sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Mensagem de Despedida à Humanidade Futura.

 
 

     Mensagem de Despedida à Humanidade Futura

“Gostaria de dizer que temos, graças aos nossos conhecimentos actuais, poderes jamais alcançados pelo homem. Podemos utilizar esses poderes para o bem ou para o mal.
 
Serão bem utilizados se nos compenetrarmos de que a humanidade é toda ela uma família, e de que podemos ser todos felizes ou todos infelizes. Já lá vai o tempo em que uma pequena minoria podia viver feliz à custa da miséria das grandes massas.
 
Já ninguém se sujeita a uma situação dessas, e temos de aprender a aceitar a ideia de que o nosso vizinho também tem direito a ser feliz, se nós próprios queremos ser felizes.
 
Estou convencido de que, se todos forem educados inteligentemente, serão mais expansivos e não terão dificuldade em considerar a felicidade alheia como condição essencial para a felicidade própria.
 
Ás vezes tenho visões de um mundo de seres humanos felizes, cheio de vivacidade, inteligentes, onde não há opressores nem oprimidos.
 
Um mundo de seres compenetrados de que os seus interesses comuns excedem os interesses de competição, empenhados na efectivação das possibilidades realmente extraordinárias que a inteligência e imaginação humanas podem tornar realidade.
 
Esse mundo pode existir, se os homens quiserem. E quando existir – se algum dia chegar a existir – será um mundo muito mais maravilhoso, muito mais glorioso e mais feliz, mais rico em imaginação e em alegrias do que qualquer outro jamais conhecido.”
 

Bertrand Russel, in “A Minha Concepção do Mundo”

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Tomaz de Figueiredo

 


Tomaz de Figueiredo  (1902-1970) nasceu em Braga, Portugal.

Escritor, poeta, ensaísta, cronista, tradutor e crítico literário, é considerado um dos melhores romancistas da sua geração.

Licenciou-se em Direito pela Universidade de Lisboa.

Em 1956, publicou o seu primeiro livro de poesia, intitulado “Guitarra – Treze Romances em Verso”.

Outras obras: “A Toca do Lobo”;  “Procissão dos Defuntos”; “Conversa com o Silêncio”; “Nó Cego”; “Vida de Cão”; “A Outra Cidade”.

Postumamente, foram publicados “Dicionário Falado” e o 3º volume de “Monólogo em Elsenor – Túnica de Nesso”.

Foi um intransigente defensor da Língua Portuguesa.

Recebeu os seguintes galardões: “Prémio Eça de Queirós”; “Prémio Diário de Notícias”; “Prémio Nacional de Novelística”.

 
Palavras de Tomaz de Figueiredo:
“Considero-me e quero-me de Arcos de Valdevez, para onde fui de poucos meses, terra minha pela memória e pelo amor.”

 
 
             Casa de Casares

 
Morro de amor pelo meu pátrio Minho,
pela vila dos Arcos, pela Casa
de Casares, onde a minha infância dorme,
onde esperei, feliz, envelhecer,
escrevendo mais livros, sempre livros,
onde cuidei morrer e, como Goethe,
pedindo luz e luz, sempre mais luz,
de janelas rasgadas sobre o Vez,
sobre a fonte que jorra da carranca,
sobre as minhas amadas laranjeiras.
Fausto, morro de amor pelos meus livros,
pelos romances que pensei, fugidos,
perdidos e sumidos, pois já não
bolem as suas almas em meu clima
de desespero, ao qual só é possível
deixar que espumem versos em cascata
e a esmo, de espontânea geração,
milagrosos, de insólito fenómeno.

 

Tomaz de Figueiredo, in: “Viagens no meu Reino”

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

T.S.Eliot

 

T.S.Eliot  (1888-1965) nasceu em St.Louis, Estados Unidos da América.

Em 1914, foi viver para Inglaterra,  decidindo tornar-se cidadão britânico.

Estudou em Harvard, nos Estados Unidos, na Sorbonne, em Paris e em Oxford, na Inglaterra.

