a imagem
Ora desfeita e vã:
Ondula na aragem,
Faz parte da manhã.

Quando passou seu rosto
Impressentido, breve,
Que a nuvem dum desgosto
Não fixou nem teve,

Logo uma luz ardente
Em minha alma nasceu:
Imagem finda, ausente,
Dum sonho que foi meu!


Imagem: retrato de Luís Amaro  «a partir de uma fotografia de 1950», pelo artista plástico Luís Manuel Gaspar.


domingo, 13 de agosto de 2017

MAXIMO GORKI E LEON TOLSTOI

 



MAXIMO GORKI E LEON TOLSTOI

 
«Todos os homens que lutam pela vida e estão sujeitos às suas contingências são mais filósofos do que Schopenhauer porque jamais uma ideia abstracta tomará uma forma tão precisa como a que a dor arranca d'um cérebro».
 
Estas palavras, que o punho de Gorki atirou pelo caminho dos Vagabundos fora, são a síntese da sua obra e da sua autobiografia.
 
Tolstoi é evidentemente um demolidor... místico, mas a sua dor, a dor que descreve, não sangra como a dor humana, é aprendida de cor.
 
Entre Tolstoi e Gorki há a distância que vai d'um homem que dá a sua fortuna voluntariamente, a outro que nunca a teve, d'um homem que se abstém, a outro que necessita, d'um homem que tem um sofá e se deita no chão, a outro que é forçado a dormir ao relento sobre uma fraga ou sobre a terra alagada.
 
Tolstoi sabe que há desgraçados, como um confessor em cujo coração os infelizes vão transvasar as suas amarguras.
 
Gorki é um próprio, um autêntico membro d'essa família de espoliados e espesinhados.
E da sua condição nasce o alto valor da sua obra.
É uma obra literária?
De modo nenhum!
Tem durezas e na sobriedade do descritivo e do ritmo se vê que o autor não se sentou á banca com os punhos de renda de Buffon ou os cigarros doirados indispensáveis aos semicúpios poéticos d'esse sacristão político que dá nas várias avenidas Friveland pela alcunha de François Copée.
 
Gorki não vem da Academia; Gorki vem da miséria, d'esse pântano cristalino onde «tudo é corrupto, é certo» - diz ele- «mas onde tudo é também sincero e simples ».
 
Na literatura de Maximo não há essa forma construída de orquestrações sensuais dos in 8.º Jesus da vitrine francesa; não se tropeça com os requintes arqueológicos dos dramaturgos portugueses, meros repórteres da malandragem histórica– ali ouve-se, vê-se apenas, nua e crua, a grande Dor Humana.
E tanto assim que as multidões moscovitas não elegeram para símbolo das suas remetidas outro senão esse vagabundo de génio que é Gorki.
 
Na literatura dum país, como Portugal, em que toda a gente vive a pedir um cigarro ao amigo, para não pedir dinheiro emprestado até para fumar, Gorki seria um escândalo.
A justificação da obra de Gorki está evidentemente na sua vida.
Mas nenhum valor teria Máximo se todos os homens que veem da sargeta tivessem a franca coragem de pintar a sarjeta.
Ele pinta-a, e pinta-a com a veemência e a verdade que só os depoimentos das pessoas dão.
Por isso mesmo, Gorki tem assegurado o amor, a estima fraternal de todos os que, como eu, apesar destas luvas e deste chapéu alto que são o meu apêndice caudal da civilização, - amam profundamente, fraternalmente o povo.
 
E o Povo é igual em toda a parte, na Rússia e na América, na França ou na Itália, em Londres ou no Carvalhido ou aqui em Xabregas.
 
 
JOAQUIM LEITÃO, in “Luz e Vida” – revista de Sociologia, Arte e Crítica - 1905


sábado, 12 de agosto de 2017

ANTERO DE QUENTAL - Espiritualismo

 
 
 
 
ANTERO DE QUENTAL
(Ponta Delgada, Açores, Portugal, 1842 -1891)

Escritor e poeta

ESPIRITUALISMO

I

Como um vento de morte e de ruína,
A Dúvida soprou sobre o Universo.
Fez-se noite de súbito, imerso
O mundo em densa e algida neblina.


Nem astro já reluz, nem ave trina,
Nem flor sorri no seu aéreo berço.
Um veneno subtil, vago, disperso,
Empeçonhou a criação divina.

E, no meio da noite monstruosa,
Do silêncio glacial, que paira e estende
O seu sudário, d'onde a morte pende,

Só uma flor humilde, misteriosa,
Como um vago protesto da existência,
Desabroxa no fundo da Consciência.

II

Dorme entre os gelos, flor imaculada!
Luta, pedindo um ultimo clarão
Aos sóis que ruem pela imensidão,
Arrastando uma auréola apagada...

Em vão! Do abismo a boca escancarada
Chama por ti na gélida amplidão...
Sobe do poço eterno, em turbilhão,
A treva primitiva conglobada...

Tu morrerás também. Um ai supremo,
Na noite universal que envolve o mundo,
Ha-de ecoar, e teu perfume extremo

No vácuo eterno se esvairá disperso,
Como o alento final d'um moribundo,
Como o último suspiro do Universo.