Foi poeta, dramaturgo, ensaísta e crítico literário.

É um dos grandes poetas modernistas do século XX.

Algumas das suas obras marcantes: “A Terra Desolada”, “Quatro Quartetos” e “A Canção de Amor de J. Alfred Prufrock”.

Em 1948, recebeu o Prémio Nobel de Literatura.

 

Palavras de T.S.Eliot :

“Os poetas imaturos imitam; os poetas maturos roubam; os maus poetas desfiguram o que pegam, e bons poetas transformam-no em algo melhor, ou pelo menos em algo diferente.”
 

 
                 Morte por água           
 
Flebas, o Fenício, morto há quinze dias,
esqueceu o grito das gaivotas e o marulho das vagas
e os lucros e prejuízos.
Uma corrente submarina
roeu-lhe os ossos em surdina.
Enquanto subia e descia
ele evocava as cenas de sua maturidade e juventude
até que ao torvelinho sucumbiu.
Gentio ou judeu
ó tu que o leme giras e avistas onde o vento se origina,
considera a Flebas, que foi um dia alto e belo como tu.
 
T.S.Eliot, in “A Terra Desolada”
 
 

 

 

 

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Coisas, Pequenas Coisas

 
 
 
 

 
     Coisas, Pequenas Coisas 

 

Fazer das coisas fracas um poema.
 
Uma árvore está quieta,
murcha, desprezada.
Mas se o poeta a levanta pelos cabelos
e lhe sopra os dedos,
ela volta a empertigar-se, renovada.
E tu, que não sabias o segredo,
perdes a vaidade.
Fora de ti há o mundo
e nele há tudo
que em ti não cabe.

Homem, até o barro tem poesia!
Olha as coisas com humildade.
 
Fernando Namora, in “Mar de Sargaços”.

 

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Christina Rossetti

 
 
 

Christina Rossetti ( 1830-1894) de ascendência italiana,  nasceu em Londres.

Poetisa e contista, notabilizou-se pela originalidade, religiosidade  e simplicidade, com que tratou temas como: amor, morte, vida além-túmulo.

Em Londres, foi professora de italiano no “King´s College”.

Publicou diversos livros de poemas, destacando-se “ Mercado dos Duendes e Outros Poemas”, ilustrado pelo seu irmão, o pintor Dante Gabriel Rossetti. Esta publicação foi o seu maior sucesso literário.

Muitos dos seus poemas foram traduzidos  em várias línguas.

 

 
Palavras de   Christina Rossetti:  Pode alguma coisa ser mais triste do que um trabalho incompleto? Sim: um trabalho que nunca foi começado.”
 
 
 
Canção
 
Em minha sepultura,
ó meu amor, não plantes
nem cipreste nem rosas;
Nem tristemente cantes.
Sê como a erva dos túmulos
que o orvalho umedece.
E se quiseres, lembra-te;
Se quiseres, esquece.
Eu não verei as sombras
quando a tarde baixar;
Não ouvirei de noite
o rouxinol cantar.
Sonhando em meu crepúsculo,
sem sentir, sem sofrer,
talvez possa lembrar-me,
talvez possa esquecer.
 
Christina Rossetti
 
 
 

 


domingo, 26 de janeiro de 2014

Manuela Porto

 
 

Manuela Porto (1908-1950) nasceu em Lisboa.

Escritora, declamadora de poesia, actriz, crítica de teatro e de literatura,  encenadora, tradutora, foi uma mulher extraordinária de talento e inovação, em todas as actividades que exerceu.

 
Em 1933, terminou o Curso de Arte de Representar, no Conservatório Nacional de Lisboa. Fez parte do elenco  da Companhia Amélia Rey Colaço-Robles Monteiro.

 
Anos depois decidiu organizar recitais de declamação, que foram relevantes na divulgação dos nossos poetas. Foi considerada a “recriadora dos poetas”.

 
Colaborou na “Seara Nova”, “Mundo Literário”, “Vértice”, entre outras publicações.

 
Proferiu diversas conferências, com destaque para uma de grande interesse, denominada “ Teatro dell´Arte Fonte de Inspiração à Reteatralização do Teatro”.

 
Algumas das suas obras: “Um Filho Mais e Outras Histórias”; “Virgínia Woal e o Problema da Mulher”; “Doze Histórias sem Sentido”.

 
Fernando Lopes Graça, maestro e músico, dedicou-lhe, postumamente, a composição de piano: “Pranto à Memória de Manuela Porto”.

 
Excerto do livro "Doze Histórias sem Sentido"
 
“Muitas e muitas emoções, alegrias e dores, de que me ocupo nalgumas das minhas histórias, escritas muitas delas há anos, já me parecem hoje frívolas, imponderáveis, indignas de que a elas se ligue grande atenção, num mundo em que tanto se sofre por grandes, autênticos motivos, num mundo que cai em escombros, para além dos quais, no entanto – já adivinhamos – um outro universo há-de despontar, permitindo que a vida se torne qualquer coisa digna de se viver.”

Manuela Porto, in “Doze Histórias sem Sentido”.


sábado, 25 de janeiro de 2014

Origem dos sonhos esquecidos

 
 

 
Origem dos sonhos esquecidos

 
Entre a bicicleta e a laranja
vai a distância de uma camisa branca

Entre o pássaro e a bandeira
vai a distância dum relógio solar

Entre a janela e o canto do lobo
vai a distância  dum lago desesperado

Entre mim e a bola de bilhar
vai a distância dum sexo fulgurante

Qualquer pedaço de floresta ou tempestade
pode ser a distância
entre os teus braços fechados em si mesmos
e a noite encontrada para além do grito das panteras

qualquer grito de pantera
pode ser a distância
entre os teus passos
e o caminho em que eles se desfazem lentamente

Qualquer caminho
pode ser a distância
entre tu e eu

Qualquer distância
entre tu e eu
é a única e magnífica existência
do nosso amor que se devora sorrindo

 

Mário Henrique Leiria, in “Antologia da Poesia Surrealista Portuguesa”.

Ilustração: Interior da Caverna de Chauvet-Pont-d´Arc, no sul de França, onde foram descobertos centenas de desenhos rupestres.

O filme “A Caverna dos Sonhos Esquecidos”, realizado por Werner Herzog, em 2011, revela o misterioso e impressionante mundo subterrâneo, com pinturas que têm, em média, trinta e dois mil anos de idade.

 

 

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Virgínia Victorino

 


Virgínia Victorino (1895-1967) nasceu em Alcobaça.
Foi poetisa, professora, dramaturga e tradutora.
Formou-se em Filologia Românica e frequentou o Conservatório Nacional de Música.
Em 1917, estreou-se, literariamente, com o soneto “Incerteza”.
Na ex-Emissora Nacional, foi responsável pelo pelouro de Teatro Radiofónico.
Colaborou em diversos jornais e revistas portugueses e brasileiros.
Escreveu três livros de poesia e seis peças de teatro.
Foi agraciada com o grau de “Oficial da Ordem de Cristo", com a “Comenda da Ordem de Sant´Iago", com a “Cruz de Afonso XII”, de Espanha.

 
Palavras de Virgínia Victorino: “Sei onde vou e a parte que me cabe! E há tanta, tanta gente que nem sabe o que lhe falta para ser feliz!”


                                                                       Amor
 
O amor! O amor! Ninguém o definiu.
É sempre o mesmo. Acaba onde começa.
Quem mais o sente menos o confessa,
e quem melhor o diz nunca o sentiu.
 
Conhece a todos mas ninguém o viu.
Se o procuramos, foge-nos depressa.
Se o desprezamos, todo se interessa,
só está presente quando já fugiu.
 
É homem feito sendo criança.
E quanto mais se quer menos se alcança,
ninguém o encontra, e em toda parte mora.
 
Mata a quem dele vive. É sempre assim.
Só principia quando chega o fim,
morreu há muito e nasce a cada hora.
 