 

in "Sonetos"

 

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

MORTE EM VENEZA

 
 
 
 
MORTE EM VENEZA

 
A 16 de Junho de 1973, no Festival de Aldeburgh, estreia-se a última ópera de Benjamin Britten: Death in Venice (Morte em Veneza). Nesta ocasião, e contra o que nele é habitual, o compositor não se coloca à frente da orquestra para dirigir a sua obra. Uma grave doença cardíaca obrigou-o a ser hospitalizado, após ter sofrido uma intervenção de coração aberto. O papel principal da ópera, o do escritor Aschenbach, é encarnado pelo tenor Peter Pears, companheiro de Britten desde a década de 40.
 
Baseada no romance do mesmo título de Thomas Mann, Morte em Veneza é uma das obras mais autobiográficas do compositor, que parece ver no seu protagonista (um artista maduro que se sente atraído por um rapazito no ambiente de uma Veneza decadente) uma espécie de alter ego.

 

in “Auditorium”

Imagem: fotografia de Clive Barda


quinta-feira, 10 de agosto de 2017

MANUEL LARANJEIRA - Vendo a morte

 


MANUEL LARANJEIRA
(Mozelos, Portugal, 1877 - Espinho, 1912)

Médico, poeta e dramaturgo

Com o auxílio financeiro do irmão e da cunhada, Manuel Laranjeira inscreveu-se, já com 18 anos, num liceu portuense. Nesta fase da vida escreveu o primeiro poema, Tenho inveja de Cristo… (1898), e, depois de concluir os estudos liceais, realizou a primeira incursão pela criação dramática com O Filósofo.
Em 1899 ingressou na Escola Médico-Cirúrgica do Porto, para seguir medicina.

Manuel Laranjeira vivia insatisfeito, escrevia muito - sobre crítica social, artística, literária e política -, e proferia eloquentes conferências.
Em 1908 conheceu Miguel de Unamuno, escritor, poeta e filósofo espanhol, que esteve em sua casa e se tornou um dos seus maiores amigos e assíduos correspondentes (1864-1936). Unamuno escreverá um dia que "foi Laranjeira quem me mostrou a alma trágica de Portugal (…) e não poucos lugares dos abismos tenebrosos da alma humana".

A sua saúde deteriorara-se durante os últimos anos de vida. Vivia doente e isolado e obcecado pelo suicídio, que considerava a forma perfeita de "redenção moral".


in “Universidade do Porto” (excertos)

***

Palavras de Manuel Laranjeira
“Crer...! Em Portugal, a única crença ainda digna de respeito é a crença — na morte libertadora.”
 
 
***
 
 
VENDO A MORTE
 
Em tudo vejo a morte! e, assim, ao ver
que a vida já vem morta cruelmente
logo ao surgir, começo a compreender
como a vida se vive inutilmente...
 
Debalde (como um náufrago que sente,
vendo a morte, mais fúria de viver)
estendo os olhos mais avidamente
e as mãos prà vida... e ponho-me a morrer.
 
A morte! sempre a morte! em tudo a vejo
tudo ma lembra! e invade-me o desejo
de viver toda a vida que perdi...
 
E não me assusta a morte! Só me assusta
ter tido tanta fé na vida injusta
... e não saber sequer pra que a vivi!
 
 
 

 

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

DIOGO BERNARDES - Onde Porei Meus Olhos que não Veja

 
 
 

DIOGO BERNARDES
(Ponte da Barca, Portugal,1520 –Lisboa, 1605)

Poeta

Veio muito novo para Lisboa. Teve como mestre venerado, nas letras, Sá de Miranda. Moço de câmara de D.Sebastião (já o era em 1566), acompanhou o monarca na «jornada infelice» de Alcácer Quibir. Resgatado em 1581, serviu como cavaleiro fidalgo as novas autoridades palacianas. No fim da vida vieram a lume as colectâneas Várias Rimas ao Bom Jesus, O Lima e Rimas Várias – Flores do Lima.

O século XVII apreciou o seu lirismo religioso, marcado por um tom de manifesta sinceridade e experiência, mas o que na sua obra mais vale são as composições bucólicas, caracterizadas por uma serena e equilibrada melancolia e naturalidade. Lope de Vega tinha-o por mestre na écloga. É geralmente considerado o maior poeta bucólico e um dos melhores líricos portugueses do século XVI.

in “O Grande Livro dos Portugueses”
 
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ONDE POREI MEUS OLHOS QUE NÃO VEJA

Onde porei meus olhos que não veja
A causa, donde nasce meu tormento?
A que parte irei co pensamento
Que pera descansar parte me seja?

Já sei como s'engana quem deseja,
Em vão amor firme contentamento,
De que, nos gostos seus, que são de vento,
Sempre falta seu bem, seu mal sobeja.

Mas inda, sobre claro desengano,
Assim me traz est'alma sogigada,
Que dele está pendendo o meu desejo;

E vou de dia em dia, de ano em ano,
Após um não sei quê, após um nada,
Que, quanto mais me chego, menos vejo.


in “Antologia Poética”
 

 

 

MALMEQUER

MALMEQUER Português, ó malmequer Em que terra foste semeado? Português, ó malmequer Cada vez andas mais desfolhado Ma...