 
Virgínia Victorino, in “Os Mais Belos Sonetos que o Amor Inspirou”.

 





quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Dignidade e Liberdade – Dizer NÃO

 
 



                                         Dizer NÃO

Diz NÃO à liberdade que te oferecem, se ela é só a liberdade dos que ta querem oferecer. Porque a liberdade que é tua não passa pelo decreto arbitrário dos outros.

Diz NÃO à ordem das ruas, se ela é só a ordem do terror. Porque ela tem de nascer de ti, da paz da tua consciência, e não há ordem mais perfeita do que a ordem dos cemitérios.

Diz NÃO à cultura com que queiram promover-te, se a cultura for apenas um prolongamento da polícia. Porque a cultura não tem que ver com a ordem policial mas com a inteira liberdade de ti, não é um modo de se descer mas de se subir, não é um luxo de «elitismo», mas um modo de seres humano em toda a tua plenitude.

Diz NÃO até ao pão com que pretendem alimentar-te, se tiveres de pagá-lo com a renúncia de ti mesmo. Porque não há uma só forma de to negarem negando-to, mas infligindo-te como preço a tua humilhação.

Diz NÃO à justiça com que queiram redimir-te, se ela é apenas um modo de se redimir o redentor. Porque ela não passa nunca por um código, antes de passar pela certeza do que tu sabes ser justo.

Diz NÃO à verdade que te pregam, se ela é a mentira com que te ilude o pregador. Porque a verdade tem a face do Sol e não há noite nenhuma que prevaleça enfim contra ela.

Diz NÃO à unidade que te impõem, se ela é apenas essa imposição. Porque a unidade é apenas a necessidade irreprimível de nos reconhecermos irmãos.

Diz NÃO a todo o partido que te queiram pregar, se ele é apenas a promoção de uma ordem de rebanho. Porque sermos todos irmãos não é ordenamo-nos em gado sob o comando de um pastor.

Diz NÃO ao ódio e à violência com que te queiram legitimar uma luta fratricida. Porque a justiça há-de nascer de uma consciência iluminada para a verdade e o amor, e o que se semeia no ódio é ódio até ao fim e só dá frutos de sangue.

Diz NÃO mesmo à igualdade, se ela é apenas um modo de te nivelarem pelo mais baixo e não pelo mais alto que existe também em ti. Porque ser igual na miséria e em toda a espécie de degradação não é ser promovido a homem mas despromovido a animal.

E é do NÃO ao que te limita e degrada que tu hás-de construir o SIM da tua dignidade.



Vergílio Ferreira, in “Conta-Corrente 1”

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Nelly Sachs

 
 

Nelly Sachs, (1891-1970) escritora, poetisa e tradutora alemã, de família judaica, nasceu em Berlim, Alemanha.
Estudou dança e bailado e desde pequena que se interessou pela poesia e literatura.
Esteve num campo de concentração. A sua família morreu durante as perseguições nazis.
Em 1940, conseguiu sair da Alemanha, viajando para a Suécia, fixando residência em Estocolmo.
A sua obra - poesia e peças de teatro - têm como tema dominante o sofrimento dos judeus.
Em 1921, publicou o primeiro livro, intitulado: “Lendas e Contos”.
As suas obras estão reunidas em dois volumes : “Viagem para Onde não Há Pó” (Poesia) e “Signos na Areia” (Teatro).

Em 1966, recebeu o Prémio Nobel de Literatura.

 

Palavras de Nelly Sachs : "Uma porta é uma faca: ela divide o mundo em duas partes."
 
 

Vós que nos desertos…

Vós que nos desertos
buscais veios de água ocultos -
de dorso curvado
escutais à luz nupcial do Sol -
filhos duma nova solidão com Ele -

As vossas pegadas
calcam a saudade
para os mares de sono -
enquanto o vosso corpo
lança a folha escura de flor da sombra
e em terra de novo sagrada
o diálogo que mede o tempo
entre estrela e estrela começa.

Nelly Sachs, in “Poemas de Nelly Sachs”
Tradução:Paulo Quintela